A_GUERRA_DA_TARIFA

Três Clássicos Pessoais – Leo Vinicius

Bom, o Leo Vinicius, se levarmos muito em conta o poder dos livros e o trabalho intelectual como “germén” das manifestações que tomaram de assalto o país em junho de 2013, deveria ser apontado como mentor “intelectual” perigosíssimo do que se passou. Mas ninguém vai te entregar essa real por aí – primeiro por incapacidade da imprensa de enxergar além de seus restritos dogmas e segundo porque tem toda uma leva de “intelectuais de gabinete”, assalariados do pensar, que estão preocupados em criar sua própria bibliografia sobre o assunto. Tudo na mais perfeita “ordem”, diga-se de passagem.  Eu explico.

Leo, como integrante do MPL de Florianópolis, escreveu o primeiro grande relato sobre a Revolta da Catraca de junho/julho de 2004, o fundamental A Guerra da Tarifa (que você pode ler aqui). Nem preciso dizer que 11 entre 10 membros do MPL leram este livro né? Mas não é só isso não: o fera tem uma “mãozinha” nos “terríveis e hediondos” Black Blocs brasileiros. Explico novamente.

Pra quem acompanhou a Coleção Baderna da Conrad Editora, que lançou uma dezena de livros que fez e parece ainda fazer a cabeça da molecada que tá tomando as ruas, Leo é o tal do “Ned Ludd”, organizador das coletâneas Apocalipse Motorizado (saiba mais aqui), crítica à centralidade do automóvel particular em nossa sociedade (que foi homenageado neste ótimo blog), e, principalmente para o objetivo desse post, do Urgência das Ruas (em PDF aqui), que reunia textos dos grupos Black Bloc e Reclaim the Streets, entre outros. Notem: BLACK BLOC!!

Seria o Leo a “mão invísivel” do caos? Que o Demétrio Magnolli desse vídeo, esse reacinha lindo, não leia este post…

Vai lá, baderneiro!

“Aqui vão 3 livros que embora talvez não sejam considerados clássicos, se tornaram “clássicos” para mim. Mas não clássicos no sentido de serem datados, mas pelo contrário, terem realmente muito a nos dizer e entender a sociedade em que vivemos.

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A Troca Simbólica e a Morte. Jean Baudrillard. Edições Loyola

Publicado em 1976, li o livro por volta de 2002. Acho que em 2001 comecei a ler o Baudrillard, começando pelo que até hoje considero o seu melhor livro e um verdadeiro clássico: A Sociedade de Consumo. Em 2002, quando o Wu Ming 1 [um dos autores dos RECOMENDADÍSSIMOS Q, O Caçador de Hereges e 54] esteve no Brasil, estávamos conversando e veio o nome do Baudrillard, e ele me disse que o livro A Troca Simbólica e a Morte influenciou o projeto Luther Blisset. Após ler o livro, até hoje não sei em exatamente o que o livro influenciou o projeto. Imagino que alguns conceitos de Baudrillard, como os de simulação e simulacro tem tudo a ver com Luther Blisset, mas é algo que se encontra ao longo de praticamente toda obra de Baudrillard.

Bem, A Troca Simbólica e a Morte é um livro bem difícil, principalmente se o sujeito não leu os três livros anteriores do autor (A Sociedade de Consumo, Para Uma Crítica da Economia Política do Signo e Le Miroir de la Production, esse último sem tradução em português, mas para quem quiser eu sei que tem a edição francesa numa biblioteca da FFLCH-USP). Na verdade, a parte do livro que realmente gosto, e gosto muito mesmo, é apenas a primeira, chamada O FIM DA PRODUÇÃO. Ele vai tentar te convencer, como me convenceu, de que a economia política hoje é apenas um ‘princípio fantasma de dissuasão’, uma simulação. Não existe mais produção (não no sentido do século XIX, de Marx e Proudhon). Meszáros no fundo diz a mesma coisa, muito tempo depois, mas sem a mesma provocação.

