De Carolina de Jesus a Samuel D’Saboia

O negro drama na arte não há de cessar até que a herança escravocrata nativa não seja expurgada

"Carolina", por João Pinheiro, extraído da HQ sobre a escritora, realizado junto com Sirlene Barbosa
“Carolina”, por João Pinheiro, extraído da HQ sobre a escritora, realizado junto com Sirlene Barbosa

Não somos famosos por sermos exatamente uma nação que abraça seus artistas. Isso, por outro lado, não fez com que produzíssemos menos obras e artistas gigantescos. Essa condição sine qua non diz muito, aliás. Evidentemente, quando o chamamento à Arte recai sobre a população negra deste imenso país, ganha-se em contornos dramáticos – um negro drama,pra ser exato – aquele que se equilibra entre o sucesso e a lama. Mistura-se a questão racial com a questão de gênero ou de identidade sexual e a bomba tá armada. Jair Bolsonaro sorri no inferno (tropical). No último ano vim me (re)ocupando com a escrita da mineira Carolina Maria de Jesus (1914-1977) e com o trabalho visual de um jovem artista pernambucano, Samuel D’Saboia: dois trabalhos que me colocaram algumas questões que compartilho com vocês a seguir. 

Tanto Carolina quanto Samuel tem a história muito parecida com a de todos meus amigos e amigas negr@s que, “contrariando as estatísticas” e fugindo da fórmula mágica tão atraente aos cientistas sociais da “favela e tragédia”, constroem um ethos de quem sobrevive a um trauma (nota mental: como ainda ninguém pensou o disco Sobrevivendo no Inferno em termos de “périplo ao âmago de um trauma coletivo”??), tal qual formulado por Freud como “uma experiência vivida que leva à vida da alma, num curto espaço de tempo, um acréscimo de estímulos tão grande que sua liquidação ou elaboração, pelos meios normais e habituais, fracassa, o que não pode deixar de acarretar perturbações duradouras no funcionamento energético” (Obras Completas, volume XVII, Ed. Imago).  Carolina, fugindo da “vida besta” do interior de Minas, viu o rosto sujo da indigência de muito perto, antes de ser “””descoberta””” pelo jornalista Audálio Dantas na favela do Canindé em São Paulo; Samuel como alvo dileto do genocídio da juventude negra, seja em Recife seja no Rio de Janeiro.

Sonho e realidade ao alcance das mãos

Carolina Maria de Jesus, mineira de Sacramento, ao menos para quem é do mundo das letras, está longe de ser uma desconhecida, e alcançou fama nacional e internacional em vida e também um estranho ostracismo posterior. Fato é que seu best seller, Quarto de Despejo, de 1960, afora todas suas virtudes, é um tipo de “mito fundador” para a literatura periférica paulistana (e nacional?) – o que não é pouca coisa. Sua obra teima em ser esquecida e reavivada desde então. Sirlene Barbosa, autora da biografia em quadrinhos (ao lado do incrível artista João Pinheiro), Carolina (finalista do Prêmio Jabuti na categoria Quadrinhos), conta uma história muito curiosa sobre a autora (leia a matéria AQUI):

Acho que Carolina aparece bastante e é muito enaltecida. No entanto, em 2014, eu palestrei num seminário que o Núcleo Étnico-Racial da Secretaria de Educação promoveu e ouvi de um intelectual negro que ele desejaria enterrar Carolina – claro que ficou na vontade, pois ela é semente e está sempre renascendo.


“Se os pretos disserem que não gostam da humanidade, é com conhecimento de causa” – Ao lado da HQ sobre sua vida, o que fez com que meu cuidado/carinho/leitura voltasse ao trabalho da escritora foi a coletânea Meu sonho é escrever – Contos Inéditos e Outros Escritos, organizada por Raffaela Fernandez, que define o trabalho da escritora como uma “poética dos resíduos”, fazendo menção ao trabalho de catadora de lixo da escritora mas também uma fórmula poderosa de qualificar o estilo da autora, tão distinto de uma literatura mais canônica e informada por seus pares pregressos, um jeito de formular textualmente arestas, destroços… resíduos! É desta coletânea que pincei a citação que abre este parágrafo.

Coletânea publicada no início de 2018
Coletânea publicada no início de 2018

Meu sonho é escrever… foi publicado pela pequena Ciclo Contínuo, profícua, editora com catálogo prenhe em diversidade e faro raro pra pensar seus livros (seu editor já foi assunto neste mesmo blog), e serve ao propósito de ser um cartão de visitas para as novas gerações e complexifica tudo o que já sabíamos sobre o texto da autora. O apanhado de textos e fragmentos que nos é apresentado pela organizadora da edição, faz com que voltemos nossa atenção a um duplo caráter que sempre acompanhou a apreciação do trabalho de Carolina de Jesus (e muito provavelmente razão de ser das diversas tentativas de “enterrar” sua obra), expresso pela professora Fernanda Souza da seguinte forma:

… pela sua trajetória inspiradora, que nos deixa curiosos e desejosos de saber mais sobre sua vida e, de outro, reduzida a uma espécie de olhar exotificante, que sublinha sua origem social e sua identidade racial como diferença absoluta, seu trabalho literário é, muitas vezes, obscurecido, e perdemos de vista a escritora Carolina, isto é, deixamos de efetivamente mergulhar nos seus textos e de conhecê-la a partir do que ela criou, reinventou e formalizou em seus tantos cadernos, onde costumava escrever.

