E Zás #75 – Imageria e o “Negro Drama” de Mário de Andrade

Pá pum, resenha de duas obras que merecem atenção, por razões distintas, e que cobrem interesses distintos deste resenhista: quadrinhos e a questão racial.

Imageria – O Nascimento das Histórias em Quadrinhos (Editora Veneta), de Rogério de Campos, é obra sem par no Brasil e que, provavelmente, não deixa nada a dever a similares estrangeiros e os deve superar em alguns pontos: 1. conta com o conhecimento prévio das obras-irmãs; 2. tem um tratamento gráfico muito bonito (um table book de 352 páginas, capa dura, ótimo tratamento de imagens e acabamento e design gráfico de primeira), e, 3. apresenta ponto de vista acurado, crítica inteligente ao alcance das mãos, e levemente sarcástico – como é de se esperar pra quem conhece o autor. São os pontos 1 e 3 que quero destacar.

Páginas de Imageria (afanado do blog Ler BD)

Na “Nota sobre as fontes” (pág. 345), o autor nos explica que “os livros e ensaios de David Kunzle, Thierry Groensteen e Thierry Smolderen estiveram ao meu lado durante toda a pesquisa e produção deste livro”, o que fica implícito na leitura do ensaio de introdução e nas notas a cada um dos mais de 80 trabalhos pioneiros e transformadores fundamentais da linguagem das Histórias em Quadrinhos. O livro perpassa mais de 500 anos, nos levando do Japão à Alemanha, dos Estados Unidos ao Brasil e mundo afora!!

Os três teóricos “parceiros de escrita” apresentam divergências pontuais sobre fundadores da linguagem e outras querelas e o autor, ao invés de meter a colher numa discussão pernóstica, ao longo da leitura, vai nos apresentando de maneira esperta esses e outros pontos e, aceitando William Hogarth como pedra fundamental e o suíço Rodolphe Töpffer no início dos 1800 como pai dos quadrinhos modernos – ainda assim, nos mostra antecedentes da linguagem, como a “Cristo e a Alma Amorosa”, de autor anônimo e produzida na Alemanha, na metade do século XV.

Quarta capa e capa de um livro de HQs tão lindo que pode-se deixar na mesa de centro na sala!

O que fica claro neste livrão – além de ser o trabalho de uma vida como conhecedor e crítico dos quadrinhos (eu arriscaria dizer o melhor, mas recuo e explico a razão adiante) – é que os autores na aurora da criação desta nova linguagem tinham alguma consciência do poder do que criavam e temiam inclusive pela má recepção dentre seus pares, como foi o caso do conservador e temeroso Töpffer. Se inda hoje as HQs ficam entre a cruz e a espada de uma recepção baixa (cultura) ou elevada (cultura), mais de 200 anos atrás era ainda mais tortuosos os descaminhos de sua recepção. O que não mudou foi só a tendência a cair no gosto popular, como bem pondera o autor.  Pra mim, esse não-lugar sobre a sua distinção e “valor” torna tudo mais interessante – admitindo estar faz uns 7 apartado desse meio, sendo que por décadas HQs foram minha arte dileta, e sabendo que muita coisa mudou sobre sua posição no mercado de ideias, por exemplo.

Rogério não só cobre o rol de artistas pioneiros já elencados pelos autores que reverencia, como traz a baila contribuições de grandes estudiosos como o espanhol Javier Corma, o estadunidense Peter Maresca e o inglês Paul Gravett, por exemplo, assim como elenca a contribuição de artistas brasileiros, o que me faz acreditar que realmente seja a obra mais completa no planeta do gênero. E como se não bastasse, tem o estilo peculiar e o ponto de vista iconoclasta do autor. Há ainda espaço pra nomes “conhecidos”, como Little Nemo (sempre no meu rol de melhores HQs de todos os tempos!), Yellow Kid e o artista Gustavo Doré, por exemplo.

