Superflex – Lost In The Supermarket

(Originalmente publicado na +SOMA #3 – desembro/2006 – com participação de André Maleronka na entrevista)

 

O Superflex, coletivo de intervenção artístico-econômica dinamarquês, se especializou na polêmica, colocando seus trabalhos no limiar do que nos habituamos a nomear “obra de arte” e mantendo clara e explícita a relação arte/mercado: boa parte de seus últimos trabalhos é realizado visando a comercialização, questionando a noção de autonomia do objeto de arte – relação problemática para muitos artistas, renitentes em jogar abertamente com a idéia de objeto de arte como mercadoria.

 

Se com a obra “Guaraná Power”, selecionada inicialmente pela curadoria da 27ª Bienal de São Paulo, mas posteriormente vetada pela Fundação Bienal (“por não ser considerada uma atividade artística”), o grupo criou certa polêmica, com a Free Beer (Cerveja Livre), tema da nova exposição-intervenção na Galeria Vermelho – que anteriormente abrigou a exposição vetada pela Bienal –, o grupo promete ampliar a polêmica, questionando novamente a idéia de mercadoria, propriedade intelectual e ironicamente fica subentendida a mensagem que sim, arte é mercadoria sim.

 

A ideia da Free Beer, a bebida cuja fórmula é aberta à todos, partiu de uma frase do norte-americano Richard Stallman, para explicar a idéia de “liberdade” nos softwares livres: “free as in free speech, not as in free beer”. Em bom português: Livre como em liberdade de expressão, não como cerveja grátis/livre. Daí talvez o detournement (prática artística situacionista, de desviar o significado de algo anteriormente proposto) do Superflex. O que faz a Free Beer livre é a mesma coisa que faz o software livre livre: Sua receita é aberta e licenciada livremente. Qualquer um pode melhorar a receita original. Porém, qualquer um que distribua uma versão melhorada deve tornar pública as alterações. Você pode até pagar pelas mudanças, mas todos têm acesso à sua receita.

 

A versão 3.0 que será apresentada no Brasil já causou comoção em sua primeira experiência na Europa: a primeira tiragem de quase três mil garrafas acabou em horas e surpreendeu pela qualidade. Não poderia ser diferente: a supervisão da produção foi de Birthe Skands, ex-chefe de desenvolvimento da cerveja Carlsberg. Ainda que nem todos estejam interessados nos conceitos por detrás desta cerveja, no belo rótulo criado para a cerveja, virá as explicações necessárias sobre a ideia de cerveja livre. Conceito maior por trás dessa nova exposição do grupo, é incentivar a criação de negócios abertos (Open Business) por aqui. Haveria meio melhor de incentivar tal prática do que com cerveja?

Acompanhe uma entrevista com Bjornstjerne Christiansen, um dos membros do coletivo Superflex.

Qual a origem do Superflex, como vocês se conheceram?

Nós começamos como estudantes de artes, na academia de artes de Copenhague. Essa é a nossa formação. Mas também viramos engenheiros de biogás, de energia alternativa, porque aprendemos com os processos dos quais participamos em nossos projetos. A mesma coisa com cerveja e refrigerantes.

Gás natural?

Não, metano. Você coloca merda em um recipiente e com a compostagem você cria gás. Qualquer lugar no mundo onde tiver um pântano, você vê umas bolhas – aquilo é biogás. Ninguém tinha pensado em usar isso na África, para combater a pobreza. Isso foi há dez anos atrás.

A Internet é uma boa plataforma para seus trabalhos? Seu site é muito completo, há vários recursos. Não sei se teria o mesmo peso em um país como Brasil.

Com a internet ficou mais fácil distribuir as idéias. Claro que as pessoas no poder querem que a “máquina” continue igual. É muito difícil fazer algumas coisas no Brasil, mesmo com o Lula. Talvez esteja melhor para os pobres, mas para os ricos não mudou nada. Para a classe média continua a mesma coisa. Nós tivemos um governo de extrema-direita na Dinamarca recentemente, então fizemos vários trabalhos políticos. Nós fizemos essa campanha [mostra imagens de pôsteres de rua]. Eram vinte mil pôsteres por todo o país. Acreditamos em pequenas mudanças, depende de como você as programa. Se colocássemos essa campanha em um site, ninguém iria vê-la; espalhando-a pela cidade, você confronta as pessoas diretamente. Essa é uma das coisas que você pode fazer como artista.

Vocês são artistas ou trabalhadores? Há uma explicitação de processos mercantis em seus trabalhos, não?

Somos trabalhadores, somos donos da nossa companhia e nos concentramos em empreendimentos. Nós somos produtores, trabalhadores. Na África, nós cavamos merda o tempo todo [para a produção do biogás]. Somos criativos, somos muitas coisas.

Pensei na ideia de um homem total, ou comunista, como idealizou Marx, que poderia ser artista e trabalhador, por exemplo, ao mesmo tempo.

