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Três Clássicos Pessoais: Frederico Freitas

O Frederico Freitas faz doutorado em História em Stanford, Estados Unidos. Mas para além do título acadêmico, ele era o cara por detrás de 90% dos cartazes do movimento anticapitalista na virada do milênio em São Paulo, além de fazer muitos cartazes de shows hardcores e ser uma das 3 vozes no Point Of No Return, a banda straight edge mais bem-sucedida no Brasil a injetar política de esquerda na fórmula clássica do Ian Mackaye. A lista abaixo acaba por exemplificar muito do interesse dele em História, sendo que o primeiro aponta pra sua área de estudos, História Ambiental, e serve como um bom guia de leitura pros entendedores de inglês.

Richard White, “The Organic Machine: The Remaking of the Columbia River” (Nova Iorque: Hill and Wang, 1995)


Esse é um livro de história curto, muito bem escrito e extremamente provocativo. Trata da história de um rio, o Columbia, no noroeste dos EUA, de antes da chegada dos Europeus aos dias atuais. É um livro que condensa a posição de vários historiadores ambientais americanos (mas não todos), que nos últimos anos têm se esforçado em borrar a divisão entre natureza e cultura, muito presente nas humanidades em geral. Um dos argumentos centrais é a ideia, meio latouriana, de que os humanos conhecem a natureza (aqui entendida como o mundo exterior aos seus corpos) através do trabalho, que é concebido de uma maneira bem mais física e somática do que um marxista geralmente pensaria. Além desse livro, o Richard White publicou alguns outros que se tornaram importantes na historiografia norte-americana, mas que são pouco conhecidos no Brasil. O mais famoso deles é o The Middle Ground, que trata de como o desentendimento cultural entre grupos culturalmente alienígenas pode gerar novos significados e práticas, o que leva a um certo espaço de entendimento “desentendido.”

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Dipesh Chakrabarty, “Provincializing Europe: Postcolonial Thought and Historical Difference” (Princeton: Princeton UP, 2000)


Eu queria colocar uma obra que lidasse com a questão do universalismo vs. particularismo na história e acho que o Provincializing Europe foi o livro que mais me fez pensar no assunto. Não sei exatamente se ele pode ser considerado um “não-clássico”, mas acho que pouca gente o leu no Brasil. A Europa, que Chakrabarty quer “tornar provinciana”, não é a Europa real, geográfica, mas sim as suposições sobre o que é, e, principalmente, para onde deve caminhar a história humana, suposições estas que são retiradas da história Européia (ou de uma imagem do que foi essa história) através do seu pensamento, sua sociologia, filosofia etc. Contudo, isso não significa descartar toda a produção intelectual produzida pela e para a Europa, mas sim reconhecer que o pensamento europeu (e neo-europeu, no caso dos EUA), quando aplicado ao resto do mundo, é, ao mesmo tempo, indispensável e inadequado. De um certo modo, o livro frustra o leitor ao prometer mais do que cumpre — os capítulos iniciais e finais nos quais as questões são colocadas são bem mais interessantes do que aqueles nos quais Chakrabarty tenta oferecer uma saída para o desafio de escrever uma história que desbanque o que ele chama de “Europa hiper-real.”

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Timothy Mitchell, “Carbon Democracy: Political Power In the Age of Oil” (Londres: Verso, 2011)


Aqui, o que o Timothy Mitchell faz é conectar dois elementos que, em geral, são pensados como pertencentes a categorias estanques da vida moderna — petróleo e democracia. A novidade é que em vez de focar no efeito dos petrodólares na organização política de estados produtores e compradores de petróleo, Mitchell se volta para a produção do mesmo, e como a organização do trabalho e as características físicas do combustível influenciam a organização social do mundo moderno. Uma das partes mais interessantes do livro é quando ele se volta para a sua tese sobre o surgimento da economia como “coisa”, que ele já havia abordado em seu livro anterior sobre a modernização do Egito, “The Rule of Experts.” Para ele, a criação da abundância moderna do petróleo possibilitou, pela primeira vez na história, a reorganização da vida política em torno de algo novo e gerenciável chamado “a economia” (no sentido de economia nacional) que é conceituada em torno de uma ideia de crescimento infinito. A economia se torna uma coisa, com fronteiras definidas geograficamente (aquelas do estado-nação) e com técnicas precisas de medição que não existiam no passado (renda nacional, depois renomeada como PIB). O mundo é então dividido em estados-nação, cada qual o guardião de uma economia distinta. A construção da economia como um espaço onde a política é desnaturalizada (em nome da técnica) só é possível devido a promessa de que os custos (ecológicos, sociais, materiais) da utilização da energia nunca são colocados na mesa.

Um pensamento sobre “Três Clássicos Pessoais: Frederico Freitas

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