Paulo Bruscky -Vida e Arte na Contramão

(matéria publicada na revista SOMA #4 – Março de 2008)

Áudio-arte, vídeo arte, artdoor, xerografia, xerofilmes e arte postal; Paulo Bruscky, o artista conceitual recifense de 59 anos não só experimentou todos estes meios, como estabeleceu padrões e freqüentemente se destacou pelo pioneirismo. É de se estranhar a ausência duradoura de seu nome nos meios tidos como oficiais por tanto tempo. Por uma série de exposições a partir da virada do milênio e pela publicação de uma belíssima obra a seu respeito escrita pela pesquisadora Cristina Freire, Bruscky é agora um nome incontornável no meio artístico brasileiro e certamente um artista a ser conhecido e entendido pelas novas gerações.

Em 2004, Bruscky ganhou reconhecimento definitivo ao ter uma sala especial dentro do maior evento das artes plásticas no Brasil: a Bienal de Artes de São Paulo. “A proposta de levar todo o meu apartamento/ateliê [para a Bienal] foi do Alfons Hug, curador da Bienal naquela edição, e achei interessante o projeto porque desnudava o meu processo de criação, o dia-a-dia, onde eu não separo mais vida e arte. Isso se tornou público para milhares de pessoas que visitaram a Bienal durante todo o período. Nada disso interfere no meu modo de ser, de pensar, embora só recentemente é que estejam descobrindo e tornando público o que eu sempre fiz durante toda minha vida” define Bruscky. Pelas fotos nessa edição, dá para ver que essa relação estreita entre vida e arte não é mero proselitismo.

Em 2006, Bruscky vendeu seus primeiros trabalhos para museus. E notem: depois de mais de quarenta anos de carreira artística! “Fui funcionário público durante a minha vida inteira para não depender da minha produção para sobreviver, o que sempre me deixou bastante livre para criar o que eu quero, como quero e quando quero, e nunca me preocupei com o mercado de arte, mas sim com o supermercado doméstico”. Seria Paulo Bruscky um antiartista? “Meu problema é que eu não tenho uma obra pra mostrar, só tenho os conceitos. (…) Nenhum colecionador tem uma obra minha porque eles não conseguem enxergar o que eu faço”, disse em sua palestra no Cine Esquema Novo em Porto Alegre, onde teve uma retrospectiva de seu elogiado trabalho de vídeo-arte.

“Faço meus trabalhos por mim, sou egoísta mesmo. E procuro não pensar em nada, ser irracional”. Muito provavelmente é essa postura forte que o fez criar uma obra tão veemente e contundente, que com o passar dos anos, tende a se fortalecer ao invés de desaparecer, por morte morrida. “O tempo é implacável. É ele quem faz a seleção natural entre o que vai ficar e valer a pena ou não, independente de qualquer venda”, em declaração que soa hoje como um elogio ao tempo que é tão suave para consigo mesmo.

Tal qual Harvey Pekar, o escritor de quadrinhos descoberto pelo mestre underground Robert Crumb e astro do filme Anti-Herói Americano, Paulo Bruscky, também funcionário em um hospital público, fez de seu local de trabalho, matéria-prima para sua obra. Literalmente: experimentou com carimbos, papéis timbrado, manipulação de eletroencefalógrafos, aparelhos de raio x e outros para o  desenvolvimento de diversos trabalhos. É essa dimensão que define sua estética: reinventando o cotidiano, de forma lúdica, por meio de seu estranhamento. Os múltiplos meios eleitos pelo artista são operados em uma espiral criativa inesgotável e inclassificável. “Qualquer definição é insuficiente para definir esse artista”, vaticina a pesquisadora Cristina Freire. Não à-toa, muito antes da irresistível ascensão da street art no Brasil, Bruscky organizou uma mostra de art-door (arte em outdoors) em 1981, ao lado de Daniel Santiago, no Recife.

Paulo Bruscky

Cristina Freire é a autora de Paulo Bruscky – Arte, Arquivo e Utopia, resultado de dez anos de pesquisa sobre a trajetória do artista, e também é curadora da exposição Ars Brevis, aberta até o dia 28 de abril de 2008, no MAC-USP, em São Paulo. Tanto livro como curadoria da exposição são frutos de um imenso carinho e rigor em relação à obra de Paulo. “Vale notar que os trabalhos dele, assim como os de vários outros artistas conceituais dos anos 1960 e 1970, não são devidamente conhecidos e reconhecidos pelo sistema da arte [museus, galerias etc] por se afastarem dos meios e técnicas tradicionais (…). Acho fundamental rever posturas e ideias naturalizadas do que seja uma obra de arte. Meu trabalho trata disso e Paulo Bruscky, com sua produção coerente e consistente vem operando numa região de fronteira entre arte, vida e investigação”, definiu Cristina, em depoimento sobre seu livro e exposição na Revista Paradoxo.