Que me perdoem o pessoal da vidinha regrada adepta de dicionários, normas, trabalhos científicos e “””imparcialidade””” jornalística, mas como faz falta gente com sangue nas veias e que dá uma chacoalhada em consensos improdutivos e que ousam nos apresentar outras percepções. Rogério de Campos foi editor da Conrad e agora o é na Veneta (o que faz todo sentido: que outra editora apostaria numa obra cara desse porte sobre quadrinhos?). Antes disso, trabalhou em revista ruim de música, jornal conservador e foi um dos responsáveis pela revista Animal, a melhor revista no país nos últimos 30 anos. Desde sempre, criou sínteses interessantes entre coisas improváveis, como quadrinhos e políticas radicais, mangá e bruxaria, por exemplo.

É só pegar o catálogo da Veneta: na cabeça do autor/editor há SIM relações possíveis entre um livro de zumbis pra colorir e mulheres faquiresas. Dessa forma, não deve espantar que em sua curadoria para o Imageria, o autor dê vazão a temas afrontosos nos trabalhos escolhidos, por exemplo. E renda comentários espirituosos que, se não faltam com a verdade (e esse tema espinhoso deve ter lugar na mente extravagante de um ex-trotskista conhecedor de vinhos), nos mostram um ponto de vista iconoclasta.

Os Sobrinhos do Capitão, de Rudolph Dirks (surrupiado do site Vitralizado)

No trabalho de Chodowiecki, que contrapõe o lombrosionismo (“fisionomania”) ao julgamento através de expressões faciais, o autor conclui que “conhece-se a pessoa pelas suas rugas”. Na já citada “Cristo e a Alma Amorosa”, uma história que trata de casamento secular, casamento místico e amor erótico foi popular no século XV mas “pode soar até blasfemo em um período tão obscurantista quanto o nosso”.  Ou nos lembrar que Steinlen, cartunista francês de primeira linha, na virada do século XX, foi “ilustrador de livros de autores como Kropotkin, Elisée Reclus e Sebastian Faure”. E há espaço ainda pra nos lembrar que o catalão Apel-les Mestres dentre atividades várias, combateu a igreja e é “também autor do poema ‘No Passareu!’, que deu origem ao slogan republicano ‘No Passaran!’ na Guerra Civil Espanhola”. E é muito bom que o autor de uma obra desse porte seja radicalmente anti-conservador!

Por fim, não digo ser o melhor livro porque o autor é um bom amigo, mas também foi meu patrão nos tempos de Conrad Editora – o que evoca pareceres contraditórios sobre ele, dado que acredito firmemente na inutilidade de patrões, deuses ou mestres rs. Imageria é item obrigatório pros aficionados em quadrinhos e ainda apresenta um ponto de vista nada careta de uma perspectiva de história cultural dos últimos 500 anos nesse planetinha ordinário. (fica ainda indicação pra ótima resenha do blog português Ler BD)

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Com Negro Drama – Ao redor da cor duvidosa de Mário de Andrade (Ciclo Contínuo Editorial – já entrevistei o editor aqui), de Oswaldo de Camargo, vale a desgastada e brega sentença de “nos menores frascos os melhores perfumes”. O livrinho de 82 páginas trata-se de um ensaio com seus subtítulos elencados como capítulos curtos, acrescidos de um artigo e cinco poemas do escritor modernista que servem de base à reflexão do autor. É um ensaio curto belíssimo e recheado de apontamentos que reverberam com enorme potência ainda hoje.

Negro drama / Entre o sucesso e a lama / Dinheiro, problemas / Inveja, luxo, fama.

Negro drama / Cabelo crespo / E a pele escura / A ferida a chaga / A procura da cura – “Negro Drama”, Racionais MCs

Eu não sei quem deu título ao livro, mas NÃO HAVERIA NOME mais a propósito para esta obra! Fatalmente, não só os versos iniciais desse clássico contemporâneo encerram uma questão presente na vida de qualquer negro e negra em um país tão racista quanto o nosso como encerram bem o assunto da obra. E Oswaldo de Camargo com muito cuidado e pertinência nos dá um panorama riquíssimo sobre o drama da “cor duvidosa” no escritor modernista.

