Vitché – A Modernidade e o Equilíbrio

(Matéria publicada na SOMAed3– Dezembro/2007)

 

Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor – mas ao mesmo tempo ameaçadestruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. (…). Ser moderno é fazer parte de um universo no qual, como disse Marx, “tudo que é sólido desmancha no ar.
– Marshall Berman – Tudo que é Sólido Desmancha no Ar

 

Ouvindo as gravações da conversa que envolveu Flavio Samelo, Vitché, sua esposa – também artista plástica – Jana Joana e eu, o ruído branco da cidade é constante, impertinente. O curioso é que a primeira coisa que me chamou a atenção no dia da entrevista – cerca de duas horas de conversa –, foi a aparente tranqüilidade da casa do artista: uma casa espaçosa, várias plantas no quintal e uma pintura de Jana Joana (sua esposa) no muro, localizada em uma rua do bairro do Cambuci, bairro de onde Vitché nunca saiu. De certa forma, isso fez com que entendesse melhor a luta – ou diálogo, como prefere Vitché – que ele exerce com a cidade. “Não é um diálogo confortável. A cidade vira um grito na sua orelha. Você aprende a rebater a cidade com um grafite, uma intervenção. É uma maneira de encontrar um ponto de equilíbrio no meio da doença da cidade.

“O que eu mais gostava de fazer, era transformar o meio onde eu tava. A rua era muito cinza, eu odiava isso. Tenho dificuldade até hoje em relação à isso. Eu gostava da cor. Sinto falta de vida, de verde, de azul, de montanha etc. A cidade caminha para algo vazio, sem sentido. Sinto falta dessa coisa de contato, de energia, indígena mesmo. Desde criança sinto falta disso” define o artista explicando como o grafite surgiu em sua vida. Porém, muito rapidamente, teve que lidar com o fato da transitoriedade, da fragilidade do grafite em confronto com as abruptas e rápidas mudanças do espaço urbano. “O grafite não é eterno. Em pouco tempo some, se deteriora etc. E daí o cinza volta”.

Seria essa uma primeira “derrota”, ver seu trabalho apagado, destruído ou atropelado por interferências externas? “Era difícil no início, mas depois você aceita que é assim mesmo. A vida é assim”.

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Os elementos do trabalho de Vitché buscam um reencantamento, uma religação com o que seria uma essência natural que o homem deixou se perder. Uma resposta ao frenesi da cidade. Esse frenesi parece ser o alvo dos dragões, dos abundantes olhos, de seus totens – ou seriam moais? – de suas obras encantatórias, cheias de sutilezas e símbolos. “Quando pego uma madeira velha e transformo em um boneco, é uma forma de resgatar algo que eu acho sagrado. De certa forma, é criar conexão com o planeta. Porque isso (a madeira) acaba virando lixo – e esse descaso rola com as pessoas em geral, não é algo agregado à velocidade do sistema. As madeiras, assim, vão se tornando histórias”.

“A gente foi para Machu Picchu e aprendi muita coisa com aquele lugar. Inclusive visualmente. Principalmente pelo lado do sagrado e a ligação com a Pacha Mamma. Você tem a consciência que está ligado ao planeta. Não dá pra se desligar disso”. Daí meu entendimento de Vitché como alguém além de um artista, de um mago ou xamã, quem sabe? Segundo o filósofo João Ribeiro Júnior, “… por intermédio da Magia, o homem chega a utilizar em seu proveito os poderes que lhe são estranhos ou hostis; chega a influenciar o meio, de modo que não seja mais apenas um meio, mas se torne um fator de equilíbrio e de proveito para si”. Seja com o grafite, com seus pequenos bonecos de madeira ou com o metal (material com o qual o artista realiza algumas experiências), parece certo afirmar que o artista paulistano busca um espaço de equilíbrio – inclusive, este é o nome de sua recente exposição na galeria Jonathan LeVine nos Estados Unidos –, onde a velocidade e o caos urbano cessem.

