Meus Heróis Não Estampam Selos:Plínio Marcos

Pare tudo o que estiver fazendo ou reserve 2 horinhas da tua árdua rotina (ou abençoada preguiça e espraiamento!) pra ver esta entrevista antológica com Plínio Marcos, o dramaturgo brasileiro fundamental, que finalmente chegou ao youtube! O ano era 1988, a situação de Plínio era a mesma de sempre:um artista marginalizado/marginal, cronista dileto das quebradas do mundaréu, e o Roda Viva ainda era um programa respeitável.

Plínio Marcos de Barros (Santos, 29 de setembro de 1935 — São Paulo,19 de novembro de 1999), quando mudei pra capital bandeirante em 1997, era uma personagem da noite paulistana e da vida de seus teatros no bairro do Bexiga e na Praça Roosevelt. E, infelizmente, também perdi a chance de comprar livros de sua mão. Muito provavelmente, foi meu amigo Clodos Paiva, à época livreiro na USP e hoje bibliotecário e desde sempre um punk rocker de gostos muito informados e atento às coisas da marginália, que me chamou atenção à obra do mais famoso torcedor do Jabaquara de Santos! Tudo que eu sabia até então sobre o autor era uma informação ou outra em revistas e fanzines sobre o autor das hoje clássicas “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, “Navalha na Carne”, “Homens de Papel” e “Querô – Uma Reportagem Maldita”, por exemplo.

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O teatro não foi a primeira opção do santista, que fora palhaço de circo, estivador, traficante de mercadorias mil etc. Foi Patricia Rehder Galvão, a notória Pagu, a quem Plínio fora apresentado em 1957 (quando ele aparece como ator do Grupo Experimental de Teatro infantil, fundado por ela), que o aconselhou a seguir carreira dramática. E que drama, por assim dizer!! Plínio Marcos foi o autor de teatro mais perseguido pela ditadura brasileira, como conta o Huffpost Brasil no texto “9 coisas que você precisa saber sobre o dramaturgo Plínio Marcos”:

O Abajur Lilás estava em montagem. Antônio Abujamra era o diretor. Até que chegou o ensaio para a censura, uma apresentação fechada para que os militares dessem o aval ou proibissem o espetáculo. Eles proibiram. Tal proibição foi transformada em bandeira pelos artistas. A classe teatral organizou várias manifestações de protesto contra a censura da peça, e grande parte das companhias teatrais não trabalhou, na quinta-feira, dia 15 de maio de 1975, data da proibição da peça. E durante as semanas seguintes, era lido um manifesto contra a censura, em todos os teatros, antes do início dos espetáculos. O advogado Iberê Camargo e Plínio Marcos entraram na Justiça contra a censura. Perderam em todas as instâncias. Até no Supremo Tribunal Federal.

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Plínio é um personagem subversivo por natureza e vocação – é difícil enquadrá-lo dentro de uma ideologia – ainda que o trecho destacado a seguir, presente no programa da peça Madame Blavatsky, deixe antever um tipo sui generis de libertário espiritualizado:

A política é sempre a luta pelo poder. Todo o esforço dos políticos é no sentido do poder. Já o homem com religiosidade, o homem que tem o autoconhecimento, não deseja o poder, nem se submete ao poder. Portanto, rasga a regra, rompe a estrutura, arrebenta elos da cadeia. Subverte.

No site oficial do artista, é possível ler algumas de suas peças, reportagens e ficções, além de imagens e maiores informações.

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Abaixo, ainda deixo outras entrevistas desse artista que foi símbolo de autonomia e independência criativa, um herói sem igual dos que se encontram dentre os 99% que trabalham pra encher os cofres dos outros 1%. Além disso, recomendo o livro “Plínio Marcos – a crônica dos que não têm voz”, editado pela Boitempo, com crônicas absurdas do dramaturgo, que só faz aumentar o gigantismo de sua obra e a argúcia pra entender aqueles que geralmente não são assunto.

E se ver alguma peça de Plínio Marcos em cartaz -não PERCA TEMPO! Teatro pode ser muito legal, ao contrário do que dizem algumas almas pobres de espírito.

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