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Entrevista: Mark Andersen (livro “Dance Of Days”) – Parte II

(ao fundo, frase de Paulo Freire: “Lavar as mãos no conflito entre poderosos e despossuídos não significa ser neutro, mas colocar-se ao lado de poderosos”)

Mark Andersen anda bem ocupado – e não é só com as entrevistas em razão da edição brasileira de sua obra: a cena de Washington é uma fonte sem fim de curiosidade, como mostrou recentemente reportagem do Washington Post. Seja pela excelência de bandas como Bad Brains, Bikini Kill ou Fugazi (para ficar em alguns exemplos), ou por suas “celebridades” (com todas as aspas possíveis) Henry Rollins, Kathleen Hanna (uma das criadoras do movimento riot grrrl), Ian Svenonius (crítico cultural astuto e performer único) ou, sobretudo, por Ian Mackaye, um porta-voz bastante informado e contundente da contracultura no século 21. Mark Andersen, em especial, participou do  grupo ativista oriundo do punk, Positive Force, e da  Revolution Summer, uma saída coletiva estético-político-cultural de parte dos punks de Washington no meio dos 1980 para evitar que se tornassem um decalque insípido e não um forte e expressivo movimento de contestação, que continuam sendo assunto para estudos acadêmicos, livros, filmes e exposições.



Washington, em diversos níveis – e por razões bem particulares – foi uma espécie de meca contracultural no coração do império neoliberal anos 1990 adentro. O interesse pelo que se passou por lá deu origem recentemente ao aclamado documentário “Salad Days”, nome de canção do Minor Threat, que foi exibido em São Paulo faz pouco tempo e o documentário sobre a Positive Force.

Eu poderia dizer ainda que foi por conta do que se passou por lá que o emocore, o straight edge, o riot grrl, o Nirvana e todo o grunge existiram. Mas as boas reportagens do site Noisey, Correio Braziliense, da Gazeta do Povo, e do Estado de S. Paulo já dão conta deste recado.

Pra quem é leigo total, Rage Against The Machine, Ratos de Porão, Red Hot Chili Peppers, Gogol Bordello, Face To Face, Arcade Fire, Nirvana, Slayer, Beastie Boys e até mesmo o Charlie Brown Jr., em algum momento, citaram ou tocaram covers de bandas como Minor Threat ou Fugazi, por exemplo. Mas se a relevância política/cultural do que rolou por lá não for suficiente pra te atrair ao livro, talvez o fato que ali você descobre que: 1. H.R do Bad Brains é o maior negro drama da história, e o mais problemático/pirado personagem da história do rock, de deixar esses rockstars que se matam aos 27 anos parecendo coroinhas de igreja e, 2. Ian Mackaye é o cara mais obstinado e obsessivo da história do punk, de fazer a ética protestante do trabalho parecer coisa a toa.

Nesta segunda parte, Mark Andersen comenta aspectos mais controversos da cena de Washington retratados no livro, além de comentar alguns vídeos emblemáticos. Por fim, recomendo MUITO a edição brasileira do livro; eu tinha a segunda edição estadunidense e digo, sem a menor cerimônia, que a edição brasileira não deixa em nada a desejar, ainda que não conte com um índice onomástico como a original, que facilita a leitura aleatória e/ou preguiçosa por parte do leitor. O livro é inspiração pura pra toda uma vida!


Leia a primeira parte aqui


Fugazi é o que há, uma inspiração do começo ao fim. Indiscutivelmente, a banda punk definitiva de todos os tempos, pelo menos se arte, ética e política radical importa para você – Mark Andersen.

Você tem tido resposta de leitores não tão próximos da contracultura?

Mark Andersen: Acho que o punk de DC agora tem muitos admiradores que não estavam interessados na música ou nos “adornos” envolvidos, mas quem cava a fundo na sua atitude, o acha inspirador. Eu assino embaixo disso aí… o punk é uma atitude que tem relevância para todas as pessoas em todos os lugares, acho eu.

Em geral, para você que viveu tão intensamente parte do que foi descrito no livro, qual é o magnetismo por trás de toda esta história que faz com que este livro seja publicado em um país como o Brasil?

MA: Acho que os brasileiros lutam com a mesma distância sobre o que é e o que deveria ser, tanto pessoalmente e politicamente… Como tal, a história faz sentido para eles, e pode oferecer lição e inspiração, eu espero.

