“Suggestion”: crítica visceral e êxtase em uma canção ‘impossível’

Um amigo que toca numa boa banda hardcore de São Paulo postou o vídeo logo abaixo algumas semanas atrás e ressaltou os elementos que distinguiriam o Fugazi: letra, posicionamento, atitude, postura e presença.

(se você não faz ideia do que seja FUGAZI, leia esta breve bio ou esta espetacular entrevista com um dos integrantes da banda)

E é interessante que o efeito da música do quarteto de Washington D.C (EUA) seja tão perene, passados quase 20 anos desde sua última turnê no Brasil e mais de 15 anos desde que entraram num “hiato”, nos corações e mentes de seu sólido e consolidado núcleo de fãs. A impressão que dá, haja visto a qualidade da imensa maioria do rock de hoje (incluso o independente) é que não há espaço para o surgimento de nada nem minimamente parecido com o Fugazi. Felizmente, tudo que é sólido se desmancha no ar.

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“Suggestion” – a música do vídeo acima e dos demais que se encontram aqui, encerra uma série de características do grupo que merecem breves comentários. Como, por exemplo, a aparente simplicidade da composição.

A bateria oferece a métrica, dura e constante. O baixo, sinuoso, groovy, oferece a cadência para a fase inicial da canção onde a guitarra nos traz alguns tons a mais na composição até aparentemente se insurgir contra o que está posto até ali e apontar para uma saída furiosa. Mas ela recua. E assim todos os demais instrumentos retrocedem – menos o baixo, altivo, que volta para a mesma pulsação vibrante. O característico vocal falado de Ian Mackaye surge, direto e objetivo, impassivo, perguntando: “Why can’t I walk down a street free of suggestion?” Quando repete a pergunta, a forma é outra e a raiva começa a se delinear – não existe espaço para o cinismo opaco tão presente na comunicação atual e menos ainda à perversão de linguagem amoral. O cinismo metido a “livre pensador” tão massacrado pelo niilismo casca grossa do quadrinista Ricardo Coimbra não encontra espaço, sobretudo quando o que se segue não é um convite, mas uma provocação “Is my body the only trait in the eye’s of men? / I’ve got some skin / You want to look in there?” Mas a canção segue, entre recuos e avanços, silêncios e esporros sonoros.

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A canção mimetiza, de certa forma, alguma impotência perante às questões suscitadas. A canção evolui e, na aparente simplicidade de sua construção, se desenha o primeiro momento catártico da canção. Uma explosão que captura todo esse pequeno registro quase fotográfico criado até então que define um dos momentos de maior violação, frustração e abandono que uma mulher pode sentir.

O vocal mais dramático de Guy Picciotto surge após isso, já na metade da canção de quase 5 minutos. Sua dicção é resistência mas é também sofrimento, angústia. Ela surge no final de versos densos como “Lays no reward in what you discover / You spent yourself watching me suffer”. E, evidentemente, o elemento performático singular que é Picciotto no palco acrescenta expressão à canção que só sua audição – passiva, no conforto do lar – não poderiam captar. É quase um ato típico de dança contemporânea.

O desfecho de fato dessa canção marca um dos maiores trunfos da trajetória do Fugazi: é uma resposta que surge na interação, e é o resultado do que banda e público constroem, seja pelo confronto, seja pela soma harmoniosa das partes.

Soa abstrato o que digo? É hora de mostrar outras duas apresentações da mesma canção ao vivo. O resultado é pulsante, uma qualidade de energia tão visível no ar que poucas bandas conseguem gerar. E daí a presença indelével no grupo no imaginário de quem presenciou suas apresentações. Ninguém sai ileso.