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Por outro lado, Vitché tem a dimensão exata que tal esforço é ilusório, falso e que muitas vezes você acaba sendo tragado pelos “moinhos satânicos”, para usar uma expressão de William Blake, descrevendo objetivamente o surgimento das fábricas na Inglaterra, mas que cabe hoje como uma metáfora de modernidade. “O artista é um grande ludibriador. Ele sabe o que precisa fazer para alcançar uma aprovação etc. O engraçado é quando essa enganação começa a enganá-lo também. É meio louco falar isso. Não só a vida como a arte é uma ilusão. Você acredita no que não existe”.

Uma frase apareceu bastante no papo com Vitché: “história”. Há um esforço consciente no trabalho dele em criar uma longa narrativa, um diálogo interno com sua história pessoal, com seu trabalho, com a cidade. Nada me parece mais pertinente em um mundo que parece querer apagar o passado, uma sociedade voltada para a emergência do presente e que encontra previsões de um futuro catastrófico – coisa de quem não aprendeu as lições do passado. “Eu vim a saber que quando destruíram a Ilha de Páscoa, destruíram todas as madeiras da ilha e [os habitantes] ficaram ilhados. Daí um clã começou a derrubar o moai [gigantes rostos de pedra] do outro. A gente tá passando por isso hoje”. Não seria daí que teria surgido seus pequenos totens de madeira? Sobre o uso da madeira, vale a transcrição da fala de Vitché sobre o assunto:

“Foi uma vez na Europa, na França [que começou a usar madeira]. O que eu pintei aquele dia não ficou legal. Eu estava me sentindo como em uma fábrica, batendo cartão. Daí resolvi dar uma mudada. Eu peguei um toquinho e comecei a esculpir. E quando mexi com a madeira rolou um lance… O negócio tá todo cortado e ainda tem uma conexão com a vida.

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Sempre gostei de madeira. Gosto dessa coisa orgânica, da energia de usar madeira. Eu senti falta disso dentro do próprio grafite. Não queria ficar preso dentro de uma técnica. O grafite é só uma linguagem. Só que cada linguagem te joga para uma outra linguagem. Quando você adquire uma certa técnica, uma trajetória, você fica em um mundo seguro. Esse conforto pra mim não é legal, faz você ficar cômodo. Não existem separações para mim, tudo são formas de se expressar. Isso me dá a possibilidade de vir com outras coisas, não ficar fechado, senhor do mundo”.

Vitché, 38 anos, nasceu Vicente Rodriguez. A transformação para o nome que o destaca hoje no cenário das artes contemporâneas veio de forma natural e curiosa: “Eu saía na rua desde os seis anos. Daí veio um hippie da rua e começou a me chamar de Vitché, porque ele mesmo era Vitché! Aí na escola começaram a me chamar assim também. Quando alguém me chamava pelo nome eu estranhava. Virou um carimbo, mesmo!”. Esse hippie, sempre um ser com um quê de misticismo segundo o imaginário brasileiro, talvez não conheça o filósofo espanhol Miguel de Unamuno, o que não diminui em nada a potência de sua definição de “nome”: “O nome é em certo sentido a própria coisa; dar nome às coisas é conhecê-las e apropriar-se delas; a nomeação é o ato de posse espiritual”. Vitché é a alcunha desse mago-guerreiro em conflito com o moderno, com a solidez que se desmancha no ar, cuja espiritualidade pagã o coloca em confronto aberto com a urbe. Muito provavelmente a cidade vencerá. Mas até lá, já teremos todo o legado de um grande artista que colocou toda sua sensibilidade à prova. Mais um cavaleiro no imenso Exército de Brancaleone que tanto nos cativa.

Vitché e Jana Joana

Trabalho mais recente (2014), em parceria com sua esposa, Jana Joana

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A arte de Vitché

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