E Zás #61 – Porque tocamos rock e chimpanzés não?; papo reto sobre Revolução Curda

1. Nós tocamos rock porque somos animais sociais e gostamos de brincar! Mas não só isso, como explica Danbert Nobacon, o ex-vocalista do Cumbawamba. O texto é cheio de sacadas interessantes:

 (…) É possível sugerir que a nossa paixão pela música é uma parte biológica de quem nós somos. Cantando, dançando, nós Homo sapiens temos música e nossos primos primatas não têm nada remotamente tão elaborado.

A resposta biológica simplificada a respeito de porque nós seres humanos formamos bandas de rock é que andamos em duas pernas e chimpanzés et al. não.

(…)

A única coisa que temos em comum com todos os nossos antepassados primatas e a maioria dos mamíferos – e muitos pássaros e peixes – é que nós brincamos. O jogo é o mecanismo evolucionário que permite a um animal nascido no que pode ser um ambiente em mudança desenvolver as habilidades maleáveis necessárias para sobreviver e procriar.

(…)

Música pop está repleta de oohs baby-baby e aaahs. Da mesma forma, o ritmo do pentâmetro iámbico de Shakespeare e a música rap existem porque, em seu longo desenvolvimento cultural, a linguagem formal imita e é construída sobre a musicalidade vocal da infância e não o contrário.

O texto “Why Humans Form Rock Bands and Chimpanzees Don’t” (Porque humanos formam bandas de rock e chimpanzés não) é um texto curto e divertido no site Talkhouse.

Danbert, cujos álbuns solo primam pela esquisitice (o que dizer de um disco infantil sobre fezes e puns?) vai lançar trabalho novo dia 21 de Abril, com o nome de Stardust to Darwinstuff.

2. Pra mim, a entrevista com Peter Loo, publicada no [ótimo site esquerdista] Passa Palavra com o título “Uma revolução real é uma massa de contradições: entrevista com um voluntário em Rojava” é a melhor coisa que li em português sobre a complexa experiência da revolução curda no Oriente Médio.

Duvida? Veja o que o ativista diz, por exemplo, sobre a relação das diversas etnias participantes da revolução:

A revolução começou dentro da comunidade curda e a conquista de apoio no interior de outras comunidades é uma prioridade central. Isso inclui trabalhar com milhares de refugiados árabes que fogem do conflito por toda a Síria e que estão sendo impedidos pela Turquia de viajar para a Europa. Parte do meu trabalho aqui com o TEV-DEM gira em torno da construção desse apoio entre as comunidades. A comunidade assíria [também chamada de siríaca], por exemplo, está fortemente dividida entre o regime e a revolução, sendo que cada facção tem as suas próprias unidades militares e policiais. Atravessando os bairros assírios estas divisões são bastante nítidas, uma rua cheia de retratos de Assad e bandeiras do regime, a seguinte com pontos de controle pró-revolução com slogans revolucionários nos muros.

Ou sobre como a ideologia dos revolucionários funciona do dia-a-dia:

Eu já falei como a expansão dos valores revolucionários no interior de outras comunidades é um trabalho em andamento. Um outro exemplo é que, enquanto os níveis mais altos do sistema confederado, sobretudo nas cidades, estão bem desenvolvidos, o nível mais baixo, a comuna – instituição de nível comunitário, nos bairros, onde ocorre a participação mais direta nas assembleias políticas e nos comitês políticos temáticos – não está tão desenvolvida, como se poderia pensar de fora. As razões para isso retomam as origens e dinâmicas da fase insurrecional da revolução, como discutido anteriormente.

curdistão

E ainda, sobre a tão falada libertação feminina no interior da revolução:

Uma crítica da esquerda na Europa, como exemplificado em um recente artigo de Gilles Dauvé Rojava: reality and rhetoric, é a de que a revolução das mulheres em Rojava se limita às mulheres das YPJ. Se for assim, então Rojava não pode ser visto como um lugar onde há uma revolução das mulheres. Afinal, o Estado de Israel recruta mulheres em suas tropas e [Muammar] Gaddafi era famoso por utilizar guarda-costas mulheres. A história está cheia de exemplos em que as mulheres desempenham um papel significativo em lutas sociais ou conflitos militares, apenas para retornarem a posições sociais subservientes ao final das hostilidades. No entanto, não é aqui que a revolução das mulheres em Rojava termina. Nem para no ponto em que assegura um mínimo de 40% de representação feminina em todos os comitês e na igualdade no número de porta-vozes (o que, isoladamente, vai mais longe do que a maioria dos estados ocidentais).

Repito: é o MELHOR texto em português sobre a revolução curda e você pode ler aqui.

TRILHA SONORA

Wilko Johnson & Roger Daltrey – Going Back Home

Tom Zé – Correio da Estação Brás

John Tilbury – cornelius cardew works 1960-70

Coneheads – L.P.1. aka “14 Year Old High School PC-Fascist Hype Lords Rip Off Devo for the Sake of Extorting $$$ from Helpless Impressionable Midwestern Internet Peoplepunks L.P.”

Refused – Freedom

Coneheads – Caanadian Cone

CCTV – Quiet

Channels – “Backpfeifengesicht” b/w “Airstrip One”

Dirty Projectors – Dirty Projectors (2017)

Bruno Mars – 24K Magic

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