(notem Pete Stahl e Ian Svenonius, respectivamente, ex-Scream e ex-Nation Of Ulysses, boladões ao fundo do palco, hipnotizados pela performance)

Se hoje soa quase como uma impossibilidade homens [brancos, cisgêneros e bem sucedidos] retratando o estupro – haja visto a onipresença da retórica a respeito do “lugar de fala” etc, nos Estados Unidos do início dos anos 1990 – tal questão já era algo bastante temerário e uma questão muito viva na comunidade punk estadunidense de então, onde vivenciava-se o auge da “revolução” riot grrl. Não me parece que nenhum outro grupo de homens conseguiu tratar da questão de forma a se expôr tão abertamente e não buscar algum tipo de recompensa nisso, tão presente na catastrófica retórica “feminista” por parte de homens liberais (a tentativa patética de Eddie Vedder de ser co-partícipe disso dá substância e materialidade pra esse tipo de questão, como vemos no vídeo baixo).

Esse tipo de equilíbrio entre forma e conteúdo é uma característica das mais exemplaresem qualquer grupo de rock e, em particular no Fugazi, é sua assinatura. Os arranjos são aparentemente espartanos,diretos, mas a substância lírica que apresentam (mesmo em sua fase após o terceiro álbum, quando as canções diretas deixam de ser a tônica) molda significativamente os movimentos estruturais da canção. O “balanço” nunca é leviano, se aprazem si mesmo, os caminhos e impasses que as questões das letras apresentam se espraiam na composição, os movimentos curtos e agudos de suas peças são obstinadas porém econômicas. Porque a “sobrevida” que se espera delas acontece na vida do espectador (ou “ex-spectator” como nomeiam uma canção de seu último álbum).

É sempre temerário fazer um tipo de afirmação dessas, mas no caso do Fugazi não me parece leviano afirmar que o que propuseram (ou desafiaram?) em suas letras e estética tem como prova cabal de seu “sucesso” ou efetividade, a permanência no cotidiano de milhares e milhares de ouvintes que permanecem politicamente ativos de alguma forma mundo afora e ainda veem nas canções do Fugazi elementos para pensarem suas próprias performances particulares no planeta.

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Mas ainda ofereço algo mais para se entender o impacto de “Suggestion” em seu contexto original – como se os vídeos, sobretudo o segundo onde Amy Pickering (ex-Fireparty)  toma os vocais deixasse espaço para maiores comentários.

O texto abaixo encontra-se no incrível Dance Of Days – Duas décadas de punk na capital dos EUA, de Mark Jenkins e Mark Andersen, do qual já tratei AQUI e AQUI. O texto começa tratando do festival International Pop Underground, em 1991, realizado em Olympia, pelo pessoal da K Records, gravadora do icônico Calvin Johnson (ex-Beat Happening):

“Com mais de 600 pessoas lotando o teatro, esse foi de longe o maior show da semana. Antes de se juntar a Picciotto na harmônica de abertura de “Exit Only”, MacKaye dirigiu-se à plateia e disse “divirtam-se e… Vocês sabem”. Esse era quase um ritual de apelo para que os fãs tomassem cuidado uns com os outros, mas ele obviamente não imaginava que fosse necessário nesse show.

No entanto, alguns insistiram em pogar e mergulhar na plateia, mas nessa noite (como às vezes acontecia em shows do Fugazi) algumas pessoas do público decidiram não aceitar isso. Durante uma belíssima versão de “Merchandise”, um tentou dar um stage dive, mas foi detido no meio do salto e jogado de volta ao palco pelas pessoas da primeira fila. Muitos incidentes similares ocorreram até o final do show. Isso deve ter sido reconfortante para os integrantes do Fugazi, pois muitas vezes eles sentiam que a plateia dependia deles para resolver as coisas.

Antes do show, Kathleen Hanna e várias outras mulheres tinham distribuído um panfleto sobre um suposto estuprador que estaria no evento; elas pediram para falar durante o show do Fugazi, mas Ian disse que ele mesmo abordaria o tema durante o set. Quando a banda parou para afinar os instrumentos, ele disse: ‘Não sei se vocês notaram, mas está circulando por aí um panfleto, sobre um estuprador. Nessa cidade, como em qualquer outra, existe sempre alguém tentando machucar as pessoas. E muitas pessoas estão preocupadas com isso, tanto é verdade que estão aqui, nesse evento incrível, e mesmo assim continuam pensando nisso: que existe alguém por aí que pode estuprar uma mulher. Então, elas queriam muito fazer algo sobre isso, queriam dizer algo. Esse é um local estranho para fazer isso, mas… Coisa pesada’.