As arestas – ou resíduos – da obra de Carolina de Jesus diz tanto respeito a forma fragmentária característica como perfila suas narrativas e aos assuntos e interesses que encarava como “dignos de nota”, que desnorteiavam seus editores brancos, progressistas e abastados, que tornaram a autora mais palatável ao gosto médio branco e europeizado. Esta edição, pra exemplificar, inclui dois prólogos que segundo a organizadora da edição, “Carolina os escreveu para dizer como ela se inseria e o que era literatura para ela”, segundo informa matéria da Ponte Jornalismo. É fácil entender a razão de ser da exclusão destes prólogos e cito uma aqui: dentro da mitologia pessoal criada por seus editores de então, como explicar o apreço da escritora pelos presidentes estadunidenses democratas de então, por exemplo? Carolina tinha uma visão “problemática” da realidade em diversas medidas, sobretudo de esperarmos uma visão simplista e ortodoxa em termos de ideologia e não só. Explico.

Como alguém que trabalhou na indústria cultural, adianto: se ao criador branco/branca as “contradições” podem ser entendidas como “complexidades” ou “facetas múltiplas” de um “gênio criador” (sou contra ao fetichismo romântico em relação a artistas, assumo), ao homem/mulher negro/negra espera-se retidão e comportamentos exemplares. Em estética, em assuntos, em moral. É uma certa rigidez de ética cristã cindida no atacado e no varejo pelos brancos, aonde ao negro/negra cabe o papel de ser “aquele que não pode errar”. É o racismo como voz disciplinadora e expiação. Sabe o “Eles querem que alguém / Que vem de onde nóiz vem / Seja mais humilde, baixa a cabeça / Nunca revide, finge que esqueceu a coisa toda” do Emicida em “Mandume”? Pois então, taí! E isso assume de formas nada sutis armadilhas psíquicas várias.

Em outras palavras: o racismo nada informaria nem subjulgaria se operasse só e somente só através de personagens caricatos e debéis tal qual o rol alucinatório de comentaristas de portais de informação.

Essa torpeza não passava desapercebida por Carolina de Jesus que, ao contrário de certa “espontaneidade” romântica a respeito da firmeza de sua caneta, refletia sobre sua produção e sobre o mundo a sua volta, sim. Novamente, Freud via o trauma como um “avesso da memória”, que  oferecia uma figurabilidade a esta subversão, indicando a alteração no direcionamento dos investimentos psíquicos. Quando se tem isso no horizonte, a experimentação da autora em poemas, contos, crônicas, aforismos ganham outra dimensão, falam cada vez mais fundo a essa dimensão de ser negro no mundo e poder “não gostar da humanidade” – ainda que ela buscasse o avesso dessa fórmula: todas as formas que ela experienciou buscavam uma comunicação franca e direta (o papo reto), onde valia-se de artifícios vários, inclusive da franqueza, como no fragmento “Não sei”:

O meu filho João José perguntou-me:
– Mamãe, o que há por detrás do mundo?
– Não sei, meu filho! Porque eu nunca saí de dentro do mundo.
– Então a senhora não é poetisa, porque o poeta deve saber tudo e a senhora não sabe nada!
– É que ninguém pode dizer “Eu estudei tudo que existe no mundo!

Paradoxalmente, é impossível não dizer que ela SABE MUITO sobre seu ofício, não é verdade? Essa aparente humildade encerra um fato que só quem sente e sabe o trauma do negro drama conhece: impossível “sair do mundo”.

Feridas belas e não-cicatrizadas

Vídeo promo da exposição “Belas Feridas” em Nova Iorque

Se Carolina de Jesus aparentemente se presta como mito fundador de um meio, de um (bom) lugar de certa literatura, Samuel D’Saboia apresenta uma fatura da negritude de outro espaço, outra poética, interesses outros, porém ambas dão conta de um espectro que, assim como queriam os editores de Carolina no passado, se quer inequívoco, mas é inegavelmente rico e diverso. Algumas gerações depois, sua pintura parece como uma tentativa mais explícita de superação de um trauma, o avesso da memória criando uma poética de urgência, almejando algo como uma transcendência.