Você fala da diferença entre ser artista e ser trabalhador… Eu não acredito nisso agora. Pra mim, criatividade… Você precisa ter um tempo extra, um espaço extra na sua cabeça, que não esteja ocupado somente com sobrevivência. Porque se você pensar apenas em sobrevivência, não pensará em novas idéias. Por exemplo, uma ideia econômica, como a de Mohamad Yunus, que ganhou o prêmio Nobel. Ele fez um banco em Bangladesh chamado Grameen Bank (Banco Aldeia), que distribuía crédito para os pobres. Ele viu a miséria do país e teorizou sobre cada pessoa ser um empreendedor em potencial. Mas para isso, você tem que dar dinheiro às pessoas. Ele deu, e isso foi uma revolução.

A Free Beer (Cerveja Livre) e o Guaraná Power questionam a ideia de propriedade intelectual, não?

Nós acreditamos que existam direitos. Aceitamos isso até certo ponto. Mas muitas coisas acontecem a partir do momento que você abre o processo [de patentes e registros]. Eu não acredito em patentear ideias. O que é registrado são as marcas. A Coca-Cola é uma marca que você compra, não aquela coisa estúpida que vem dentro da garrafa.

Superflex - Free beer

A questão do mercado e da propriedade intelectual são duas questões centrais nos trabalhos atuais do grupo. Trabalhos recentes, que incluem o Guaraná Power e a Free Beer, incluem estações de biogás na Tailândia e kits para construção de saunas na praia, e chamaram a atenção dos curadores de Bienais como as de Veneza e Berlim, por exemplo. Derivada dessa demanda prático-conceitual, surgiu a ideia dos Copyshops: supermercados especializados na comercialização de produtos abertos, como o Black Spot Sneakers (espécie de tênis All Star genérico português), o Guaraná Power (vale ressaltar que foi produzido em colaboração com camponeses brasileiros), a Free Beer e a inusitada Meca-Cola, produzida por ativistas tunisianos para apoiar a causa palestina. A intenção, para além do mero lucro advindo da venda desses produtos, é colocar todo o debate realizado na esfera artística no interior do que chamam “de campo de batalha, onde as coisas acontecem de verdade”. Um exemplo mais próximo dos brasileiros de negócio aberto seria o browser Firefox.

SUPERFLEX Guaraná Power

SUPERFLEX Guaraná Power2

Nesta e na imagem anterior: detalhes do Guaraná Power

O livro Self-Organization/Counter-economics Strategies  lançado pelo coletivo, trata sobre as diversas formas de criação, disseminação e manutenção de modelos alternativos para a organização social e econômica, e as implicações, consequências e possibilidades práticas e teóricas destas estruturas auto organizadas. Seriam alternativas práticas ao capitalismo vigente, assim como o banco de Mohammad Yunus ou a economia participatória (PARECON) do pensador radical estadunidense Michael Albert, companheiro de Richard Stallman no MIT, e igualmente discípulo de Noam Chomsky, o linguista famoso por sua veemente crítica aos Estados Unidos e ao capitalismo.

Obviamente, as ações do coletivo Superflex remontam tanto aos dadaístas, em função do humor e da ideia da apropriação como método artístico, como aos situacionistas, no sentido de assumir-se como coletivo e por trabalhar com uma agenda sistemática de ações visando um objetivo que, se para os situs era destruir a arte e o capitalismo, para os dinamarqueses seria o de criar fissuras dentro deste sistema. Não podemos esquecer da comunidade anarco-hippie de Christiania, em Copenhague, fundada faz mais de 30 anos e mantida através de modelos de auto-organização e autogestão que invariavelmente encontra paralelos com as práticas do grupo. Contemporâneo ao Superflex, há ainda o grupo americano Critical Art Enssemble. Composto por 5 ativistas interessados na intersecção entre arte e tecnologia, já amargaram processos e prisões por parte do governo dos Estados Unidos. Um de seus trabalhos mais polêmicos foi uma performance que consistia na liberação de DNA transgênico na atmosfera inofensivos aos seres humanos, mas que causou enorme polêmica na imprensa e com as autoridades de biossegurança dos Estados Unidos.

Superflex - Copyshop2.jpg

Interior de uma Copyshop do grupo

Há uma tensão permanente entre mercado, arte e política no trabalho do Superflex.

Nós participamos do mundo das artes, do qual nós escolhemos fazer parte, porque tivemos educação clássica [de artes] na faculdade. Todos nós queríamos “entrar” na sociedade e não apenas criticá-la, já que muitos artistas e acadêmicos fazem isso. Nós acreditamos que você tem que ir pra dentro da sociedade, que também inclui o mercado, mas com processos autônomos. Por exemplo, quando nos aproximamos de pequenas cervejarias para que começassem a produzir nossa cerveja, eles não entendiam realmente que fariam parte de um tipo diferente de organização econômica, nós tivemos que persuadi-los. Acho que você tem que fazer mudanças lentas na sociedade. Não queremos apenas criticar; queremos criar modelos e exemplos que podem ser vendidos, como o Guaraná Power. Pode ser também uma cerveja, um sistema energético. Nós desenvolvemos um sistema energético na África, após pensarmos sobre a questão pós-colonial na África. Acho que a parte da crítica também é importante, mas queríamos arriscar. Nós achamos que a arte pode gerar um confronto. Mas poucos artistas acreditam nisso. A maioria dos artistas gosta de refletir sobre a sociedade e depois se distanciam. Eles fazem os trabalhos, jogam-nos no mercado, e saem de cena. Muitas de nossas obras demoram dez, quinze anos pra serem realizadas. Nós também desenvolvemos organizações, uma TV alternativa na Itália em 1999 que durou 7 anos.