A guitarra entrecortada de ‘Suggestion’ começou, e Mackeye continuou: ‘Algumas pessoas dizem que a música não deveria ter significado, ou então que a política não tem nada a ver com música, que a música deve ser apenas divertida. Bem, isso é justo – para eles. O nome dessa música é Suggestion e se tem alguém que acha que é a pessoa certa para cantar essa música, então por favor suba até aqui e cante o que quiser. Enquanto isso, começarei’. Dito isso, Ian cantou as primeiras estrofes.

Parecia improvável que alguém pudesse aceitar o convite. No entanto, uma garota com uma longa trança nos cabelos (Hanna reconheceu a garota e sabia que ela já tinha sido vítima de abuso) emergiu da multidão e, muito nervosa, pegou o microfone – recebendo gritos de apoio. Tremendo, ela cantou: ‘Is my body my only trait / In the eyes of men?’ (‘O meu corpo é o meu único atrativo / Aos olhos de um homem?’). Até mesmo o usualmente frio colaborador da Flipside ficou tocado, e escreveu que ‘ela conseguiu cantar apenas alguns trechos, e então desabou e chorou. Mackeye parecia muito abalado. Todos na plateia também pareciam impressionados. Esse foi um dos momentos mais emocionantes que já tinha visto’. A casa inteira cantou junto com ela: ‘I’ve got some skin / Andy ou want to look in’ (‘Eu tenho um pouco de pele / E você quer olhar’). Com lágrimas caindo em seu rosto, ela desceu do palco e foi aplaudida com entusiasmo.

MacKaye recuou e apontou para o microfone, convidando outras pessoas para irem até lá. Como ninguém se prontificou, a plateia respondeu cantando em uníssono. Quando a música deu uma pausa, uma voz feminina anônima gritou o nome do suposto estuprador, que aparentemente estava no meio do público. MacKaye retomou a música, e a galera continuou cantando junto.

‘Já tocamos essa música várias, várias vezes’, observou MacKaye, ‘e as pessoas pedem, ‘Toquem aquela música legal sobre estupro!’ Enquanto ele falava, a música continuava ressoando, num volume baixo. “Mas não é realmente uma música muito legal, não tem nada de legal nela, não mesmo. [A música] é mais como uma luta. É um homem, ou um garoto, lutando com uma situação sob a qual ele sente que tem pouquíssimo controle, ainda que seja diretamente responsável por ela. Então ele junta algumas palavras, e finge que é assim que outra pessoa deve pensar. Esse outro alguém é uma mulher ou uma garota. E ele não é nem uma coisa nem outra’.

O recinto ficou totalmente silencioso. Cantando de uma forma quase sussurrada, Ian voltou para a música: ‘She did nothing to conceal it / He touches her because he wants to feel it…’ (‘Ela não fez nada para esconder / ele a toca porque quer sentir isso…’). Picciotto assumiu os backing vocals: ‘We dont want anyone to mind us / We play the roles they assigned us…’ (‘Não queremos que ninguém se importe com a gente / Desempenhamos os paéis que nos foram atribuídos…’). Então a voz de MacKaye decretou o fim da música, com um grito eletrizante e brutal: ‘WE… BLAME… HER… FOR… BEING… THERE’ (‘NÓS… A… CULPAMOS… POR… ESTAR… LÁ’).

Repetindo uma reação comum, Tobi Vail mais tarde notou que chorou durante essa música. A revista Option afirmou que o show do Fugazi foi ‘o ápice do festival. Quando [a banda] tocou Provisional, o auditório sentiu que estava levitando para fora da plateia, em direção a umlugar muito, muito melhor’”.

[Kathleen] Hanna e Tobi Vail, pra quem não sabe, são ex-integrantes do Bikini Kill, a maior expressão musical do movimento riot grrl.

De fato, como explicitou um amigo nas redes sociais, essa canção encerra de fato as virtudes de um grupo que faz muita,muita falta no rock.

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