AlessandraLeao

Alessandra Leão – Bala Que Rasga o Luar

(Entrevista publicada na +Soma 17/Mai-Jun 2010 – que pode ser folheada aqui)

 

O aniversário é meu, mas quem ganha é vocês! Resgatei uma entrevista com mais de 4 anos de vida, de uma artista que continua a me encantar: Alessandra Leão. Esses dias ela puxou uma janelinha no facebook e pediu meu email. Minutos depois, na minha caixa de entrada: “Lançamento – Punhal de Prata (Alessandra Leão + Rafa Barreto = Alceu 70s)”, um projeto novo da cantora em parceria com Rafa Barreto, revisitando a obra setentista de Alceu Valença – dois vídeos do projeto estão ao fim do post. Enfim, ela continua muito ativa, fazendo festa (La Tabaquera), música incrível, projetos etc. O alvo da matéria, o perfeito/perfeccionista álbum Dois Cordões de 2009, é recomendadíssimo. Segue a letra:

 

 

“Hoje, depois de sete anos de luta inglória, descobrimos que sempre nos faltou um requisito essencial: a honestidade. O que continua não querendo dizer nada. Se a gente se descobriu caipira um dia, não quer dizer que a gente vá ser o caipira que as pessoas se acostumaram a ver em festa de São João; aquilo é caipira de televisão paulista. Se a gente se descobriu rock, não quer dizer que a gente use lambreta, casaco de couro e cante ‘Long Tall Sally’ o dia inteiro.” – Zé Rodrix, no início dos anos 1970, do livro de entrevistas d’O Bondinho.

 

O relato de Rodrix, justificando o término do cultuado Som Imaginário e o início do até então incerto trio Sá, Rodrix e Guarabyra, desafia preconceitos ainda hoje disseminados e cultivados no eixo Rio–SP. Por isso, serve para falar do trabalho da pernambucana Alessandra Leão, responsável por um dos discos mais incríveis de 2009, Dois Cordões. Se a preguiça vigente não criasse rótulos bobos como “música de pesquisa” (“Quando produzo um disco, escuto várias coisas diferentes – talvez seja o mais próximo que eu chegue de pesquisa”, brinca a cantora), Dois Cordões poderia entrar pela porta da frente no rol dos melhores discos pop/popular do planeta. Porém, se o que se espera do pop contemporâneo calcado em música africana é o que fazem artistas como Vampire Weekend e Dirty Projectors, os arranjos e a dicção de Alessandra Leão ganham vulto ao dialogar de forma mais sutil (para o ouvinte daqui, já que nossa música é um tanto africana também) e rotunda, resultando naquilo que a música brasileira faz de melhor: miscigenação para evolução das tradições.

 

Além dos obstáculos ocasionados por essa visão distorcida, há também a predominância de um tipo de relação personalista demais em relação à música, que costuma enxergar arte apenas no intérprete – característica reforçada amplamente pela indústria do entretenimento, sempre disposta a fabricar novas “divas”. Porém, no caso de Alessandra Leão (cantora, compositora e percussionista, que, assim como as igualmente interessantes Karina Buhr e Isaar França, passou pelo grupo Comadre Fulozinha), a combustão se dá justamente quando suas ideias são retrabalhadas pelo esposo, o compositor, arranjador, produtor musical e violeiro Rodrigo Caçapa, responsável pelos curiosos arranjos do álbum – três camadas de cordas tensionadas ao máximo. “Caçapa tem um jeito muito dele de tocar, compor”, define Alessandra.

 

A entrevista com a artista é permeada por notações musicais, e em pouco tempo voa através de universos sonoros distintos, mas interligados – nomes como Fela Kuti, Rodrigo Campos, Beck, Kiko Dinucci, Chico Science, Ali Farka Touré, Caetano, Gil, Chico e até Pet Shop Boys. “O primeiro disco que comprei foi deles” (risos).

