Agroecológicas: Agroflorestas, – uma introdução

Bom, a pedidos de alguns amigos que esperam mais comentários sobre ecologia/agroecologia e movimentos sociais relacionados ao tema (ok, ok, já entendi que ninguém mais aguenta dicas de artistas obscuros ou republicação de textos de 10 anos atrás!), vou tentar publicar toda semana uma nota ou compilado sobre algum assunto que pense pertinente. Um curso todo de Gestão Ambiental tem que valer para algo, não?

Bem-vindos às Agroecológicas!

Pra começar bem, apresento o tema das agroflorestas, que está “na moda” desde a atenção suscitada por novela global (“Velho Chico”). Um de seus maiores nomes, Ernst Götsch virou tema de capa da ultraconservadora e revista oficial do agronegócio brasileiro, Globo Rural (que fique bem claro: ao reconhecer o que a revista o é de fato, não coloco impedimentos a sua leitura – muitas vezes por ela falar de forma aberta e sem receios sobre o agronegócio, podemos aprender mais do que com textos críticos ao mesmo que já vem sob filtro de interesses mil ou ideológicos. Já ouviu falar de “conheça seus inimigos”? Pois então…)

globo rural

Capa da edição de agosto de 2016

O grupo Abril também entrou na onda, através da revista Superinteressante e já no lide da reportagem “A revolução da floresta”  apontou quatro temas transversais e de extrema urgência social/ecológica que fazem com que a questão das agroflorestas deva receber cada vez mais atenção:

1. frear as mudanças climáticas;
2. recuperação de ecossistemas degradados;
3. Empoderamento feminino, e
4. Acabar com a fome no mundo.

Oswaldinho conheceu agrofloresta com Ernst Götsch, um suíço radicado no Brasil. Nos anos 1970, quando ainda vivia na Europa, o agricultor e pesquisador começou a fazer experimentos que combinavam o cultivo de diferentes espécies de plantas no mesmo espaço, como faziam os fazendeiros europeus até o início do século 20. E reparou que seu feijão ficava mais forte quando estava próximo de árvores. Melhor ainda depois que essas árvores eram podadas. Percebeu ainda que não bastava cuidar apenas de uma planta (ou uma espécie): era preciso cuidar de todo o sistema em volta das plantações. Parecia sem sentido naquela época em que as ideias da revolução verde começavam a dominar as regras da agricultura (trecho da matéria da Superinteressante).

A questão do “acabar com a fome do mundo”, dos quatro pontos levantados pela reportagem, me parece, de cara, o mais problemático. Indo direto ao ponto: a questão da fome do mundo – ao menos como colocada comumente, oriunda de uma produção abaixo da expectativa humana ou derivada de deficiências tecnológicas – é, ao fim e ao cabo, uma impostura, um falso dilema. Isso, obviamente, não significa dizer que não existe fome no mundo (e se o leitor não consegue lidar com paradoxos, humildemente, sugiro que volte ao mundo dos memes de redes sociais e suas bolhas auto-celebratórias). Mas sobre isso, vou me dedicar em outro post, utilizando uma argumentação e um espaço mais propício ao tema

Pra entender agroflorestas e não cansar os olhinhos do leitor com tantas letrinhas,lá vai conteúdo audiovisual didático e rápido:

Supondo que haja alguém com um mínimo de capital disponível e terras a mão, o vídeo abaixo apresenta cinco passos para iniciar sua Agrofloresta:

Parece meio “mágico” demais? Pois é, mas não é magia – é tecnologia social! (“tecnologia social” é toda invenção ou sistematização de procedimentos que podem ser adotadas por qualquer pessoa, cujos princípios e realização estão ao alcance da mão, ao contrário da “tecnologia convencional”, onde pressupõem-se um proprietário e a mercantilização sem troca de saberes, tipo “eu tenho algo que você precisa.Me pague, eu resolvo teu problema mas não digo/mostro como o fiz”).  O curioso sobre os diversos tipos de manejos agroflorestais é que, via de regra, é um saber multidisciplinar baseado, no fim das contas, nos saberes agronômicos pré-“Revolução Verde” dos pesticidas e insumos químicos. Algumas críticas podem ser esboçadas – e apresentarei apenas uma,abaixo, quando tratar da Agricultura Sintrópica de Götsch.