Então vocês acreditam em usar arte como plataforma para políticas?

Somos artistas, logo acreditamos no potencial da arte. As galerias nos deram espaço e tempo para mostrar nossas idéias. Nós usamos a arte como uma mídia. Alguns dizem que a arte não pode mudar nada, que é um espaço do luxo. Mas acreditamos que existem outras possibilidades usando certos conceitos artísticos. Não que nós usemos dessa mídia, já que somos automaticamente parte dela também. Gostamos de nos enxergar como ferramentas. Você pega isso [mostra uma garrafa de cerveja] e olha: é uma garrafa bonita. Mas você também pode jogar essa garrafa em alguém ou no mercado. Nós gostamos de ação, acreditamos na possibilidade da arte ser algo que você pode pegar, não somente olhar para ela. Você pode pegá-la e usá-la na sociedade.

Tem um lado lúdico e bem-humorado muito forte no trabalho de vocês. Inclusive vi alguns jogos que vocês criaram no site…

Na exposição [exposição “Free Beer”, que aconteceu no fim de 2006, na Galeria Vermelho, em São Paulo] traremos vários jogos e produtos. No Brasil, vocês têm os ambulantes, vendedores de rua distribuindo música e filmes. A gente acha isso muito importante porque é uma alternativa muito forte ao sistema econômico. O filme “Tropa de Elite” é um exemplo fantástico. Surgiu uma cópia e os vendedores de rua fizeram outras cópias e venderam. Agora você tem pessoas pobres discutindo um filme brasileiro, o que nunca acontece, porque essas pessoas não têm dinheiro para irem ao cinema. É o filme mais discutido em muito tempo. Talvez não seja o melhor, mas gerou discussão. A cozinheira da minha namorada também viu esse filme. De repente, o patrão pode conversar com ela sobre outro assunto que não cozinhar. É por isso que acreditamos nessas coisas, em um sistema contra econômico. Você aceita o sistema, mas também o desafia. Há um movimento de estudantes no Brasil pelo direito de copiar livros, o que acho bem interessante. Afinal, os livros são caros e as pessoas querem copiá-los.

A questão da propriedade intelectual é um problema à criatividade?

 O Google agora tem os direitos sobre a marca Google, por exemplo. Então não se pode mais usar essa palavra em anúncios, a menos que paguem. Alguém falar “dá um Google” era a melhor publicidade pro Google, mas agora você não pode mais falar. De repente, nós limitamos a linguagem. Acho que uma das principais lutas da sociedade global é essa. Nós usamos diversas mídias para discutir isso. Os jogos entram como uma forma de fomentar discussão.

Existe um sistema econômico muito forte e existe uma legislação específica do sistema capitalista para proteger os direitos autorais. Originalmente, direitos eram para artistas e poetas. Os monges copiavam os livros antigamente, mas com a invenção das prensas tentaram arranjar um jeito de proteger os autores. É isso que aconteceu. Depois, as companhias começaram a usar o mesmo sistema de direitos para a proteção deles. Agora você tem companhias registrando direitos criativos, marcas. É um desenvolvimento natural, e você tem que lutar contra isso, apresentando alternativas ou versões diferentes. É ai que entram o Creative Commons e o copyleft.

Superflex - experience_polarbear_web

Experimente a mudança climática como um urso polar

Quem seria o inimigo hoje a ser enfrentado pelos artistas políticos?

Não acho que exista um inimigo visível. Hoje você tem a oportunidade de transferir o conhecimento por caminhos alternativos, muito mais amplos. Quando eu vou pra Amazônia, as pessoas sabem a respeito do Bush. Eu prefiro pensar nas alternativas, mais do que em um inimigo. É como o movimento antiglobalização; ele não é apenas anticorporativo, existem muitas variações dentro desse nome. E a arte é importante pra criar mudanças globais. É nossa oitava vez aqui no Brasil. Nós sabemos um pouco do Brasil, não tudo. Mas somos bons em pesquisa e esperamos criar discussões.

Para saber mais:

Grupo dinamarquês propõe ‘tour de baratas’ pelo Museu do Amanhã
A visão dos coletivos Superflex e De geuzen a respeito da linguagem digital
As Ferramentas do Superflex (em inglês)

Superflex - Passeio de baratas

Passeio de baratas no Museu

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