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Entrevista: Mark Andersen (livro “Dance Of Days”)

(Mark Andersen, em retrato para a Huck Magazine)

Imaginem uma cena musical que, pra se destacar em relação a outras, injeta mais violência nos shows. Uma cidade de onde surgiu uma banda que reinventou um estilo musical, ao mesmo tempo que professava um mantra tirado de um livro de auto-ajuda e abraçava uma religião pra lá de controvertida, o rastafarianismo. Um lugar que deu as diretrizes de um estilo de vida atacado como conservador (entre outras ofensas) que se espalhou como febre pelo mundo. Imagine ainda que, em dado momento, algumas gangues violentas começaram a proliferar e, a mais violenta de todas, um grupo de skinheads preconceituosos era liderado por uma garota… negra! E, como cereja do bolo para seus detratores, boa parte de seus shows e eventos foram realizados em espaços cedidos por igrejas! Tem cheiro, tem cor e tem a maior pinta de um conto pós-moderno com tudo pra dar errado, não? Pois erra rude quem pensa assim!

Resumi, em linhas caricaturescas, a cena punk/hardcore (ou harDCore, como grafavam seus idealizadores), de Washington D.C, capital dos Estados Unidos, retratada em uma obra sem paralelos lançada recentemente no Brasil, “Dance Of Days: duas décadas de punk na capital dos EUA” (leia um trecho aqui), de Mark Jenkins e Mark Andersen. O último, o ativista e testemunha ocular dos fatos, sintetiza o porquê do sucesso desta cena, apesar dos contornos dramáticos: “A chave é sempre aprender com o que acontece, em especial, com os erros”. A obra, lançada pela incansável editora Edições Ideal, resolveu levar a sério a intersecção entre música e literatura. O lema “seja punk, mas não seja burro” dos Replicantes faz todo o sentido para esta publicação em especial.

 

DANCEOFDAYS

 

Os responsáveis pela editora, são figuras calejadas da cena punk/underground brasileira: Felipe Gasnier foi quem começou com a Ideal Shop, uma loja on line que deu origem a editora e é artista, músico e já foi dono de gravadora também. Marcelo Viegas, amigo “de carta” faz mais de 2 décadas, é jornalista, já fez zine, teve banda, editou revista de skate e ainda manda bem em cima do carrinho. A primeira vista, soa como maluquice lançar um livro sobre uma cena tão específica, mas a aventura da editora por estas searas começou com o livro de entrevistas do fanzine Punk Planet, Não Devemos Nada A Você (nunca os perdoarei por excluírem a entrevista do Chumbawamba da edição brasileira!). E, segundo Felipe, foi uma aposta valorosa: “A repercussão foi ótima! Este livro, foi o segundo da nossa editora, estávamos começando a focar em livros como alternativa para a crise da indústria fonográfica. Além disso, era também a realização de um sonho: publicar livros que gostamos para os leitores brasileiros. O Não Devemos Nada a Você foi feito para um público segmentado, com uma distribuição para lojas especializadas no assunto. De certa forma, atingimos as pessoas certas, as pessoas que como nós gostam desse universo e deram valor ao trabalho que é fazer um livro”.

Na esteira dessa primeira aposta, tiveram tempo para lançar o DVD do documentário American Hardcore e parecem continuar apostando em publicações que tratem no ethos faça você mesmo do punk, ainda que o mesmo ande tão desgastado e deturpado na atualidade. Marcelo tem uma boa explicação para aumentar as apostas: “Ainda que seja sobre uma cena específica e geograficamente distante, o fato é que o exemplo é universal. Certos aspectos do que aconteceu em DC podem ser encontrados – em maior ou menor grau – nas cenas punk/hardcore do mundo todo, porque são coisas em comum, são práticas em comum, são desafios, experiências, questionamentos e até mesmo equívocos em comum. Além disso, e talvez principalmente, as histórias retratadas no livro dizem respeito a bandas cultuadas no mundo inteiro, inclusive aqui no Brasil. Bad Brains, Minor Threat, Rites Of Spring, Fugazi, Bikini Kill. As histórias dessas bandas, e das pessoas por trás dessas bandas, interessam aos fãs. E pela primeira vez eles [os fãs] terão a oportunidade de ler sobre esse cenário em português”.

E, assim, com o livro em mãos, lá fui eu entrevistar o autor Mark Andersen, um personagem da contracultura/política que sempre respeitei. Andersen é codiretor da We Are Family, uma rede de apoio para idosos que atua em Washington DC e foi cofundador do coletivo punk ativista Positive Force DC, em 1985. Obviamente o fato dele ser um punk rocker e ativista adulto me interessa por questões de parentesco com minha própria trajetória, mas, além disso, ele também é autor do livro All The Power: Revolution Without Illusion, um dos meus livros de cabeceira quando o assunto é ativismo aqui e agora.

A primeira parte do livro, que conta desde a cena proto-punk da cidade até a ascensão e fuga do Bad Brains, foi escrito pelo jornalista Mark Jenkins. Andersen, outra semelhança com minha trajetória particular, sai do interior em direção a Washington no início da vida adulta, e encontra uma realidade um tanto quanto diferente da idílica paisagem desenhada pela forte e atuante rede de fanzines do período (e seu papel é bem tratado no livro!), que enchiam os olhos do jovem estudante. Mas não demorou muito pra travar contato com seus heróis, os chamados “Georgetown punks”. Ele explica a razão do nome: “Georgetown foi uma área comercial bastante sofisticado, onde os punks de DC se juntavam porque muitos trabalharam em lojas de varejo por lá ou iam em lojas de discos e roupas que existiam ali… Também havia uma presença grande de gente em idade universitária devido a Georgetown University nas proximidades. Agora, não era uma área tão orientada ao mercado de luxo como está agora, mas principalmente uma bem movimentada área de varejo e bar onde as pessoas iam”.

Se eu tivesse de destacar apenas uma qualidade do que é relatado no livro, seria o infatigável espírito de otimismo e criação que aglutinou essa incrível breve passagem de um grupo de pessoas pela Terra, tão bem descrito pelos autores na obra. A tal da “Atitude Mental Positiva” propagada pelo Bad Brains foi o leitmotiv de uma pequena irupção cultural revolucionária. De Bad Brains ao Bikini Kill, do Minor Threat ao Nation Of Ulysses ou Fugazi (a eterna “next big thing” das grandes gravadoras que recusou a fazer o jogo das corporações da música e se tornou “a maior banda independente dos anos 1990″), tudo é descrito de forma muito viva e apaixonada na obra – é impossível sair da leitura sem ser contagiado pelo espírito das obras e ações criadas pelos punks de DC – ao menos se você honra o sangue em suas veias. Pela entrevista que segue, dividida em duas partes, fica evidente que Mark Andersen é a prova viva do poder das ideias propagadas a partir da virada dos 1980, que possibilitou inclusive um norte político para a Positive Force, organização ativista que é indissociável do harDCore de Washington.

Como bônus, organizei uma extensa mixtape com 117 sons que contam um pouco dessa história, dividida em 9 partes, pra vocês ouvirem no decorrer da leitura.

E que o punk continue sendo uma ameaça e que fique claro, como dizia o Fugazi: “não importa o que estão vendendo, mas sim o que você está comprando”.

(leia a segunda parte aqui)

O seu espanto ao chegar em Washington em 1984 deve ser semelhante ao do leitor brasileiro a descobrir que DC teve tantas ideias estúpidas e preconceituosas já que a cidade ficou famosa mundialmente por ideias e sons revolucionários de grupos como Bad Brains, Minor Threat, Rites of Spring, Fugazi etc. Como era possível conciliar tantos sentimentos diferentes e ainda prevalecer as ideias mais progressistas? Nós sabemos que nem sempre é assim…

Mark Andersen: Uma das minhas maiores lições de vida é que não existe comunidade perfeita em nenhum lugar, não há lugar sem problemas. Pessoas são falhas, e, portanto, nossas comunidades serão também, incluindo a comunidade punk. O verdadeiro desafio é buscar o que for de valor onde quer que esteja, estar aberto às possibilidades e crescimento. Ajuda quando há uma massa crítica de pessoas que compartilham essa orientação, e certamente foi/é assim na cena punk de Washington. Mas se seria assim ou não seria não foi claro inicialmente. Primeiro, você tem que lutar por aquilo em que você acredita e estar preparado para trabalhar duro, lutar, levar insultos, mesmo falhar algumas vezes, mas não desistir… Daí e só assim você descobre o que é possível. Essa idéia é PMA – atitude mental positiva [N.E: este slogan, como relata o livro, foi retirado pelo vocalista dos Bad Brains, HR, de uma obra de auto-ajuda] – e é a essência do punk de DC, assim como eu o entendo.

O livro não é sobre heróis e vilões, obviamente. Mas há uma pessoa que se aproxima da definição de “vilão” e eu fiquei muito curioso sobre algo: você sabe o que aconteceu com a Lefty (a garota negra que liderava a gangue de skinheads violentos do primeiro parágrafo) e o que ela faz hoje?

MA: A última vez que vi Lefty foi mais de 15 anos atrás. Ela era um motorista para o serviço de entrega UPS, e um membro do [sindicato] Teamsters Union. Ela realmente me agradeceu por meu trabalho ao apoiar a greve dos motoristas da UPS! Isso não significa que ela ainda pode não ter problemas, ou até mesmo ser uma pessoa um tanto perigosa, mas é significativo. Nós nunca podemos desistir de outras pessoas; nós não sabemos realmente o que está em seus corações, e que é possível. Claro, não podemos ser ingênuos ou… Tem que encontrar um equilíbrio.

 

a história [do livro] é muito humana, e onde quer que vá os seres humanos irão falhar muito, mas também estarão cheios de possibilidades – Mark Andersen.

 

Quais são os fatores-chave para uma coesão estética tão grande a partir do surgimento da Dischord Records?

M.A: Inicialmente, o que nós pensamos como o “multidão Dischord” era muito pequena. A cena harDCore toda começou com menos de uma dúzia de pessoas que eram amigos. Enquanto isso não podia durar, o pequeno tamanho ajudou a torná-lo muito coesa no início e durante algum tempo. Além disso, a visão de Ian MacKaye [N.E: se você é de outra galáxia, fundador do Teen Idles, Minor Threat, Fugazi e The Evens, além de co-proprietário da Dischord Records] era poderosa, e atraiu muitos co-conspiradores desde o início.

As três fases (de harDCore, Revolution Summer e pós-hardcore) tem traços de movimentos muito coesos e não pude me lembrar de outra cena punk/hardcore no planeta que conseguiu tal coesão estilística e de ideias. Você acha que a cidade não ter uma forte tradição roqueira contribuiu para isso?


M.A: DC certamente não era conhecida como uma “cidade do rock” então os punks adolescente que iniciaram o harDCore não estavam realmente na sombra de algo imenso e sufocante. Eles fizeram benefício da geração anterior de punks de DC, no entanto, aqueles que criaram um certo fundamento, não tem um lugar muito certo no impacto final do que foi feito. Eu acho que houve um acaso especial das pessoas certas, no lugar certo, na hora certa. Eu sei que eu estou olhando espantado para trás, que eu acabei no meio disso, capaz de participar de algo tão poderoso, desafiador e inspirador. Eu trabalhei duro, com certeza – um monte de punks de DC também – mas nós também fomos abençoados com algum tipo de sorte ou magia, se você preferir.

M.A: Uma das qualidades do livro é transportar o leitor para o interior de cada período da cena de Washington. No entanto, as brigas, fofocas e disputas entre as bandas são muito semelhante ao que acontece em outros lugares (eu mesmo testemunhei coisas muito semelhante no Brasil, por exemplo), você parece extrair aprendizado de tudo que viveu.

Obrigado pelas palavras gentis… Fico feliz que mexeu contigo, que pareça real. Eu acho que a história é muito humana, e onde quer que vá os seres humanos irão falhar muito, mas também estarão cheios de possibilidades. Não me surpreende que você veja ecos disso tudo no Brasil… A chave é sempre aprender com o que acontece, em especial, com os erros.

Não soa estranho que ideias políticas e éticas tão grandiosas tenham surgido dali?

Mais uma vez, essa é a mistura que define a humanidade: falhas terríveis, mas visões grandiosas e, às vezes, feitos grandiosos. É tudo parte do pacote.

(leia a segunda parte aqui)

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