E Zás #62 – Bruxas do Século XIX e Monstros Comunistas

1. É o fim dos anos 1800 – o fin de siecle . A arte é toda simbolismo e decadência.Você é um artista. Você fica com seus amigos. Eles também são artistas. Você acha que a arte é uma forma de magia. Os artistas podem mudar a realidade com cores. Você cria imagens que expressam algo de sua experiência – algo de sua alma.

Você e seus amigos têm seu próprio pequeno clube. É uma irmandade secreta. Vocês se chamam Les Nabis – uma palavra hebraica para ‘profeta’ ou ‘vidente’.

A descrição acima é a forma como o sempre bom Dangerous Minds introduz o artista francês Paul Ranson (1864-1909), herdeiro da escola de Paul Gauguin e interessado por mistiscismo e ocultismo. Fechados em seu pequeno clube, não alcançaram grande notoriedade,mas, ao menos a obra de Ranson, em diversos aspectos, antecipou muito do que viria logo a seguir na arte europeia. E tem um adicional para nós, viajantes do século XXI: o encanto em relação a bruxas segue enorme!

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Bruxas ao redor do fogo – 1900

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Bruxa em seu círculo – 1892

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Bruxa na paisagem – 1897

2.  Geliy Korzhev (1925-2012) foi um artista russo subserviente e obediente aos ditames do realismo socialista em voga por aquelas bandas.Longe se ser um pintor ruim, mas o que o mundo não precisava era de mais um artista pintando quadro chamado “Levantando a Bandeira” com um Harrison Ford proletário empunhando o estandarte vermelho com um companheiro, ao lado, abatido por sabe-se lá que inimigo, como no quadro abaixo:

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Só que aí rolou algo inesperado. Durante a Guerra Fria, o Ocidente exaltou a exaustão os artistas dissidentes do Estado totalitário soviético. Só que o regime caiu, logo depois do Muro de Berlim em 1989. E Korzhev ficou, por assim dizer, sem pai nem mãe. Ou na linguagem da juventude, pra lá de #xatiado. E, ao que parece,o artista não tinha sangue de barata e morreu defendendo o socialismo soviético. Cada um cada dois. Esse nó górdio liberou, literalmente, os monstros do artista e quem ganhou fomos nós!

Na realidades, os “mutantes”, como designava o artista, surgem no fim dos anos 1970 como uma crítica aos líderes soviéticos de então e o que Korzhev entendeu ser a degenerescência do regime que exaltava. Evidentemente, quando o capitalismo casca grossa bateu as portas da mãe Rússia, o artista aproveitou e liberou todas suas figuras grotescas. Sem ceder aos seus pontos de vista, no final dos anos 1990, ele recusou um prêmio estatal concedido a ele pelo governo da nova Federação Russa, e explicou da seguinte forma seu ato – como relatado no Dangerous Minds:

Eu nasci na União Soviética e acreditava sinceramente nas idéias e ideais da época. Hoje, eles são considerados um erro histórico. Agora, a Rússia tem um sistema social diretamente oposto ao que eu, como artista, fui criado. A aceitação de um prêmio estatal seria igual a uma confissão de minha hipocrisia ao longo da minha carreira artística. Eu peço que você considere minha recusa com a devida compreensão.

Mas, sejamos justos: sua obra é mais ampla do que o simplismo do realismo socialista ou suas figuras grotescas derivadas da desilusão ideológica, como explica o texto da Tretyakov Gallery Magazine. Korzhev foi um dos mais importantes artistas russos da segunda metade do século XX e pintou como poucos, na maior parte do tempo, a vida vivida da sociedade moscovita.

 

 

GeliK - At the Hairdresser 3 1991.jpg

At the hairdresser #3 – 1991

GeliK - The Butcher 1 - 1990

The Butcher #1 – 1990

GeliK - Triumpher 1992

The Triumpher – 1992

GeliK - Real 1998

Real- 1998

GeliK - Triunfator - 1996

Triunfator – 1996

 

TRILHA SONORA

Uranium Club – All Of Them Naturals

Dj Krush & Toshinori Kondo – Ki-Oku

Dirty Projectors – The Glad Fact

Priests – Nothing Feels Natural

Days N’ Daze – Rogue Taxidermy

Dicró – Dicró (1980)

Pissed Jeans – Why Love Now

Owls – Two

Cornelius Cardew – Chamber Music 1955-1964

Elliott Smith – XO

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