Entrevista: Marciano Ventura (Ciclo Contínuo Editorial)

Voltemos ao final dos anos 1990. Ato na frente do Consulado dos Estados Unidos, pra tirar Mumia Abu Jamal do Corredor da Morte. Shows e eventos no fundão da Zona Leste, na Comuna Goulai Polé, de alguns anarcopunks de São Paulo. Eventualmente, em algum evento político na USP. Esses são alguns momentos que trazem a tona o Marciano Ventura, editor da Ciclo Contínuo Editorial e ex-anarcopunk da segunda leva dessa cena em São Paulo.

O amor pelos livros nele já vinha desde essa época e era sempre tópico em nossas conversas. Da cena punk como um todo daquele período sempre foi um dos caras com quem tive mais afinidade, seja por ser uma pessoa muito legal ou por estar realizando sempre a boa luta. Aquele pique: um sorriso no rosto e punhos cerrados, como já diria o poeta.

Qual não foi minha surpresa ao ver que ele havia se tornado um grande editor! A Ciclo Contínuo Editorial “é uma editora independente que se dedica à publicação de obras literárias e pesquisas na área das Humanidades, com enfoque especial na Cultura Afro-brasileira”, como nos informa no site da editora”. Mas para além dessa diretriz que, de fato, é a tônica da editora, me chamou atenção a forma como ordenou o catálogo e a variedade de assuntos tratados. Além disso, a editora abarca autores como o notórios como Oswaldo de Camargo e Cuti, e mais uma gama de autores contemporâneos de diversas localidades como Abelardo Rodrigues, Ana Paula dos Santos Risos, Angela Teodoro Grillo, Sérgio Balbouk, Fábio Mandingo entre outros. Surpresa minha foi descobrir um livro de outro anarcopunk dessa época, o Marcinho (ou Márcio Folha), que publicou em 2009 a novela em quadrinhos Histórias de Tio Alípio e Kauê – O Beabá do Berimbau, indicado para prêmio HQMIX – 2009 e adotado pela Secretaria de Cultura do Município de São Paulo e a Secretaria de Educação do Município de São Paulo.

O diversificado catálogo que conta até agora com 15 títulos, tem desde um livro de relatos biográficos de Oswaldo de Camargo, Raiz de um Negro Brasileiro, até uma antologia da poesia negro-brasileira erótica, Pretumel de Chama e Gozo,organizada por Cuti (Luiz Silva) e Akins Kintê. Dentro desse catálogo variado teremos agora no dia 26 de maio de 2017, sexta-feira, o lançamento do livro Ajeum – O Sabor das Deusas. Organizado por Priscila Novaes, o livro conta com pesquisas do Coletivo Mulheres de Orí e tem participação especial de Sueli Carneiro. A obra tem como função primordial contribuir para a valorização das mulheres que se dedicam à cozinha e ao culto de matriz africana, através de seis artigos. Os detalhes sobre o lançamento podem ser vistos aqui.

Ajeum

Acompanhe a entrevista com o editor e, ao fim, acessem os links para leitura de duas obras publicadas pela editora.

Quando você começou a editora? E qual foi a sua motivação?

Marciano Ventura: Comecei em 2009. A motivação foi primeiramente da falta. A falta de espaço para a produção literária nova, a falta de diversidade nas publicações, a falta de visibilidade das diversas narrativas que se assentam independente na literatura brasileira, como a vertente negra, indígena e periférica e outras… Outro motivo que me levou a montar a Ciclo Contínuo foi o desejo de empreender em algo que eu gostasse de fazer, de preferência algo que eu fosse apaixonado, daí os livros, a editora.

Quanto de paixão e quanto de cálculo teve a empreitada? Digo, teve a paixão pelos livros, mas teve também uma mirada mais objetiva, prática, de por os gastos na ponta do lápis, pensar na viabilidade etc?

Marciano Ventura:  A paixão é algo muito pessoal. O empreendimento é calculado. Como editamos autorxs que o mercado editorial não absorve e temos um público leitor ainda segmentado, é possível calcular os gastos de acordo com potencial sustentável de cada obra. A tiragem inicial de nossos livros varia entre 400 a 1000 exemplares. Além da editora, trabalhamos como produtora e livraria virtual/itinerante. Produzimos atividades literárias (cursos, palestras, vivências, espetáculos etc) e mantemos o site da livraria com um catálogo temático (raça/identidade/gênero) e títulos de outras editoras.

Como te falei esses dias, a mídia corporativa tem feito algumas matérias sobre editoras independentes em SP (basicamente as do centro expandido – leia aqui e aqui) e como elas prosperam num mercado em crise com alguma ressonância em nichos. É uma realidade pra Ciclo Contínuo também?

Marciano Ventura: A maioria das editoras independentes fazem um caminho diferente das grandes editoras e redes de distribuição e nesse caminho um mercado alternativo se constitui, cria demandas, fideliza consumidores de produtos segmentados etc., garantindo a auto sustentabilidade. Nos últimos anos, apesar de notável movimentação de feiras independentes e premiações merecidas etc, o saldo não parece ser muito positivo. Com a crise, além da queda vertiginosa de vendas, veio a suspensão de recursos voltados às políticas públicas para o livro (em nível nacional, estadual e municipal), como: compra para reposição de acervos, grana para programas de fomento à literatura etc., o que dificulta a sobrevivência de várias pequenas editoras. No nosso caso, por enquanto, está dando para pagar os serviços, boletos e etc, circular os livros e planejar novos projetos.

Pra quem vai conhecer a editora agora, qual seria o livro em seu catálogo que você pensa ser emblemático da editora como um todo?

Marciano Ventura:  O nosso catálogo conta com apenas 15 títulos, nessa lista a produção do escritor Fábio Mandingo, de Salvador, tem um merecido e importante destaque. Faremos, no próximo semestre, uma edição dos três livros de contos já publicados e alguns inéditos, reunidos em um. Segue um link para você sacar o texto dele, com destaque para o conto Mara – esse conto penso em transformar em HQ.

Não posso deixar de perguntar: valeu a vivência no anarcopunk? Tem algo dessa época que continua contigo na caminhada?

Marciano Ventura:  Opa, lógico. Em tudo o que o que faço tem a marca dessa vivência. O movimento punk foi o meu espaço de letramento político, estético e, principalmente, ético…

Palavras finais, algo a acrescentar.

Marciano Ventura:  Eu agradeço a sua disposição em divulgar nosso trampo e espero que essas sementes que plantamos venham florescer no homem, a paixão pela leitura e que essa paixão promova belos encontros e uma grande amizade com os livros.

Leia online:

Morte e Vida Virgulina – Fábio Mandingo

Histórias de Tio Alípio e Kauê: O Beabé do Berimbau – Márcio Folha (autor e ilustrador)

Saiba Mais:

No Facebook: https://www.facebook.com/ciclocontinuoeditorial/

Site: http://ciclocontinuoeditorial.com/

 

Anúncios