Confesso, sem forçar barra nenhuma, que em muitos momentos do livro, fiquei absurdamente entristecido, sobretudo na quase impossibilidade de autores como Machado de Assis, Francisco e Otaviano serem efetivamente o que eram, NEGROS, sem terem seu valor diminuído – e o autor nos mostra com escrita sóbria e tranquila esse ponto. Assim o faz também para nos mostrar como a crítica de antanho e contemporânea tem algum “problema” pra lidar com o assunto. Pra mim, o problema é o de sempre: racismo cordial. Mas Oswaldo de Camargo não cede a esse tipo de panfletarismo e expõe sobriamente o tema amparado por bibliografia transparente.

E essa carga/banzo/trauma perdurou até o tempo de Mário de Andrade e além – mas cedendo espaço também ao revide, em forma de auto-afirmação, com a chegada da Frente Negra Brasileira e outros grupos. É certo que a imprensa negra existe desde segunda metade dos 1800, mas como ambiente cultural, a negritude, por assim dizer, recebe valoração a menos de 100 anos, como fica claro na presente obra.

A dubiedade/contrariedade da herança negra em Mário de Andrade reflete-se em seus poemas e espraia-se em recepção paradoxal tanto na comunidade intelectual afro-brasileira quanto no âmbito geral. O que parece certo, por relatos de contemporâneos e depoimentos um tanto infelizes, é que o escritor modernista não estava pacificado em relação a suas raízes negras a ponto de conscientemente se omitir desse debate. Oswaldo de Camargo recupera uma passagem do jornal Quilombo, dos anos 1950, quando Mário já era “um dos nossos” (nome do capítulo no livro), onde o jornal o homenageia, chamando-o de “o mulato Mário de Andrade” e usa o retrato do mesmo feito por Lasar Segall. Ironicamente, um retrato que Mário de Andrade considerava mostrar o “que havia de pervertido, de mau, de feiamente sensual”, dando preferência ao retrato de Portinari que realçava “a parte do anjo”.

O retrato “diabólico” do Mário “mulato”, de Lasar Segall

Evidentemente, o paradoxo do negro drama tem seu revés: Mário de Andrade escreveu um breve ensaio, “A superstição da cor preta”, ao qual conferia grande estima, onde podemos encontrar, ainda que brevemente, um autor atento às questões da negritude. O ensaio é avaliado por Oswaldo de Camargo e colocado em perspectiva, o que mostra como Mário passou a valorizar a questão quando avaliou já haver ambiente para que esta questão surgisse como um predicado – o que me lembrou sobre a “afro conveniência” que um artista no ano que se passou apontou a respeito de artista que “de repente” se descobriu negra…

Negro Drama… é um ensaio de crítica cultural brasileira de grandeza inversamente proporcional a sua brevidade e foi uma leitura fortuita pra começar 2019 de domínio fascistóide atento aos sinais. Livro pra ler, reler e sempre ter a mão.

Ah, last but not least: a capa de Negro Drama… é ilustração de João Pinheiro, autor, em parceria com Sirlene Barbosa, de Carolina, que acabou de ganhar o prêmio especial do júri ecumênico do Festival de Quadrinhos de Angoulême, na França – o maior prêmio internacional de quadrinhos no planeta. O trabalho, publicado pela Veneta, é esmerada biografia de Carolina de Jesus, autora negra que recentemente teve coletânea lançada pela Ciclo Contínuo de Negro Drama.

AO SOM DE:
Nego Gallo – Veterano (a melhor coisa pra escutar nesse calorão do Brasilzão agora assumidamente racista e tocar o foda-se e ser feliz!)

PIL – First Issue (1978) (Pra mandar Malafaia e quetais pro quinto dos infernos!)

Lou Reed – New York

Jards Macalé – Trevas (single do trabalho novo do herói de todos bandidos de alma tímida)