A história tornou esse livro único por um motivo: o ataque suicida às torres gêmeas do WTC. No 11 de setembro de 2001 foi condensado na prática o título do livro. Pouca gente sabe, mas nesse livro, em 1976, Baudrillard teorizou o que aconteceu somente em 2001, ou os caras que fizeram aquilo leram o livro e praticaram a teoria. Baudrillard fala explicitamente como as torres gêmeas do WTC eram um símbolo das oposições binárias que regem nossa sociedade, e o livro como um todo tenta mostrar que a morte é o que faz o sistema entrar em colapso ou algo do tipo; na prática, o sacrifício ou o suicídio. Claro, no papel isso funciona, na prática a gente sabe que é muito melhor para o capitalismo que as pessoas se matem em protesto do que se organizem coletivamente… A Troca Simbólica e a Morte é um livro de viragem do Baudrillard. É uma ponte entre a fase pé-no-chão de sociólogo e situacionista, e a fase em que ele chuta o balde para viajar à vontade nas ideias, já desencantado, dark e alguns diriam pós-moderno.

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Economia dos Conflitos Sociais. João Bernardo. Cortez Editorial

Não lembro quando comprei esse livro, publicado originalmente em 1991 no Brasil, mas acho que foi por volta de 2001. Lembro bem que foi em 2001 que conheci o João Bernardo, num curso de uma semana que ele foi dar na UFSC [Universidade Federal de Santa Catarina]: Direito e Avesso das Lutas Sociais. Fantástico, saí extasiado do curso como nenhum show de punk rock havia me deixado antes ou depois. Recomendo muito a quem tiver a sorte de ainda encontrar algum curso do JB por aí, a comparecer.

Bem, após comprar o livro eu li algumas partes dele, mas só fui ler o livro inteiro, como conjunto, em 2012. E se existe um livro que deve ser lido inteiro é esse o livro. Os capítulos se articulam numa lógica e coerência interna raras de encontrar, formando um modelo para compreender vários aspectos da sociedade capitalista, e possibilidades de mudança. Como o nome diz, João Bernardo procura mostrar como os conflitos sociais, a luta de classes, está no próprio âmago da economia capitalista, do seu desenvolvimento, mudança. Embora claramente influenciado por toda uma tradição de marxismo autonomista desde o grupo Socialismo ou Barbárie, é um modelo muito próprio e original. Por um lado, é uma pena que o livro tenha sido escrito em português, porque com certeza ele merecia ampla divulgação internacional, pelo menos em meios de esquerda, marxistas, autonomistas. A principal limitação do livro a meu ver é que o modelo perde muita força de uma perspectiva que não seja de uma classe trabalhadora num sentido mais clássico, com relações de trabalho mais “fordistas”.

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I Blow Minds for a Living . Jello Biafra . Alternative Tentacles

Ok, não é propriamente um livro, mas vou considerá-lo como um “áudio book” para colocá-lo aqui, afinal eu tinha que completar essa trinca de JBs!!

Trata-se de um CD duplo, com discursos/palestras do Jello Biafra, lançado em 1991. Era o terceiro CD falado dele. Do que ele trata? Guerra do Golfo, guerra contra as drogas, sua candidatura à prefeitura de San Francisco em 1979 entre outros temas.

Comprei esse CD entre 1991 e 1992, e foi o primeiro CD que tive. Em 1991 vi numa revista Bizz que esse disco estava em segundo lugar na parada britânica dos independentes! Uau, pensei, esse disco novo do Jello Biafra deve ser muito bom! Eu não sabia que ele havia lançado anteriormente discos falados. Bem, encomendei o CD numa loja de Florianópolis (e eu não sabia que era duplo, o que no final fez custar o dobro do preço evidentemente). Naquela época o dólar era uma grana, e lembro que gastei praticamente meu salário no McDonald’s no CD, ou a maior parte dele. Confesso que para a minha frustração não veio um sopro de música nele. Mas ao contrário do que possam imaginar, o ouvi inúmeras vezes. A capa especialmente é um clássico para mim. Uma das melhores senão a melhor capa de disco que me lembro.

Quando tiver um “JB” numa prateleira, preste atenção: a chance de ser boa coisa é bastante grande”.

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