O que é interessante, de fato, é que sistematizar,potencializar e respeitar os ciclos de desenvolvimento natural de uma floresta podem render frutos e gerar economia mesmo em áreas pequenas e para famílias com poucos recursos.

Os três vídeos abaixo, mostrando a evolução de um SAF de seis metros quadrados no Sítio Amaranto (agrofloresta implantanda no curso oferecido por Juã Pereira, em outubro de 2016), mostra a eficácia e a viabilidade deste modelo de agricultura de uma forma bem prosaica:

***

Agricultura Sintrópica de Ernst Götsch

A Agenda Götsch (aqui e aqui) – sistematização e local de aprimoramento da Agricultura Sintrópica desenvolvida por Götsch – nada mais é que, nas palavras do próprio,

Uma tentativa culta de conseguir o necessário daquilo que precisamos para nos alimentarmos, além das outras matérias primas essenciais para nossa vida, sem a necessidade de diminuir e empobrecer a vida no lugar, na terra. Isto implica em considerarmos um gasto mínimo de energia, onde não cabe maquinaria pesada, agrotóxicos, fertilizantes químicos e outros adubos, trazidos de fora do sistema. A agricultura, dessa forma, passa a ser uma tentativa de harmonizar as atividades humanas com os processos naturais de vida, existentes em cada lugar que atuamos. Para conseguirmos isto é preciso que haja em nós mesmos uma mudança fundamental, uma mudança na nossa compreensão da vida.  

Colocando  de uma forma mais realista, talvez a grande sacada do método do suíço radicado no Brasil, experimentado e eficaz em seu experimento notório no Sul da Bahia, seja a poda periódica das árvores, proporcionando a entrada de luz solar e a manutenção de matéria orgânica no solo.

Qual uma crítica possível, desde uma perspectiva do camponês? Ainda que haja um fluxo mínimo mas constante na última década de gente voltando ao campo (o que a sociologia rural chama de “neo-campesinato” – fenômeno forte e presente na Europa Ocidental com maior ênfase desde fins dos 1980), a realidade no campo, hoje, é de uma população envelhecida e de jovens ainda mirando o êxodo rural. Muitos – alguns com maldade evidente – chamam a Agricultura Sintrópica de “jardinagem”, dado a forma de trato cultural e o trabalho constante. Este modelo, NECESSITA de diversidade de produção – o que, em contextos populacionais controlados, não é problema e, a bem da verdade, é até solução.

Porém, uma agricultura que almeje alimentar os grandes centros urbanos (vejam que a demanda, ainda hoje, por alimentos orgânicos é maior que a oferta!) dificilmente, a curto prazo, poderia ser realizada na forma de “grandes jardins”. Sempre uso a fala de um líder do MST (organização que pensa/produz/reflete tendo este desafio no horizonte) que dizia ser muito legal “produzir em mandalas, mas a gente precisa a aprender a produzir um ‘mandalão'”. Se a fala não foi exatamente esta,o espírito está intacto na minha transcrição.

Como explica o site Pensamento Verde é:

Mandala é uma palavra de origem sânscrita que significa círculo e, universalmente, representa a harmonia e a integração. Pegando carona nessa definição, o sistema mandala possui estrutura circular de plantio e visa diversificar a atividade agrícola. Cada seguimento, nove círculos em média, ajuda o outro a sobreviver.

