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pensata #9 – Wolinski, Glauco e a “matilha”

Na minha última estada no Rio, ganhei alguns presentes que ainda vão render assunto. O primeiro deles, foi o “Geraldão – Espocando a Cilibrina”, do Glauco, contendo todas as edições da referida publicação na Circo Editorial. Glauco foi um dos grandes nomes do cartum e da HQ brasileira, herdeiro despirocado de Henfil, de quem herdou um traço rápido e eficiente, assinatura e herança pra várias gerações. Se Henfil conferia a seus personagens comentários que atacavam as estruturas da nossa sociedade, Glauco centrava todo o humor nos costumes e sensibilidades de sua geração. Doy Jorge, Casal Neuras e o Geraldão são prova cabal disso e estão todos belamente representados nessa edição. Na mesma edição, o próprio Henfil se torna personagem, homenageado em uma HQ póstuma que deveria ser assunto de estudo escolar (isto é, se escolas fossem espaços legais), assinada por Glauco em parceria com Laerte – ambos descendentes diletos do talento único de Henfil.

Tem artistas que você acompanha e são como se fossem da sua matilha mesmo que de fato não o sejam. É aquela identificação mais sanguínea, a que chega na forma mesmo na maneira de tratar assuntos e chega ao componente estético propriamente dito – Glauco, assim como Jorge Mautner, Rogério Sganzerla, por exemplo, e tantos outros, funcionam assim comigo. É pá pum.

glauco

Glauco, e é capaz que muitos tenham esquecido, foi vítima de um maluco, que assassinou ele e seu filho, Raoni. Outro gênio da “minha matilha” foi vítima recente, dentre outros, de um bando de malucos – de resto, se são religiosos ou não, não irei arriscar – e um gênio absoluto das HQs, influência direta de 9 entre 10 cartunistas/quadrinistas de humor no Brasil: Wolinski.

Wolinski tinha certa predileção pela temática sexual – assim como Glauco – e dentre as diversas facetas de seu traço, mutante por excelência, esmerou em um traço rápido muito próprio, assim como o próprio Glauco. Muito do que fez na sua série Hit Parade (compilada numa edição nacional da década de 1980 com o nome “Esse Mundo É Um Bordel”) trabalha dessa forma, um traço menos exato que o de Glauco, mais livre, quase uma rasura, totalmente seu. Mas Wolinski ia de comentários políticos muito precisos e preciosos (um ataque fulminante contra a caretice e os conservadores, via de regra) que, se caracterizaram boa parte da geração francesa reunida em torno da revista Hara Kiri, encontrava nele uma beleza única, ao juntar isso com um humor ligeiro e sacana que igualmente provocava seus pares “progressistas, liberais”, da mesma forma que Crumb o fazia nos EUA.

(Abaixo: um exemplo de comentário político de Wolinski na série Hit Parade:)

Wolinski

É, meu scanner é uma merda!

 

Pazienza, Wolinski, Glauco… Crumb: toda uma matilha. Um, suicidado pela sociedade; outros, assassinados pela mesma e um sobrevivente, por fim.

 

crumb

Crumb em Solidariedade ao ataque a Charlie Hebdo.

 

Não foi, como quer uma revista covarde como a Veja, e toda uma claque de jornalistas peidorreiros, medrosos, lambe-botas de chefe, um ataque à “liberdade de imprensa”. Digo: o foi também, mas a “matilha” desse povo é outra, muito distinta. Acho que foi o quadrinista Rafael Campos Rocha que caracterizou o Wolinski como “libertário”. Não saberia usar um termo no momento melhor. O fato é que o mundo não é um lugar seguro para esses tipos. Nunca o foi. Mas a tão festejada “democracia liberal ocidental” não potencializou em nada o espaço e o respeito a quem não tem nenhum respeito por nada. Ingenuidade a minha? Óbvio. Mas o lembrete é só um, o de Martin Niemöller em 1933, um combatente contra o nazismo:

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram
meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram
e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar…

Ás vezes, não é necessário grandes elocubrações para se enxergar longe. São as virtudes mais caras ao que chamamos humanidade que morrem quando pessoas como Wolinski – seja você ateu, católico, islâmico, comunista, o diabo a quatro – se vão. E quando essas virtudes se tornarem exceção e não regra, seremos apenas feras bestiais – o que também somos, de fato.

A matilha fica cada dia menor…

P.S: nessa caprichada antologia do Glauco que trato no início – que eu recomendo MUITO – tem uma matéria sobre um Salão de Humor do Piauí que reuniu uma quantidade enorme de feras nativas. Parece que o Glauco ficou chapa do Fausto Wolff (outro da matilha que já se foi) por lá – eram o Tarcão e o Tarquinho, segundo a matéria – e fizeram uma letra alternativa pra música “Cajuína” do Caetano Veloso que geral merece conhecer. A versão da letra taí e na sequência a música original. Divirtam-se!

“Ainda arrebento esta narina

Pois quando tu me deste
A tal cocaína
Cheirava a grossa
E depois me dava a fina
E me mandava ver
Se eu tava lá na esquina
Eu ficava paradão
Na purpurina
Tava por baixo,
Mas também por cima
E era um tal
De tanto talco na narina
Que eu acabei
Aterrissando em Teresina”.


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Ver também:

pensata #4: amizade
pensata #7: do ódio
pensata #8: liberdade no capitalismo