Se seu trabalho está inserido em um ambiente cultural e de gostos, de escolhas estéticas que em tudo reverbera o que podemos ver na série de Spike Lee “Ela Quer Tudo”, é porque, 60 anos depois de Quarto de Despejo, nas artes plásticas, a negritude hoje se apresenta com estética e reflexão, como repertório e meio possível, compartilhado. Houve comunicação de uma tradição – o que não ocorrera, por exemplo, do abismo colocado entre um Lima Barreto e Carolina de Jesus – o que não significa SOB NENHUMA hipótese que não houve significativa produção literário de negros e negras neste intervalo. A questão é de outra ordem – da cultura enquanto regra. Mas o que me parece espantoso – e afrontoso para alguns – é o quão desenvolvido o trabalho de um pintor de pouco mais de 20 anos e sua clareza discursiva. Se o “homem certo é o homem no tempo certo” como disse Goethe, esse definitivamente é o caso do artista.

Conheci o trabalho de Samuel D’Saboia faz uma semana. Desde então, tenho acompanhado com entusiasmo suas criações. Esse lugar que ele se arrisca entre o abstrato e o figurativo vivo e colorido certamente o leva para um lugar seguro de apreciação em nichos da arte contemporânea e não me pareceu algo espantoso ter inaugurado recentemente uma exposição individual na Ghost Gallery em Nova Iorque: seu trabalho é muito adequado àquela cidade seja por sua estética seja por quão punjante é o que realiza. A exposição, chamada “Belas Feridas”,após a morte de 5 amigos próximos, explora, segundo informa o curador Stephan Alexander, “explora o amor, a violência e a mortalidade através de trabalhos de pintura e escultura”. O trauma redivivo.

“Lambança e Curtição” (divulgação Ghost Gallery)
“Belas feridas” (divulgação Ghost Gallery)

Quanto mais me debruço sobre o trabalho de Samuel D’Saboia, mais me parece claro que o que há de distinto no trabalho dele é um entendimento e incorporação de certa tradição de arte popular brasileira que assume uma noção de narrativa parcelada (exemplar na pintura “Belas Feridas”) – a memória psíquica revivida – que me parece uma boa chave pra adentrar seu universo, as discussões que sua pintura possibilita. E, evidentemente, a alegria e frenesi da juventude, aliado a apreensão de saber se seus amigos vão se safar de mais uma noite, conferem um senso de urgência pra suas pinturas pra lá de fortuito. O que tem pra expressar, cada traço, cada pincelada nos apresenta com convicção, com vontade, sem mesuras. Cada pintura convida ao diálogo, a participar. Os diversos olhos de “Lambança e curtição” não são necessariamente inquisitórios, não há repreensão, escrutínio – é exatamente como a troca de olhares em uma festa: é ágil, é convidativo, mas não necessariamente celebração. Tem uma armadilha boa nisso aí. Assim, cada trabalho parece que exige um tanto da audiência para fruição. Por isso não soa como um statement pontuar que “arte não é lugar para conservadorismo, assim como cama não é lugar para sexo ruim”, na ótima entrevista ao site da Vice. Se não sabe brincar, não desce pro play[ground], mané! Simples assim.

I Want my friends safe at night” (Ghost Gallery)

A situação-limite de ser um jovem negro no país do genocídio da população negra pelas forças oficiais de repressão, onde um artista de pouco mais de 20 anos lida com a perda de cinco amigos em um ano, vê um espancamento de um transexual na rua etc, interage de forma muito áspera com a convicção particular de quem vê “arte como uma espécie de conforto, não de confronto”, como relatou à Folha de S.Paulo. Suas investigações são espirituais mas lidam de forma muito direta, imediata, com as determinações do deserto da realidade. Seria realmente impossível sair “de dentro do mundo”? Seria essa uma determinação da negritude? Fanon oferece alguns apontamentos, mas isso já escaparia dos limites desse texto.

O sonho de Carolina era a escrita. Para Samuel, seu trabalho “muitas vezes é sobre o sonho, mas muitas vezes é [sobre] que esse sonho se torne realidade”, segundo nos diz em vídeo para o Diário de Pernambuco. Parece sutil a diferença, mas informa muito sobre o lugar do negro drama em nosso país. Ou, ao menos, nas artes em tempos sombrios. “O outro lá já ganhou a eleição, mas a arte e os ambientes artísticos pertencem à oposição. São locais de debate, criação, caos, desordem, harmonia, turbilhão de ideias fluidas, sem gênero, sem nomes e assinaturas”, é o que acredita Samuel, também para a VICE.

O certo é que o negro drama tem permanência enquanto trauma e está representado de formas diversas e poderosas nas artes, dando conta das vivências de uma mãe solteira precarizada nos anos 1960 até o medo e delírio afropunk de um jovem talentoso na periferia de Recife que começa a ter o mundo como seu quintal. 

Entrevista para o Diário de Pernambuco