Subject: Melanie Griffith jumping in a swimming pool while pet lion Neil grabs her leg. Sherman Oaks, California May 1971
Photographer- Michael Rougier
Time Inc Owned
Merlin- 1200564

Escrevendo Um Livro – Parte II

“Perto do Rio de Janeiro, minha vizinha da frente era uma velha senhora que tinha umas tarraxas com que esmagava os dedos de suas escravas. Em uma casa onde estive antes, um jovem criado mulato era, todos os dias e a todo o momento, insultado, golpeado e perseguido com um furor capaz de desencorajar até o mais inferior dos animais. Vi como um garotinho de seis ou sete anos de idade foi golpeado na cabeça com um chicote (antes que eu pudesse intervir) porque me havia servido um copo de água um pouco turva… E essas são coisas feitas por homens que afirmam amar ao próximo como a si mesmos, que acreditam em Deus, e que rezam para que Sua vontade seja feita na terra! O sangue ferve em nossas veias e nosso coração bate mais forte, ao pensarmos que nós, ingleses, e nossos descendentes americanos, com seu jactancioso grito em favor da liberdade, foram e são culpados desse enorme crime.” – (Charles Darwin, A Viagem do Beagle)

Pois é, no campo a herança maldita de mais de 3 séculos de escravidão mostra sua pungência até os dias de hoje, com a mesma intensidade do relato de Darwin e ainda tendo a população afro-brasileira como maior vítima.

 

No transcurso da escrita do livro, me dei conta que não daria pra pontuar a radicalidade e urgência do tema da obra se não buscasse transcender a questão mais imediata da mundialização capitalista via empresas globais do agroquímico se não reconhecesse o peso escravocrata particular da sociedade brasileira. Não somos racistas é o caralho!! Foi um desses momentos onde a própria escrita deixou visível o vácuo que estava deixando no texto. Essa herança, infelizmente, não é algo que está restrito apenas às denúncias de trabalho escravo – que são muitas e deixam antever que o número é muito maior do que os oficiais, dada a dimensão do país e a parca fiscalização.

Em 2014, pelo 4o ano consecutivo, o Brasil está no topo do vergonhoso ranking da Global Witness: somos o país que mais mata líderes ambientais e rurais. A maior explicação para a violência no campo tá na marca maior de nosso processo colonizador: a ausência de titulação das terras para comunidades indígenas e camponesas, segundo Billy Kyte, um dos autores do referido estudo.

Não é sem propósito que essa questão ganha algum vulto no meu trabalho, colocando inclusive a necessidade de uma mirada agroecológica sobre o assunto.

Ainda que não tenha nada frontalmente contra aos colegas na agroecologia que sustentam suas posições baseados em pressupostos místicos e transcendentais, tenho contra sim aos que se ocupam de maneira leviana da espiritualidade para justificar posições egocêntricas e a falta de atividade em conjunto. Walter Benjamin dizia que “na religião capitalista não existe confessionário, nem redenção”, e, buscar algum tipo de salvação através de sua atitude individual em relação a produção agroecológica é tudo que os senhores do agronegócio necessitam para manter sua confortável condição, ao passo que ainda permite “brechas” que possam oferecer “opções sustentáveis” a certos segmentos supostamente politizados ou preocupados com a natureza. Como diriam os dadaístas, “tudo na mais perfeita ordem”. Mas há sim possibilidades individuais que servem a manutenção do equilíbrio ecológico a curto prazo e são fundamentais para quebrar a poderosa “monocultura da mente” que estabeleceu-se em nosso mundo.

Segundo Vandana Shiva, ao Mother Earth News, “Guardar sementes e cultivar um jardim de alimentos são as coisas mais concretas que nós podemos fazer, como indivíduos, para restaurar a soberania alimentar e construir uma sociedade sustentável.” Não tenho como discordar de tal posição, inclusive porque a falta de sementes crioulas no Brasil é um limitante prático para a expansão da produção agroecológica. Se, por um passe de mágica, todas as terras submetidas aos agroquímicos se convertessem a uma produção natural, não teríamos, nem remotamente, a possibilidade de viabilizar a produção por falta de sementes. Essa constatação prática é a prova radical do estágio tenebroso de submissão no campo ao grande capital.

Obviamente, esta discussão estará no livro, juntamente com algumas operações práticas.

Abaixo. Dois trechinhos da introdução do livro, pra ir dando um gostinho pra vocês, assim como mais uma mixtape com a trilha-sonora da minha epopeia particular:

“O capitalismo mundializado encontra um termo genocida no marco do agronegócio e de toda sua cadeia de consumo e produção. O paradigma da agricultura industrial sustentado numa lógica onde se entenderia como um ciclo total cujo lema seria “de dentro da cerca; para fora da cerca” deveria encontrar termo numa máxima mais realista do ponto de vista das pessoas e não do lucro: “rumo ao hospital, mirando o cemitério”. O ethos suicida do capital parece não se importar de criar mecanismos que nos impõe um holocausto ambiental não tão distante, e com sintomas evidentes gritantes assim como, literalmente, mata ou tira a vontade do grosso da população mundial. Câncer, depressão, doenças da mente… As armas não tão secretas das corporações globais respondem pelos nomes de transgênicos e agrotóxicos. (…)”

***

“As corporações dos agroquímicos são a frente avançada numa luta que, usando uma ideia de Noam Chomsky, opõem de forma inequívoca a opção entre o lucro e as pessoas. Uma economia que é baseada, ao fim e ao cabo, na morte ou na degeneração atroz da saúde de animais e seres humanos (pra não dizer, obviamente, de solos e plantas) há de ser apontada como parte de uma política maior – e isso está longe de ser uma teoria conspiratória -, evidenciada sem ruídos comunicativos maiores por uma potência mundial como os Estados Unidos da América ou na política econômica de uma potência periférica como o Brasil. A saber: ambos são os maiores consumidores de agrotóxico no planeta. Não há programas de saúde que possam lidar com os contingentes cada vez maiores de seres debilitados pela ganância destas indústrias químicas. Evitar tratar esse quadro como uma política de extermínio é fazer coro à propaganda oficial estimulada pela indústria de consciência que, de um lado, usa o falso argumento da falta de abastecimento de alimentos, por outro, usa a meia-verdade do agronegócio como principal motor econômico, e por fim, baixa-se a cabeça para a cantilena mais torpe de que a agricultura viabilizada pelos defensivos agrícolas (o nome escolhido pelo Capital para dourar a pílula de arsênio que são os agrotóxicos) são a única forma viável de produção. E, mais ainda: a única forma possível de se fazer dinheiro no campo. O veneno, de fato, não está somente em nossas mesas. (…)”

 

 

José Afonso, Baobá Stereo Club, Virginia Rosa, David Bowie, T. Rex, Rage Against The Machine, Lupe de Lupe,  The Dismemberment Plan, Arto Lindsay, Aesop Rock, Peverelist, The Prodigy, The Clash, Seein’ Red, The Cure, Erasmo Carlos, Irene Portela, Caetano Veloso, Jorge Mautner, Bob Dylan, Charlie Patton, Kampec Dolores, Carlos Drummond de Andrade, Against Me!, Kris Kristofferson, Tammy Wynette, Cap’n Jazz, Seein’ Red, Noura Mint Seimali e Orchestre Poly Rhytmo de Cotonou.

Saiba Mais:
Escrevendo Um Livro – Parte I

Um pensamento sobre “Escrevendo Um Livro – Parte II

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