 

 

Um tipo muito peculiar de tocar guitarra, ao modo do oeste africano, tem dado a tônica da música pop mais engajada em transformações.
No disco anterior, eu até participei um pouco, mas quando começamos a produzir o Dois Cordões, dei carta branca pra ele (Caçapa). Ninguém melhor pra isso do que ele, que me conhece muito bem. Na época da produção do disco escuto várias coisas diferentes – talvez seja o momento mais próximo que eu chegue de pesquisa (risos). E a gente sempre tem uns discos de referência no período.

 

Quais foram essas referências, no seu último disco?
Congotronics (coletânea de grupos do Congo alinhados em torno do Konono Nº1), Ali Farka Touré – a guitarra dele é como mais gosto: melódica e não harmônica, limpinha. E fica bonito fazer em contraponto, que é uma técnica super erudita, como Bach compunha.

 

O disco inteiro é com cordas em contraponto?

Sim. Não tem nada com harmonia cheia – tem terças, mas não chega nem a ser um acorde. Mas as camadas preenchem o campo harmônico todo, não fica vazio. E tudo é composto a partir da melodia principal. Sempre.

E como começa o processo de composição?

Tudo começa a partir de um conceito, e vamos o mais profundo possível dentro dele. Por mais que tenha essa presença grande dele nos arranjos, ele sempre pergunta “o que você quer?” Se eu chego com alguma ideia, ele fala “pensa direito se é isso que você quer”, e eu fico ali pensando. De uma coisa abstrata vamos caminhando pra coisas mais práticas, de estética. Nesse disco eu sabia que queria uma coisa mais pesada, assim incluímos o terceiro ilú – antes só havia dois. No Brinquedo de Tambor (primeiro álbum da Alessandra) eu não havia gostado da sonoridade dos ilús.

 

 

Explica o que é um ilú…

É um tambor de pele, que se toca com a mão e vai do mais grave até o mais agudo. Antes a gente não usava o tambor mais grave. Em Pernambuco, usamos ele nos xangôs, que é nosso candomblé. Em Salvador eles usam o atabaque.

 

Você pensa sobretudo no ritmo? Pergunto porque você é percussionista…

Eu componho muito com percussão, mas fazendo coisas comuns, lavando pratos etc. Sempre acho engraçado como as coisas vão se aproximando naturalmente. Quando eu tava quase terminando uma música desse disco novo, “Fogo”, um amigo indicou um poema do João Cabral de Melo Neto, “Estudos para uma Bailadora Andaluza”, que fala de uma dançarina de flamenco (Todos os gestos do fogo/ que então possui dir-se-ia:/ gestos das folhas do fogo,/ de seu cabelo, sua língua;/ gestos do corpo do fogo,/ de sua carne em agonia,/ carne de fogo, só nervos,/ carne toda em carne viva.). Depois, ouvindo o [músico e compositor gaúcho] Arthur de Faria, uma música chamada “As Coisas da Casa” (do álbum Música para Bater o Pezinho), acabei mudando completamente a ideia inicial. E tem a parte do gênero, por assim dizer. No primeiro, havia muito samba de roda do Recôncavo Baiano e do coco de roda da Mata Norte pernambucana, e ainda assim caiu muito para o samba. No Dois Cordões eu queria que fosse mais para o coco, porque o samba de roda é mais festivo. O coco, apesar de ser festivo também, tem uma certa tensão.

 

Porque Dois Cordões?

Porque o disco trabalha muito com a dualidade, o pesado e o leve, o ir e o voltar, a calma e a briga. Mas também lembro sempre dos dois cordões do maracatu, que manobram e protegem o terno (cortejo que acompanha os músicos). A imagem [da capa] é dos dois cordões de maracatu.

 

 

***

 

Quando falam que meu trabalho é uma releitura, eu não concordo. No Comadre Fulozinha a gente trabalhava muito com temas de domínio público. As letras falavam de uma região, e eu não moro no interior. É engraçado porque me lembro que fiz uma música falando de passarinho um tempo atrás, e nem passarinho eu tinha. Eu nasci e fui criada em Recife.”