Bem, evidentemente, estou longe de minimizar a eficácia ou a importância deste tipo de produção – longe disso! Costumo inclusive indicar ao pequeno produtor (com 2 ou 3 trabalhadores disponíveis) este método. Mas, se começarmos a pensar em macrorregiões ou Brasil, temos que ter em vista que ainda não desenvolvemos tecnologia sustentável para criarmos os “mandalões” citados acima. Pra encerrar esse ponto, ressalto que, do ponto de vista da utilização de água, a Agricultura Sintrópica apresenta uma racionalização de seu uso que tanto as mandalas quanto os diversos manejos agroecológicos – a Agricultura Natural, Biodinâmica, Permacultura etc etc, não apresentam.

E a manutenção da água para consumo, dado que, junto com a boa saúde do solo, se apresenta como um limitante fatal da vida humana no planeta (e todas as ideologias e pontos de vista deveriam tornar essa questão mais frontal), não é algo a menosprezarmos.

E essa questão vai aparecer no blog em breve, dada sua gravidade.

Encerrando esta introdução sobre a questão, para podermos balizar discussões futuras, vou bater numa tecla que está cada vez mais ausente no horizonte dos movimentos e grupos com os quais sinto afinidade: a necessidade de ressaltar o conhecimento para além de polêmicas pontuais em redes sociais ou argumentações prenhes de chavões – que em tempos de pós-verdade, operam cada vez mais com mentiras.

Conhecimento é fundamental e, para tanto, estudo e leitura são primordiais. Pensem da seguinte forma: se as escolas não bateram na tecla da leitura e colocaram a mesma em evidência, é porque pessoas cultas são PERIGOSAS pra manutenção de uma ordem onde as escolas são apenas o primeiro tijolo! Sendo assim, e pensando no quão deficitário é o brasileiro médio em relação ao hábito de leitura de textos com início, desenvolvimento e fim, indico abaixo cartilhas e textos de fácil compreensão.

LEMBREM-SE: esta é uma introdução BÁSICA sobre o assunto, são as ferramentas fundamentais para pensarmos sobre o tema. 

Para ler (em PDF):

  • A A agrofloresta de Geraldo Lula e Lealdina, na Comunidade do Sossego, em Simonésia
    (MG) no Leste de Minas Gerais, em 2007, tratando de uma experiência bem sucedida- e realizada com poucos recursos econômicos – mais próxima de nossa realidade;
  • O ótimo A reconstrução ecológica da agricultura Carlos Armênio Khatounian, publicado pela editora Agroecológica de Botucatu. Pode parecer um pouco extenso para os preguiçosos, mas é uma visão bem abrangente sobre teoria, prática e desafios da agroecologia no país e venho recomendando sistematicamente este texto aos amigos próximos;
  • A bem informativa Cartilha_Sistemas Agroflorestais, produzido pelo Centro Ecológico do Litoral Norte, instituição do governo do Rio Grande do Sul. Possui informações úteis como legislação referente a agroflorestas, os tipos de sistema agroflorestais e sua implantação;
  • Cartilha Árvores na Agricultura da ONG (sempre muito boa em suas publicações) AS-PTA, que explica para o leigo e o não-leigo o papel das árvores na agricultura (acreditem: a visão dominante de agronomia no Brasil praticamente invisibiliza o papel das árvores – quando não os diminui a algo menor, desimportante – tal qual a mídia ou a historiografia faz, por exemplo, com a população afro-descendente no país);
  • Como nem tudo são flores, uma apresentação breve e clara de Robert P. Miller, do Instituto Olhar Etnográfico, parte do livro “A Alternativa Agroflorestal na Amazônia em Transformação” sendo editada pela Embrapa Informação Tecnológica, chamada Construindo_a_Complexidade-Apresentacao-RobertMillerMiller explica as diferenças entre Sistemas Agroflorestais (SAFs) “agronômicos” e “florestais” e seus desafios práticos, tendo como base, sobretudo, a reflexão sobre a “agenda Gotsch” e relatos pessoais.
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3 pensamentos sobre “Agroecológicas: Agroflorestas, – uma introdução

  1. Muito boa sua visão sobre a Agroecologia meu caro! Gostei muito mesmo da matéria, belo conteúdo. Já estou salvando essas indicações para ler mais e mais!

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