Você já viu a edição brasileira? O que achou?


MA: Eu vi um PDF do livro, e me pareceu ótimo… Estou animado para ver o pessoal colocar dar sua própria versão dos fatos, e estou tão feliz que ele mexa com as pessoas de tão longe, no pensamento e na ação.

 

A associação entre punk e religião não é algo habitual. Quais são as raízes da ligação entre o punk de Washington e instituições cristãs?


MA: Existem três níveis para responder a esta pergunta. O primeiro é prático: as igrejas que usávamos/usamos para eventos simplesmente estavam abertas e eram acessíveis. As igrejas do centro da cidade onde trabalhávamos com muito esforço estavam a serviço da comunidade, e não cobravam um aluguel abusivo. Felizmente, eles viram algo de valor no que fizemos/ fazemos, então nos deixaram entrar, apesar de todas as diferenças superficiais. Tivemos que provar que podíamos ser parceiros responsáveis, cuidar do espaço, e respeitar os vizinhos… Nós tivemos algum trabalho, e punks nem sempre agem assim. No geral, no entanto, nós provamos ser dignos de sua confiança.

Dito isto, houve outras ligações, por exemplo, nos valores… Tanto as igrejas e o punk de DC rejeitavam o “deus-dinheiro” e pensavam que as pessoas eram mais importantes do que o lucro. Este foi o fundamento comum que nós construímos acima de tudo.

Por fim, há um aspecto muito espiritual no punk de DC. Isso se refletiu em nomes de bandas como Faith, e expressado em termos religiosos explícitos de algumas pessoas: Bad Brains, Tomas do Beefeater e Fidelity Jones, e, ocasionalmente, eu, por exemplo. No entanto, raramente foram associados com religião organizada… Gente como Ian MacKaye – que foi batizado e criado na Igreja de St. Stephen, mas que mais tarde deixou de se considerar cristão – estavam abertos à colaboração, mas desconfiados de serem cooptados de qualquer forma por qualquer pessoa.

De certa forma, isso não importa, porque qualquer pessoa verdadeiramente religiosa poderia vir a dizer que “a fé sem obras é uma fé morta”, ou seja, que as ações falam mais alto que palavras. DC foi/é a respeito de viver a vida como falamos em nossas músicas… Isso é pessoal, político e espiritual, tudo de uma vez. Nós trabalhamos em conjunto e não nos preocupamos muito sobre as razões individuais porque cada um de nós fizesse o que fez.

Straight edge, Emocore, Revolution Summer, riot grrrl… Entre as várias novidades que a cena de Washington legou ao mundo, quais criaram raízes mais profundas na sociedade americana como um todo?


MA: É difícil para mim dizer qual deles teve o maior impacto… Certamente o mais controverso tem sido o sxe, o que lhe dá uma sensação de como as drogas são importantes na sociedade. Isso é parte do problema em que o consumo de drogas – álcool, cigarros, maconha etc. – parece bastante obrigatório, especialmente nos círculos de cultura jovem. Isso é parte do que faz das drogas tão perniciosas, elas são forçadas pra cima de você, só para te fazer parecer parte de uma comunidade. Graças a Deus, sxe ajudou a criar um espaço fora dos círculos cristãos conservadores onde as pessoas não precisavam de drogas, para poderem ser eles mesmos ou para se divertirem! Seu impacto foi considerável e, em grande parte, positivo. Todas as ideias/movimentos que você lista acima partilham um traço comum: a criação de espaços para as pessoas se encontrarem e de afirmação da vida, uma comunidade inclusiva onde você é desafiado e onde você desafia o mundo.

 

Por fim, gostaria que você comentasse os vídeos abaixo:


Tesco foi um dos primeiros adeptos do harDCore, e Lyle Preslar do Minor Threat esteve nessa banda por um longo tempo.
Eles eram bem populares, e sabiam proporcionar um bom entretenimento com seu jeitão exagerado e propositalmente ofensivo. No entanto, paródia de heavy metal é bastante limitada.


A banda, que iniciou toda a revolução harDCore. Quando Bad Brains estavam no auge, não havia melhor banda punk em qualquer palco em qualquer lugar a qualquer hora.


Este foi o primeiro show beneficente da Positive Force (PF) que organizei, e o Beefeater foi uma banda intensa e incrível ao vivo, um dos campeões do Revolution Summer. Esta foi a noite que eu ouvi pela primeira vez “Live The Life”, um dos grandes hinos do punk de DC, e um desafio em curso e inspiração para mim.


Isso ajuda a dar um sentido à variedade do punk de DC… Shudder To Think era uma banda totalmente original e esta é uma música incrível. No entanto, você também terá a noção dos estranhos lugares onde o punk de DC começava a chegar… As bailarinas muitas vezes ficam mais tempo na tela do que a banda aqui! Eita…



Pussy Galore gostava de chocar e ofender, então era natural eles fazerem uma canção como esta. Eles não recebiam tanta atenção em DC como eles esperavam, então logo se mudaram para Nova York. Eles se tornaram muito influentes com seu som garageiro totalmente cru, e uma vez tocaram em um show beneficente PF na Igreja de St. Stephen. Bela igreja tolerante, não?


Este foi um show em benefício para os imigrantes da América Central que haviam confiado seu dinheiro a um banco ilegal com as suas poupanças realizadas no Igreja Católica do Sagrado Coração. Quando o banco saiu do negócio, foi uma terrível tragédia, como essas pessoas geralmente trabalhavam em empregos muito duros para ganhar uma ninharia, e não podiam se dar ao luxo de perder todas suas economias.
PF e Fugazi queria estar com eles, e tentar ajudá-los, pelo menos, a repor um pouco do dinheiro roubado. Dá pra ter uma noção da desconexão que está começando a rolar entre Fugazi e parte do seu público, [Fugazi] parecia querer tocar sem os cansativos rituais macho moshing/stage dive com esta canção anti-machista com barulho [do público] de fundo. Triste … No entanto, esse vídeo me deixou feliz ao ver Fugazi novamente, não tinha visto este vídeo por um bom tempo. Talvez o vídeo por si só diga isso, mas vou falar: Fugazi é o que há, uma inspiração do começo ao fim. Indiscutivelmente, a banda punk definitiva de todos os tempos, pelo menos se arte, ética e política radical importa para você.


Uma banda incrível, em uma de suas performances mais incríveis… um dos melhores shows de punk que eu já vi. Infelizmente, o vídeo só capta um pouco da energia, mas ainda me dá uma energizada ao ver isso. Outro show beneficente PF, este em Casa del Pueblo, aka Igreja Metodista do Calvário.



A grande banda que atraiu o Bikini Kill para DC, tocando um de seus últimos shows na sua cidade natal… Nation Of Ulysses shows mostra como foram sempre caóticos e imprevisíveis, e suas ideias e música foram sempre fabulosamente criativa e catalisadora. Outro show da Positive Force no Washington Peace Center – onde PF foi alojado inicialmente – em uma casa de reunião Quaker.

Este é um documento um pouco triste que dá pouco senso de quão poderosa esta banda foi… Minutos de afinação e passagem de som, seguido de uma música de introdução maluco com trombeta … apenas os últimos três minutos são representativos da banda. Olhe ao redor para encontrar um vídeo melhor no YouTube, a banda vale a pena.

[N. do Ed: realmente, mandei a “sequência errada, mas acima vai a continuação onde dá uma dimensão do quão bacana era o Slant 6!]



Um forte cover de um dos grandes hinos do Minor Threat. Eu gosto do nome da banda, e entendo que eles são realmente uma importante banda de crossover hardcore/metal do Brasil. Aparentemente, o cantor também é um chef vegan [
N. Do Ed.: é? Que mudança…]!? Eu gostaria de saber mais sobre a cena punk no Brasil, e espero conseguir nas próximas semanas e meses.

Isso lhe dá uma espiadela no trabalho que é o centro da minha vida agora, tentando levar os valores do punk em uma comunidade mais ampla e construir pontes entre as diversas populações através das fronteiras de raça, classe, religião, orientação sexual, cultura e até idioma. Como eu disse anteriormente, punk continua a ser relevante em todos os tempos e lugares… cada um de nós precisa manter aplicando suas ideias revolucionárias em qualquer desafio que enfrentemos.

P.S: gostaria de agradecer Mateus Potumati e Alexandre Boide na ajuda com as traduções. Evidentemente, as barbeiragens estão na minha conta.

Leia a primeira parte aqui

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