Tubthumper

Mixtape Chumbawamba Para Crianças

“Pois nada senão o desespero pode salvar-nos.” – Grabbe, poeta, citado por Adorno em entrevista de 1967

“Pessimismo pela razão, otimismo pela vontade.” – Gramsci

“… toda criança é uma bomba-relógio!” – Eu, bêbado

Duas coisas ficarão evidentes com essa mixtape:

1. Provavelmente não tenho o menor tato para “músicas-que-crianças-vão-gostar”;

2. Que sou MUITO fã do Chumbawamba!

O ponto inicial foi uma conversa com meu bom amigo veio de guerra Lauro Mesquita, que contou-me todo felizão que o filho dele, José, com seu recém-completo 1 ano, já demonstrava especial predileção para um disco do Fugazi. Grande garoto!

Por outro lado, invariavelmente, todas minhas converas com amigos que tem filhos acabam girando sobre o quão louco o país anda e de quão desanimadoras são as perspectivas futuras pra esse mundão. Pra pessoas tão incríveis como o próprio Lauro e outros amig@s querid@s, deve dar uma apreensão lascada essa perspectiva após se engajar nessa missão tão louca/linda que é a paternidade/maternidade. Eu, que não devo passar o legado da minha existência – a pobreza! -adiante, já fico um tanto quanto desanimado com essa tarefa incerta/dolorida de pensar o futuro, e o que dizer então de quem elegeu esse caminho tão bonito de legar ao mundo um novo ser, uma nova narrativa que vai se assomar dentre outras tantas nesse palco de enredos tão combalidos?

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Eu ainda acredito em justiça social, em solidariedade, em paz entre nós e guerra aos senhores – essas ideias tão antiquadas e fora de compasso com o espírito do tempo. E, pra falar a verdade, não vejo porque não defendê-las. Mais do que isso: acho que são essas mesmas ideias que podem oferecer potência e vitalidade pra molecada que, no final das contas, é quem terá a chance de realmente transformar a realidade. E eu ainda não conheço nenhuma banda que consiga conjugar o tal pessimismo da razão temperado com (muito!) otimismo da vontade melhor que o Chumbawamba!

Ninguém melhor pra dizer que um carteiro, um estivador ou um zapatista também devem estar no topo do mundo assim como um astro do futebol. Que ninguém é escravo do outro e nem precisa seguir cegamente as diretrizes que lhe são impostas. Que a busca por popularidade, entregar todos seus desejos e esperanças em canais tão frágeis como redes sociais não é lá uma saída louvável para nossos problemas e ânsias particulares. Que homofobia, preconceito racial e fascismo devem ser combatidos com firmeza. Que, após entendermos a farsa e a tragédia que a história nos apresenta, fica fácil entender que a “same old story, same old shit” que é a roda-viva dos produtos culturais que nos empurram se estende/reflete os próprios mecanismos sociais e políticos. E, a partir daí, todos podemos ser bombas-relógios!!

Pra te lembrar que os rebeldes que ousaram se sublevar contra o terror (bella ciao!) e os que falharam na busca incessante por garantir a liberdade de toda a humanidade das garras do capital merecem um lugar especial em nossos peitos, devem ser fonte de aprendizado e inspiração. Viva Espanha!

Que as esperanças em nossos supostos guias (Tony Blair) podem dar em resultados tão desastrosos quanto os oferecidos por nossos inimigos (Margaret Tatcher). Mas, talvez o mais importante para além de tudo isso, é que temos que celebrar nossas pequenas vitórias, e poder inclusive esquecer nossas derrotas e fracassos, celebrando a vida, relembrando os bons tempos, entre um brinde e outro, porque a gente cai, se levanta, e, se nos derrubarem, a gente vai se levantar também.

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Celebrar, pensar, lutar e viver a vida. Porque ninguém é escravo de ninguém. É isso que o Chumbawamba oferece, seja embalado por dance music, pop chiclete, punk rock ou música folk. Relembrando herois populares derrotados no século 13 ou retratando trabalhadores celebrando em um bar próximo de nós. E com humor, com peito aberto – inclusive às contradições – pensando o aqui e agora e dando um passo adiante.

E, afinal: que criança não precisa saber um pouco disso tudo, entre uma dança na sala, um festival de saltos ornamentais na cama dos pais?😉

Por fim, essa mixtape é minha homenagem aos meus amigos que, tenho certeza absoluta, seerão ótimos pais, ensinando o caminho para os bons combates do futuro, e para todos aqueles ideias que enumerei lá no início do texto. E que a vida seja, se possível, mais gentil com o Zezé, com a Flora, com a Elena e com a Tiê – as crianças lá na foto.

Chumbawamba. 35 sons. Pros filhinh@s e pros papais e pras mamães.

Noiz!