 

Alessandra faz parte da primeira leva de artistas influenciadas visceralmente pela cena mangue beat. Seu encontro com o futuro marido, Isaar França e Karina Buhr, ambas parceiras no que seria o Comadre Fulozinha (na época chamado por um crítico de São Paulo de “Mestre Ambrósio de saias”), se dá no contexto da nascente cena mangue beat recifense (“no início eu não sabia de nada, nem o que era uma oitava”). Após uma turnê internacional com o Comadre, a cantora, que já era mãe, abandonou a instabilidade da vida artística para administrar uma clínica médica. “Meu pai falou ‘comprei um presente pra você’. Logo achei que era um estúdio. Na verdade era uma clínica. Resolvi topar, imaginando que aquilo ia trazer uma segurança etc.” Mas ela acabou voltando para a música, via produção musical: iniciou o projeto/CD Folia de Santo, que, além da própria, contou com vários artistas criando músicas com inspiração religiosa. Paralelamente, iniciou o trabalho de concepção de seu primeiro disco, Brinquedo de Tambor, de 2006.

A dignidade e o destemor ao tratar a música popular como se pop o fosse coloca Alessandra no mesmo terreno em que atua Siba e sua Fuloresta do Samba. Apesar dos temperamentos distintos, as ambições musicais são complementares. As letras de “Andei”, de Alessandra (ai, andei, andei/ não corro mais/ cada passo que eu dou/ me leva/ Cada passo que eu dou/ Faz o seu giro/ Muda o sentido/ Onde eu vou), e de “Toda Vez Que Eu Dou um Passo o Mundo Sai do Lugar”, de Siba (De manhã escuto o mundo/ gritando pra me acordar/ Ouço o mundo dizendo/ corra pra me acompanhar/ Se eu correr atrás do mundo/ porém não pude alcançar/ também não vivo pensando/ de ver o mundo acabar), fornecem sugestões sobre semelhanças e distinções no trabalho de ambos: cada um é para o que nasce. “Fiz um brega, ‘Cheira Que É de Pera’, para uma peça de teatro e até gostei do resultado. Meus amigos falaram que eu devia criar um nome e fazer mais bregas pra ficar rica. Mas eu já tinha visto que as coisas não funcionavam assim; tinha que fazer algo em que acreditasse”, diz Alessandra. Voltamos à conversa falando sobre o peso de Dois Cordões em contraponto à leveza, e talvez à imaturidade, de seu primeiro trabalho.

 

 

***

 

 

Penso no toque de artista em seu trabalho e no de Siba, com quem acredito que você dialogue, ainda que de um ponto oposto no universo da música tradicional pernambucana.

O Siba é um poeta. Sempre que vou compor letras, quando coloco palavras que não uso no cotidiano, acho estranho, não me soa próprio. Eu não sou poetisa. O Siba, desde a época em que começou a pesquisar cantoria, maracatu, foi desenvolvendo esse lado. Eu admiro ele imensamente como mestre de maracatu – não deixa nada a dever aos outros mestres de lá – , mas obviamente o repertório dele é diferente, não teria como não ser. Quando falam que meu trabalho é uma releitura, eu não concordo. Porque inclusive tem autoria. No Comadre Fulozinha a gente trabalhava muito com temas de domínio público. As letras de um modo geral falam de uma região, de uma comunidade, e eu não moro no interior.

 

Não dá pra você falar do luar do sertão…

Não dá. É engraçado porque me lembro que fiz uma música falando de passarinho um tempo atrás, e nem passarinho eu tinha. Eu nasci e fui criada em Recife.

 

 

E como foi que essa música entrou na sua vida? Família?

[Não teve] ninguém. Meu pai é economista e minha mãe é psicanalista (risos). O mais próximo era um tio-avô que tocava bateria. Comecei a me aproximar da música através do teatro. Eu queria estudar e fazer teatro. Na verdade, queria fazer dança, tinha interesse em danças étnicas, fiz dança afro, popular. Por falta de opção fui para o teatro, mas vi que seria uma péssima atriz (risos). Por sorte, peguei o começo do movimento mangue. Lembro de ver show do Chico [Science & Nação Zumbi] na praia de Boa Viagem e pensar: “Meu Deus, o que é isso?”

 

Sério?

Foi. