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Escrevendo Um Livro – Parte III

(todas as imagens: Douanier Rosseau)

Nessas curtas férias escolares de meio de ano, tirei a última semana pra boa arte da vagabundagem pura e simples! Quero acreditar que “não fazer nada é uma atividade interior; não é preguiça, é reflexão”, como propunha o escritor egípcio Albert Cossery.

Obviamente, a culpa cristão veio antes do deleite que é passar alguns dias como se laborar não o fosse necessário, e, assim, botei pra circular três questões simples para várias listas de e-mails da qual participo, enquanto, supostamente, estaria ocupado em demasia com o ócio. Privilegiei as listas de amigos que vivem em grandes centros e as listas “de esquerda” que participo. As perguntas foram:

  1. O que você considera importante saber sobre agricultura e a realidade do campo no Brasil?
  1. O que você sabe sobre agroecologia?
  1. Qual o impacto da produção do campo na cidade?

 

O intuito era ver se o caminho que estou tomando para o livro encontrava ressonância entre meus possíveis leitores e também desarmar um pouco o meu espírito. Chegou um ponto no processo de escritura que havia me fechado em uma ou duas “verdades absolutas” e estava próximo de uma estafa mental. O que esses questionários me mostraram foi que, ainda que aparentemente estivesse trilhando um bom caminho, havia muitas coisas a se dizer e mais: fatos que dava como corrente ainda são muito desconhecidos ou mal-interpretados – como a participação da agricultura familiar em nossa alimentação. Além disso, foi um bom momento pra dialogar, poder já adiantar algumas informações na troca de mensagens etc etc.

 

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A única coisa que não me assustou foi a soberba e arrogância que a galera da cidade grande cultiva muitas vezes sem ter dimensão. E não importa se era uma lista de galera mais ou menos politizada; o espírito geral das mentalidades falsifica ou mistifica muito quando o assunto é o campo e seus habitantes, os campesinos.

 

E a ideologia do “ah, a moda dos orgânicos” que, ao fim e ao cabo é uma ideologia das classes dominantes, é o discurso hegemônico, criando uma cegueira absurda que só favorece o agronegócio. Vou tirar um tempo pra escrever um pequeno capítulo sobre isso e os interesses em jogo…

 

Ademais, foi muito importante deixar o texto dormir uma semaninha. Hoje, olhando rapidamente o arquivo de texto, foi como se estivesse lendo o texto pela primeira vez. Em algumas partes me encantei, mas em outras foi como se estivesse lendo o texto de um autor ruim… Abrir mão de fazer uma discussão mais teórica e acirradamente política em favor de uma obra mais pedestre de divulgação não conseguiu tirar certos cacoetes um tanto pedantes.

 

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Fiquei pensando em uma citação do autor egípcio lá do começo do texto, extraída de um texto do blog do Hermano Vianna: “Eu gostaria que depois de ter lido um de meus livros, as pessoas não fossem mais trabalhar no dia seguinte, que elas compreendessem que a ambição de viver é suficiente, que nenhuma outra ambição vale a pena.”

Talvez a única ambição a se cultivar seja a que diz respeito a arte de viver…

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Mais uma mixtape pra acompanhar a leitura e, mais abaixo, as primeiras partes desta série.

Silvio Caldas, lise, Kendrick Lamar, Julie Ruin, Erasmo Carlos, Caetano Veloso, Little Eva, Rakta, Baby Consuelo, Bonga Lando, Douglas Germano, Kono, Bonifrate, Kuba Kapsa Ensemble, José Afonso, Ava Rocha, Hurtmold, Silvio Ferraz, Gonjasufi, Jorge Mautner, Raul Seixas, Almirante e os Diabos do Céu.

Saiba Mais:
Escrevendo Um Livro – Parte I
Escrevendo Um Livro – Parte II