Joe Lally – Os Tempos Estão Mudando

(matéria publicada na revista SOMAed4 – Março de 2008. Foto por Cia de Foto)

Pairava uma dúvida em nossa redação: valeria uma matéria com Joe Lally, que recentemente fez sua segunda turnê solo no Brasil? Longe de duvidarmos de seu talento, mas afinal, na edição passada, dedicamos uma grande parte da revista a uma série de entrevistas e textos referentes ao Fugazi (seu antigo grupo), que, de certa forma, davam uma panorâmica sobre a importância do grupo para a música contemporânea. A dúvida se dissipou após vermos apresentações do músico acompanhado de Maurício Takara (Hurtmold, SP Underground, M.Takara) e do guitarrista italiano Andrea Moscia. E, definitivamente, seu trabalho solo não pode ser encoberto por essa grande sombra de seu antigo grupo – os dois álbuns expandem e fogem em diversos níveis à estética do Fugazi.

Sua música é simples, generosa ao proporcionar espaço e liberdade para a participação de outros músicos, de maneira que possam imprimir a ferro quente suas personalidades. E, no rápido contato com o músico, descobrimos que sua música é um perfeito retrato de Joe Lally: leve, serena, reflexiva e assertiva quando se faz necessário.

 

 

 

 

Você vive em Roma atualmente. Qual a principal diferença entre o pessoal de Roma e o de Washington?

 Bem, eu não tenho resposta… Quero dizer, eu não conheço todo mundo em Washington e eu não conheço todo mundo em Roma e, especialmente depois que minha filha nasceu, passei a viver mais recluso com minha filha e esposa, então meio que dá na mesma (risos). Basicamente, Washington é uma cidade pequena e Roma é muito grande e essa é a maior diferença.

Não acompanha a cena musical por lá?

 Não saio à noite, sabe? Eu acordo umas seis da manhã e não tenho saído muito, a não ser quando toco… Eu nem consegui ir a um show ainda! Ainda não tenho permissão para dirigir em Roma e leva um tempo para ir até a cidade e voltar à noite até onde eu moro. Acabo me fechando um pouco em meu mundo… Não vi muito do que estava acontecendo em [Washington] D.C nos últimos tempos – pelo menos nos últimos cinco anos que morei lá. Mas tudo bem; vi mais de dois mil shows por lá antes disso, então acho que foi só uma fase diferente que eu vivi.

Como você definiria seu trabalho atual?

 Eu realmente não sei como descrever a minha música. Então…

Ok, mas para alguém que não conhece seu trabalho e não conhece o Fugazi, como você descreveria o seu som?

 Para mim, é sempre tão difícil definir música de uma maneira simplista… Para quem me ver tocar, acredito que chamem de rock, mas eu não sei se rock é a melhor definição. Tenho muitas outras referências que aparecem na hora de compor… O resultado pode não ser definido como, sei lá, a mistura de cinco gêneros, um pouco disso, um pouco daquilo etc, mas sim o que você entendeu de cada música. Eu ouço música há muito tempo e gosto dos estilos mais variados. Quando componho, todas essas referências acabam aparecendo de uma maneira diferente, adaptadas ao meu estilo de tocar, já que não estudei meu instrumento para tocar todos esses tipos de música que existem e nunca tentei tocar todo tipo de música que escuto. Na verdade, raramente tento tocar algo que escuto. Comecei a tocar música na época do punk rock e essa foi a minha escola… Mas o que venho tocando hoje é certamente diferente do que fazia no Fugazi. Sinto que estou indo para outro caminho porque eu não quero necessariamente dar continuidade àquilo, e ao mesmo tempo, é o meu entendimento da música porque já era o tipo de som que eu gostava antes de começarmos, antes de eu começar a tocar com o Ian [Mackaye]. Música é muito mais você colocar para fora o que está na sua cabeça do que o nome ou gênero que as pessoas dão para ela. É algo difícil de explicar.

 

Como essa experiência de tocar com músicos de diversos lugares influencia seu trabalho?

 Sou afetado pelas viagens que faço. A única educação que tive foram todas as viagens que fiz ao redor do mundo para tocar com o Fugazi e vou continuar porque tenho muito o que aprender. O que eu sei dos lugares que fui? Sinto que ainda não sei nada. No Brasil sinto a música no ar, respirando música todo segundo, é só uma questão de prestar atenção a elas. Na primeira vez que estive aqui para apresentar meu projeto-solo, toquei com o Maurício e o Fernando [respectiva mente, percussionista e guitarrista do Hurtmold] e foi uma das experiências mais extremas que tive, mas não tive a oportunidade de fazer isso muitas vezes – somente na Itália, quando toquei com o Massimo e o Jacopo [membros do trio italiano Zu]. Quando vim pra cá, começamos a ensaiar, e eu queria que eles tocassem da maneira que se sentissem mais confortáveis, mas o Maurício estava tocando da maneira que ouviu no disco e eu pensava “Já ouvi esse cara tocando na internet, ele é um baterista incrível, porque é tão difícil?” Mas de repente eles começaram a brincar, tocar um samba e eu disse “É assim que vocês deveriam tocar (risos). Quando eles começaram a tocar do jeito deles a coisa fluiu, ficou simples. E é assim que tem que ser, o baixo como a fundação, o contorno das músicas pode ser jazz ou heavy metal se os músicos quisessem. Estou sempre aberto a mudanças. O que aprendi é que você precisa realmente passar um tempo com as pessoas para que essas mudanças realmente ocorram. Eu adoraria ir tocar com o The Ex na Holanda e apenas cantar as minhas músicas, passar um tempo com eles criando suas versões para minhas músicas e apenas cantar. Adoraria fazer isso com o Zu, toquei com eles dezenas de shows e ensaiamos apenas um dia e tocamos uns cinquenta shows juntos.

