Le-Guin-portrait-by-Benjamin-Reed-2009

Uma hipermulher: Ursula K. Le Guin

(retrato por Benjamin Reed,2009)

 

Tem certas coisas que não dá pra entender muito bem – uma delas é termos tão pouco da obra da Ursula K. Le Guin publicado no Brasil! Após acabar a releitura (e admito: foi como se estivesse lido pela primeira vez, dada a desatenção da primeira leitura) de um de seus maiores clássicos, “A Mão Esquerda da Escuridão”, e, apesar de ser uma das novelas de ficção científica mais premiadas da história (foi lançado no Brasil e pouco foi dito), fico com a impressão que Le Guin deve ser uma das gigantes vivas da literatura mundial. Não foi de se espantar que um espírito mais aberto e desbravador como o do Hermano Vianna houvesse escrito este belo texto sobre o referido livro.

Se aqui pouco se fala sobre a obra de Le Guin, o mesmo não pode ser dito em relação ao mundo anglo-saxão. Lá, onde já havia ganho diversas vezes os grandes prêmios na área da ficção científica (Nebula e Hugo, e vale a pena consultar seu site oficial), em 2014, foi a vez de receber a maior premiação estadunidense para a literatura, o National Book Awards. E das mãos de Neil Gaiman!

 

O discurso dela na premiação merece ser conhecido na íntegramas, abaixo, destaco dois trechos preciosos:

Acredito que tempos difíceis estão por vir, quando desejaremos ouvir a voz de escritores que consigam ver alternativas ao que vivemos hoje e possam enxergar além desta nossa sociedade, tomada pelo medo e por sua tecnologia obsessiva, outras maneiras de existir, e que possam até imaginar possibilidades reais de esperança. Precisaremos de escritores que possam se lembrar da liberdade. Poetas, visionários – os realistas de uma realidade mais ampla.

(…)

Livros, vocês sabem, não são apenas mercadorias. A motivação pelo lucro está frequentemente em conflito com os objetivos da arte. Vivemos no capitalismo. O seu poder parece ser inevitável. Assim era o poder divino dos reis. Os seres humanos podem resistir a qualquer poder humano e mudá-lo. A resistência e a mudança muitas vezes começam na arte, e muitas vezes mais na nossa arte – a arte das palavras.

 

ursula

 

A premissa do “A Mão Esquerda da Escuridão”, baseada em recriação mitológica e antropológica é fascinante: “A psique feminina e masculina em análise por Genly, um homem heterossexual, que se vê lidando com seres que lhe parecem dúbios e complexos”, seguindo a mesma linha da breve resenha neste site. Mas, afinal: quem é Genly? Veja a sinopse no site da editora Aleph, responsável pela bela edição nacional, porém cheia de falhas de revisão:

Genly Ai foi enviado a Gethen com a missão de convencer seus governantes a se unirem a uma grande comunidade universal. Ao chegar no planeta Inverno, como é conhecido por aqueles que já vivenciaram seu clima gelado, o experiente emissário sente-se completamente despreparado para a situação que lhe aguardava. Os habitantes de Gethen fazem parte de uma cultura rica e quase medieval, estranhamente bela e mortalmente intrigante. Nessa sociedade complexa, homens e mulheres são um só e nenhum ao mesmo tempo. Os indivíduos não possuem sexo definido e, como resultado, não há qualquer forma de discriminação de gênero, sendo essas as bases da vida do planeta. Mas Genly é humano demais. A menos que consiga superar os preconceitos nele enraizados a respeito dos significados de feminino e masculino, ele corre o risco de destruir tanto sua missão quanto a si mesmo.

 

Aqui, uma lista de livros usados da autora. Abaixo, pros amigos fluentes em inglês, o áudiobook da sua obra-prima, “Os Despossuídos” e uma rádio novela de “A Mão Esquerda da Escuridão”.