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Três Clássicos Pessoais – Danilo Mandioca

O Danilo Mandioca é um dos herois/amigos deste blog. Explico: Mandioca é um dos idealizadores e espécie de “Sócrates perna-de-pau” do glorioso Autônomos F.C, o time a melhor trabalhar a intersecção entre futebol e política. Já falei diversas vezes deles aqui no blog, mas caso não os conheça, clique aqui. Como se não bastasse, é um dos meus escribas prediletos quando o assunto é futebol – e não só. E também uma micro celebridade quando o assunto é Corinthians. Enfim, é um cara tão importante pra manter esse mundo um lugar habitável que se não existisse, teríamos que inventá-lo.

A lista de clássicos pessoais dele diz muito sobre os interesses dele. Mais uma lista antológica!

Não Verás País Nenhum – Ignácio de Loyola Brandão (Global Editora)

Pra mim, quase uma profecia sobre a cidade de São Paulo – e sobre o capitalismo em países periféricos. É basicamente a versão tupiniquim de um 1984, com grandes marcos que a cada dia é possível visualizar como mais possíveis de acontecer: o Dia do Engarrafamento Final e o Dia do Consumo Obrigatório; passes pra circular apenas em alguns bairros; racionamento de comida e água; golpe civil-militar; arrendamento de terras para multinacionais estrangeiras; o fim da Floresta Amazônica, transformada em deserto e vendida como nova maravilha do mundo; os Acampamentos Paupérrimos ao redor da cidade, com gente miserável amontoada e morrendo; e o sol torrando tudo e todos, menos o bairro d’Os Que Se Locupletaram. No final, é fato, não verás país nenhum – verás a bárbarie da sociabilidade humana sob o capital em um território periférico.

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A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera (Companhia das Letras)

Um romance político ou uma filosofia política do romance? Um livro que viaja entre os dois mundos de uma Europa cindida pela Guerra Fria, passando por relacionamentos conflitantes derivados de construções de caráter e de pessoas igualmente conflitantes. Thomas, Tereza, Sabina, todas personagens estereotípicas mas ao mesmo tempo intensamente ligadas às suas particularidades, que as define e também define a visão de mundo de cada um deles. Uma tentativa bem sucedida de um livro de teoria política escrito sob a forma de romance, que até hoje tenta ser copiada dentro dos muros da academia. E um final de arrepiar com a trajetória de Karenin, a cachorra, símbolo do sentimento sincero e verdadeiro que falta em todas as outras personagens – talvez o objeto de sua busca por toda a trama.

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Marcovaldo ou As Estações na Cidade – Ítalo Calvino (Companhia das Letras)

Como um operário italiano da década de 1960 enxerga a vida na cidade? Principalmente em uma cidade em pleno desenvolvimento urbano, com obras por todo lado cobrindo a natureza e apagando aos poucos o conflito entre o concreto e a natureza? Em vários capítulos independentes, como contos, Marcovaldo e a sua família visitam os diversos dilemas de um mundo em transformação galopante: ir aos supermercado, colher cogumelos em pleno canteiro de avenida, lutar contra um luminoso que atrapalha a vista da noite e o romance, encarar o espaço do hospício dentro da cidade e por aí adentro. Um diálogo que é ao mesmo tempo embate entre o tempo cíclico da natureza, com as suas estações bem demarcadas na paisagem, e o tempo linear do capital imobiliário, que atropela qualquer ciclo e marcha sempre em frente, apagando o que ficou por baixo da nova camada de recapeamento da avenida. Marcovaldo é, de certa forma, o Harvey Pekar da Europa dos anos 1960, ou um anti-herói italiano.

Veja também:

3 Clássicos – Rafa Campos Rocha
3 Clássicos – Frederico Freitas