“Não estou preocupado se sou artista”

Paulo é filho de um russo com uma brasileira de Fernando de Noronha: “Como meu pai era fotógrafo, me criei em contato com a arte desde pequeno. A minha  formação é de desenhista. Sempre desenhava nos meus cadernos, e também acompanhava o meu pai em seu ateliê fotográfico. Aos vinte anos, com o desenho intitulado O Guerrilheiro, ganhei o primeiro prêmio do Salão de Arte de Pernambuco, que veio a ser censurado pelo governo militar, sendo substituído por outra obra que estava na exposição, embora o resultado tivesse sido publicado nos jornais locais”. Indago sobre como a sociedade de Recife lidava com seu trabalho artístico: “A sociedade pernambucana sempre foi muito tradicional e açucareira, o que fez com que o meu trabalho permanecesse à margem, o que, de certa forma, ainda perdura. A crítica de arte só veio a existir em Recife a partir dos anos 1990 (ainda bem!)”, sentencia com uma ironia própria de quem nunca precisou da crítica para fazer e acontecer.

Vale lembrar que no Nordeste, a partir da década de 1960, havia uma movimentação artística forte, com nomes como Gilberto Gil, Gal Costa, Caetano Veloso, Tom Zé (enfim, a Tropicália), Torquato Neto, Waly Salomão entre tantos outros. E em Recife? Havia outros vanguardistas? Bruscky manteve contato com os Tropicalistas? “Naquela época, no Recife, eu trabalhei sempre só, a não ser o trabalho em equipe com Daniel Santiago, parcerias também com Silvio Hansen, Jomard Muniz de Brito e Leonhard Frank Duch, e alguns projetos com Uandejara Lisboa da Paraíba e J. Medeiros do Rio Grande do Norte. Na Bahia, sempre tive contato desde os anos 1970 com A.L.M. Andrade e algumas outras pessoas do ciclo do super 8. Por falar em Tropicália, acabei de fazer uma curadoria que terminou em dezembro de 2007, juntamente com Maurício Coutinho e Solón Ribeiro, sobre os 40 anos do Tropicalismo, em Fortaleza. Além das publicações de época, tinha a instalação Tropicália de Hélio Oiticica, fotos de Ivan Cardoso e grande parte dos filmes produzidos na época. Um manifesto do início do tropicalismo foi redigido no Recife no Mercado da Encruzilhada com Jomard Muniz de Brito e Caetano Veloso, entre outros”, explica.

Os anos 1970 foram uma das décadas mais prolíficas para as artes plásticas no sentido de apropriação de objetos cotidianos pelos artistas no Ocidente. E foi nessa época que o trabalho de Bruscky, sobretudo sua produção de arte postal (ou mail art, como preferem alguns) se intensificou. Sem sombra de dúvida, sua arte postal é uma das mais significativas da América do Sul. Não foi mera obra do destino que o fez organizar, em 1975, no Recife, a 1ª Exposição Internacional de Arte Postal – com interferências de textos, imagens e carimbos.

Paulo Bruscky1

Muito em função dos seus variados contatos estabelecidos na vertiginosa e dinâmica rede de arte postal, e de sua abundante produção no período, Bruscky ganhou uma bolsa da Fundação Guggenheim, que o levou a Nova York, em 1982. O contato iniciado no Brasil através da rede que contava com integrantes do Fluxus se intensificou nesse período e certamente foi decisivo para a maturidade de sua proposta estética. Fluxus foi uma das mais importantes vanguardas do século XX, criada pelo lituano George Maciunas, e contou com nomes como Joseph Beuys, Dick Higgins, Gustav Metzger, Nam June Paik, Yoko Ono e o músico John Cage. O movimento inicialmente colocou-se contra a idéia do objeto artístico tradicional como mercadoria, e se proclamava como antiarte. Paulo nunca se ligou nominalmente ao grupo, mas teve contato com Dick Higgins, e participou, ao lado de Merce Cunningham e Rauschenberg, de performances de John Cage nos Estados Unidos. O quão importante foi o Fluxus no seu trabalho? “Eu sou tudo que veio antes de mim: futurista, dadaísta. Não existe ninguém que não tenha influências. Eu sou um conjunto de informações”. Certo é dizer que através do contato com o grupo, Paulo alargou suas fronteiras geográficas e seus limites artísticos. Nesse período, ditadura militar no Brasil, protagonizou ainda ações e performances politicamente atuantes, que lhe renderam três prisões.

O que afinal o artista entende por vanguarda e, porque apesar de toda sua atividade na década de 1970 e de seu contato íntimo com o Fluxus, sua obra demorou tanto a ser reconhecida? “Há uma questão que é viver ‘de’ ou ‘da’ arte. A vanguarda é a contemporaneidade que sempre irá existir. No mínimo, você tem que ser contemporâneo de si próprio, ou seja, cons/ciência da arte. A década de 1970 passou em brancas nuvens não só no Brasil como no mundo todo. Nem a crítica nem as instituições entenderam nada”. É possível também inserir o trabalho de Paulo numa possível tentativa de revitalização e atualização do mercado de Arte (com maiúscula mesmo) no Brasil (incluiria, inclusive, a acolhida de algumas galerias e marchands em relação à street art). Sintomática a decisão do curador da Bienal de São Paulo deste ano em manter um pavilhão “virgem”. Pergunto a opinião de Bruscky sobre o ocorrido: “A proposta de Ivo Mesquita [curador da Bienal] sobre o “vazio”, (…) eu acho uma colocação perfeita porque as Bienais já caíram no buraco negro”.

