Edgar: linha de frente no rap sem amarras

O reino dos bandidos de alma tímida brilha novamente com o fulgor chamado “Protetora dos Bêbados e Mal Amados”, obra ousada do MC Edgar. Raro refinamento em suas escolhas estéticas e intenções inusuais dentro do rap nacional e até mesmo no que concerne ao Ocidente como um todo. Ousadia, valha-me deus! E marra e cara feia que fique pros pobres de espírito e de talento pautado pelas questões comenzinhas do gosto médio (aquele com feição e odor de tédio)! Antes de mais nada, ei-la abaixo:

O canal de youtube “Fino da Zica” descreveu o MC como “um hipotético filho do Sabotage com o Ney Matogrosso”. Nem tão lá nem tão cá. Revivendo tempos de jornalista cultural, o colocaria numa encruzilhada: de um lado, Jards Macalé, acenando entre o desdém e a benção; de outro, todo um universo lírico que caberia dentro do imaginário das obras de José Oiticica ou do cinema de Ozualdo Candeias ou Rogério Sganzerla (até pela verve e o trato que dá aos temas de seus raps prenhe de “bêbados e mal amados”); a frente, o Criolo ainda-na-fase-Doido, um carisma e energia bruta, entre a cruz das arestas aparadas e sucesso massivo e o respeito e hermetismo do underground, e, por fim, a suas costas, o Neto do Síntese e sua verborreia alucinante e um tanto desfocada, a pregação on acid, só que aqui em chave mais esclarecida, com o alvo mais centrado e o MC o cercando de forma festeira, um Macunaíma sem tempo pra um passado idílico e floreios,os olhos já surrados pela visão do asfalto beijado aos 35°.

O trabalho recém-lançado já havia recebido um curta (porque chamá-lo de clipe é quase um acinte!) da eloquente faixa “Enquanto as freiras se divertem”, com participações de Juçara Marçal e Kiko Dinucci – o que certamente ao ouvinte bem informado, dá pistas quentes de que lado Edgar samba:

Assim como Kiko Dinucci ou o produtor executivo de seu novo trabalho, BB Jupteriano (ex-MC do fugaz Cogumelo Panda), Edgar é oriundo de Guarulhos. A proximidade e, ao mesmo passo, a inadequação ao deslumbre da cena artística da capital paulistana, muitas vezes provocam esse não-lugar ao qual a arte dos citados ocupa. Vai ser gauche na vida! De resto, é um belo lugar pra se estar, em minha opinião. E pra chegar CHEGANDO nesse ponto, Edgar foi talhando seu artesanato em inúmeras produções, como no projeto Matagal Hi Tek, ao lado de Miranda Veloso, Lucas Negrelli, Rodrigo Locaut e Marco Nalesso – muitos destes parceiros ainda hoje do MC.

Makoto Oiwa, o DJ Mako, me parece a mais notável influência aparente pra alcançar a maturidade do novo trabalho. A “roupagem do instrumental mais jazzistíca” proposta pelo DJ deu uma roupagem mais adequada ao fraseado do MC muito mais próximo da tradição do spoken word (que acaba sendo a fonte pra aventuras pontuais de Danny Brown e Kendrick Lamar, por exemplo!) e o coloca numa linhagem nobilíssima que encontra de Last Poets até Saul Williams, como remete à cultura do slam poetry, mas é também originalíssima a propor uma chave de entendimento do mundo vivido que o coloca na paralela, por exemplo, a um Negro Léo – lembrando como “muro intransponível” entre ambos, o que torna um carnalmente carioca e neo-tropicalista, e o outro um suburbano paulista, com o compasso das paixões atrelado aos abismos próximos das quebradas do mundaréu. Tateio algo como Caetano Veloso e Tom Zé, por assim dizer.

Tudo isso pra dizer que o tato do DJ Mako nas escolhas sonoras acaba por elevar e deixar tônica no que de mais interessante Edgar apresenta em sua verve banhada em suor ébrio de ressaca – ainda que avise aos navegantes que “hoje em dia Edgar está sem beber nenhuma gota de álcool a exatamente oito meses” na descrição do youtube de seu novo trabalho. Comparar com seu segundo trabalho (que, admito, me despertou desconfiança e júbilo em partes iguais), “PARALELO 22S”, de 2015 (download aqui),é um exercício interessante.

Por fim, o rap nacional sempre se equilibrou entre o inglório trabalho de Sísifo, a ousadia de Atlas e a empáfia de querer “roubar” a cena tal qual Prometeu, conseguindo em momentos distintos, como percebemos nos últimos anos, um vôo de Ícaro por parte de alguns (bons) artistas isolados.

Resta saber que lugar Edgar ocupará. Tudo indica que chegou a hora do MC nos dar a oportunidade de acompanhar com zelo sua saga e entender qual lugar ocupará na tragédia da vida brasileira. Esse novo ponto de partida é primoroso!

 

 

 

 

 

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