Agroecológicas: Ecologia Social – Uma Introdução I

Com a revolução Curda em andamento, que tem como um das principais inspirações a Ecologia Social, parece que esse tipo de pensamento ecológico, que havia encontrado seu auge de popularidade nos anos 1980 nos Estados Unidos/Canadá e Europa Ocidental, ganhou nova vida e interesse global. Esse post, nascido do entusiasmo com a criação de um canal de divulgação da Ecologia Social em português no YouTube, é o primeiro de uma série sobre o assunto. 

Falar de Ecologia Social é, necessariamente, tratar de Murray Bookchin (14 de janeiro de 1921 – 30 de julho de 2006), escritor, orador e filósofo da esquerda anarquista – ainda que venha a romper com essa filiação no fim da vida, denominando-se comunalista. Um pioneiro no movimento ecológico, Bookchin foi autor de duas dezenas de livros sobre política, filosofia, história, movimentos revolucionários, urbanismo e, evidentemente, ecologia. 

Bookchin foi um ferrenho pensador/defensor anticapitalista e defendeu a descentralização da sociedade baseada em um entendimento da problemática ecológica e fundada nos princípios da democracia direta. Seus escritos sobre o municipalismo libertário, uma defesa da democracia face-a-face de matiz assembleísta, tiveram uma influência sobre o movimento verde como um todo e grupos anticapitalistas como o Reclaim The Streets, por exemplo, e inspiram largamente a práxis política atual no Curdistão. 

No ensaio “O Que É Ecologia Social?”, Bookchin resume o significado da ecologia social da seguinte forma:

A ecologia social baseia-se na convicção de que quase todos os nossos problemas ecológicos atuais se originam em problemas sociais arraigados. Segue-se, a partir desta visão, que esses problemas ecológicos não podem ser entendidos, muito menos resolvidos, sem uma compreensão cuidadosa da nossa sociedade existente e das diretrizes irracionais que a dominam. Para tornar este ponto mais concreto: os conflitos econômicos, étnicos, culturais e de gênero, entre muitos outros, estão no cerne dos mais sérios deslocamentos ecológicos que enfrentamos hoje – sem dúvida, daqueles que são produzidos por catástrofes naturais.

É importante esclarecer que a Ecologia Social se distancia amplamente de abordagens esotéricas e/ou biocentradas da ecologia, como a Ecologia Profunda ou práticas agroecológicas místicas etc. Bookchin está embrenhado em tradições iluministas e diz que sua filosofia é amparada em um tipo de dialética naturalista – sobre a qual estou traduzindo um texto e pretendo publicá-la mais adiante no blog. 

Há um trecho da biografia de Bookchin, Ecology or catastrophe – The Life Of Murray Bookchin, escrito por Janet Biehl, sua companheira no fim de vida, que é exemplar sobre a f0rma como Bookchin encarava a razão e traduzo porcamente abaixo:

Ele parecia estar tendo algum tipo de discussão com seu amigo John Clark, que considerava o Tao Te Ching [de Lao Tsé] ‘um dos grandes clássicos anarquistas’. Bookchin disse que era mais como um manual para elitistas controlarem o campesinato. ‘Humores taoístas, homilias budistas e trivialidades New Age‘, ele nos disse, eram poesia sentimental. Em vez de buscar uma unidade cósmica através dos sentimentos, ele insistiu em apreender a realidade através da razão, especialmente através de uma forma de ‘pensar ecologicamente’ que ele chamou de razão dialética. Nós temos que ‘ecologizar a dialética’, falou, significando, essencialmente, aceitar conscientemente a responsabilidade pela mordomia humana [do uso da] da terra, em uma espécie de autogestão planetária.

Por fim, recomendo o texto Comunalismo – A Dimensão Democrática do Anarquismo (em inglês).Na internet, a melhor biografia (crítica,inclusive) sobre Murray Bookchin & Ecologia Social encontra-se no site Environment and Ecology (também em inglês).