Para mim, a grande diferença entre There To Here (primeiro álbum) e Nothing is Underrated (disco mais recente) são as letras: me parece que há um tipo de melancolia no último, enquanto o primeiro ainda tinha canções políticas mais próximas do que se esperaria de um ex-membro do Fugazi…

 Bem, escrever letras é difícil: quanto mais você escreve, mais difícil fica para escrever. Eu entendo quando você diz que percebeu nelas um conteúdo político, mas não em todo o disco. Pra mim, é uma continuação – não é um processo particular ou uma tentativa de escrever de um modo particular… Elas simplesmente vão aparecendo. Se tenho uma ideia, escrevo e depois volto naquela frase ou conceito e tento desenvolver.

Imagino que seja difícil para você, afinal, no Fugazi você não escrevia tanto, acho que apenas umas duas ou três músicas, não?

 É, e isso em três álbuns! No primeiro disco [solo], falhei na composição de cinco letras ao mesmo tempo – começava ideias para letras e nunca ficava completamente feliz. Outras estavam quase finalizadas e eu realmente achava que elas não estavam boas, precisavam de mais alguma coisa, então alterava um verso aqui, outro ali, até ficar satisfeito com o resultado. Faz sentido você dizer que meu primeiro disco tinha uma pegada política, mas no Fugazi as pessoas reclamavam que nossas letras não eram claras, que nós não dizíamos o suficiente, que deveríamos dizer mais… Não acho que as letras do Fugazi eram consideradas políticas da mesma forma que as pessoas falam que o meu primeiro disco era. Para mim, é uma questão de perspectiva: como você olha algo que está acontecendo, que já aconteceu e que acontecerá – você vê coisas diferentes.

Li alguns textos que saíram na imprensa sobre o seu primeiro trabalho solo afirmando que os temas eram uma continuação do que o Fugazi já havia feito. É meio estranho porque acho muito diferente e no seu primeiro álbum, inclusive, as letras são muito diretas, o oposto da maioria das letras do Fugazi. Penso, por exemplo, na música “Pick a War”…

 É, não tem mais nada o que dizer sobre esta música. Não que necessariamente goste disso, mas foi assim que ela saiu (risos)… No Fugazi pensávamos: temos todas as músicas e conceitos e apenas queríamos botar tudo para fora, gravar e sair tocando. Eu queria que a coisa andasse [no primeiro disco]. Se continuasse trabalhando em cima daquelas músicas, ainda estaria trabalhando nelas até hoje e não estaria feliz. Tive que dar um fim àquilo e amadurecer as músicas tocando, na frente do público. Muitas pessoas dizem que minhas músicas estão inacabadas, que não consigo amarrar minhas letras, que estou sentindo falta dos outros três caras [do Fugazi]… Por mim tudo bem, mas eu também não quis mais nada com aquelas músicas, não quis que tivessem uma segunda parte; quis que tivessem uma parte e que tivessem mais espaço. Não queria muita instrumentação, aquela coisa confusa. E eu também quero escrever letras que as pessoas precisem ficar voltando à elas para encontrar novos significados. Eu sabia que em meu primeiro disco essas seriam provavelmente as melhores músicas que escreveria em toda minha vida e que talvez não consiga mais escrever tão bem de novo. E não acho que elas são tão limitadas assim. Por exemplo, em “Pick a War”, a letra é sobre a forma como o cérebro humano funciona, sobre o conceito da guerra como um problema para nós, seres humanos. Mas as pessoas podem limitá-la tratando-a como uma canção sobre guerra, tipo, não deveria haver guerra, ponto final. Você pode olhar dessa forma, mas pra mim é um problema de origem humana, de como a mente funciona. Sempre existem diferentes maneiras de olhar para alguma coisa.

Esse disco parece ter algumas reflexões sobre a passagem do tempo…

 Hmm, sério? Talvez pelo fato de ter tido uma filha, consiga enxergar o tempo de uma maneira bem diferente. Quando você realmente se entrega, fica com uma criança e esvazia sua mente de qualquer outro tipo de coisa, você entra no tempo delas, o que significa que não existe tempo. O tempo é um conceito que o homem criou; há o tempo solar, com o sol girando e girando, e que não é perfeito, sabe? Não é uma coisa perfeita, eles precisam ficar alterando o tempo atômico para bater com o tempo solar. Sabia disso? (risos) É verdade! Eles estão sempre alterando, arrumando o tempo do mundo. Mas as crianças não sabem disso! Eles comem, dormem, fazem cocô, xixi e não se preocupam com o tempo. Quando você tem um filho, consegue desacelerar e voltar ao tempo em que era uma criança. Aí então olha para a sua vida, aos quarenta e tantos anos e percebe que o tempo está voando, indo mais rápido a cada ano que passa. Ter uma criança é viver essas duas experiências ao mesmo tempo.

 

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