Paulo Bruscky2

Uma estética precária

Graças ao humor, Duchamp se defende de sua obra e de nós, que a contemplamos, a admiramos e escrevemos sobre ela. Sua atitude nos ensina, embora ele nunca se haja proposto a nos ensinar nada, que o fim da atividade artística não é a obra, mas a liberdade. A obra é o caminho e nada mais. Esta liberdade é ambígua, ou, melhor dizendo, condicional: a cada instante, podemos perdê-la, sobretudo se tomarmos a sério nossa pessoa e nossas obras…
Otavio Paz – Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza. São Paulo: Perspectiva, 1990.

O trabalho de Bruscky é um trabalho bem humorado. E essa graça – não confundir com frivolidade – reinventa fatos e objetos cotidianos, levando a uma possível discussão de nosso mundo mais objetivo através de um olhar poético e precário. Precário porque Bruscky elege meios efêmeros para se expressar. É a arte de agora, agora! “Arte do meu tempo, tenho pressa”, frase de Bruscky que sintetiza essa impaciência, medida exata da criatividade do artista. E daí surge o correio como meio para se expressar, o xerox, os outdoors, os textos, os vídeos… Meios atuais para uma arte atual, que dialoga com a reprodutibilidade, princípio incontornável a partir da década de 1960 e marca do pleno desenvolvimento dos meios de comunicação de massa.

Paulo Bruscky3

Páginas iniciais da matéria originalmente publicada na revista +Soma

Paulo Silveira, em seu trabalho sobre os livros de artistas (citado na obra de Cristina Freire) afirma que “Bruscky opera no terreno da absoluta criatividade. Difícil de ser enquadrado, pode-se defini-lo, ao menos, como anticomercial e marginal.” A divisão da exposição Ars Brevis, organizada por Cristina em sete núcleos, mostra um possível ordenamento tanto quanto o caráter multimídia da obra de Bruscky. São eles: Eu Comigo, em que o artista se apresenta como personagem em performances e ensaios fotográficos; Arte Postal, destacando a troca de correspondência de cunho político entre artistas de vários países; Poesia Visual, com colagens e caligramas; Máquinas Poéticas, sobre sua vasta experimentação com máquinas xerox e aparelhos de fax; Biblioteca, composto pelos livros de artista, Hospital-Estúdio, sobre suas experimentações com maquinário hospitalar; Cotidiano, onde objetos, como um ferro de passar roupa, servem como matriz de gravura. Paulo também tem um importante e diversificado trabalho cinematográfico, criando inclusive os xerofilmes, meio pouco explorado e desenvolvido por outros. “Nas décadas de 70/80, trabalhei muito com o super-8, realizando o que Helio Oiticica chamou de Quasi Cinema, que é o filme de artista, no qual coloquei ideias que eram adequadas para a mídia. Fiz experiências realizando o mesmo trabalho em super 8 e vídeo, analisando a diferença da linguagem do vídeo e do cinema, principalmente naquela época em que a questão da velocidade era diferença fundamental”, explica Bruscky que operou sempre com a colaboração de equipamentos de terceiros.

A relação entre crítica de arte e artista é tensionada por Bruscky, tendo em vista sua intensa atividade nas décadas de 1960 e 70, período em que os artistas reivindicaram responsabilidade intelectual. “Uma coisa importante, que até aquele momento não havia, era a prática de teorizar, fazer uma reflexão maior sobre o próprio trabalho. O artista passou a ser o seu próprio crítico e, por isso, não precisava de mais ninguém escrevendo sobre ele. E a crítica acordou muito tarde porque, com medo, eles passaram um tempo ausentes. Nós os substituímos de maneira verdadeira, de maneira mais pura, mais direta, sem nenhum artificialismo, sem nenhum tabu, sem nenhuma troca de interesses”, diz Bruscky em depoimento colhido na obra de Cristina Freire.

Um eterno insurgente – da forma, sobretudo –, inquieto e desafiador. Seu trabalho plenamente assimilado pelo mercado de artes atual (além da Bienal e da exposição no MAC-USP, ambos em São Paulo, Paulo acabou de participar da sala dedicada ao Brasil na 27ª Feira Internacional de Arte Contemporânea de Madri), permite que conheçamos toda sua trajetória tão rica e fascinante. Esse herdeiro dileto das experiências de Marcel Duchamp parece despistar ao dizer que já fez tudo o que tinha que fazer na vida. “Agora eu quero tomar minha cachacinha, falar  besteira, sem me preocupar com as conseqüências”. De jogar papo para o alto e de cachacinha todos gostam (bem, nem todos), mas nada impede que Paulo Bruscky faça um novo trabalho entre um gole e outro, não? Assim esperamos!

Para saber mais:

Paulo Bruscky – Arte, Arquivo e Utopia, de Cristina Freire
Ed. Companhia Editora de Pernambuco

Anúncios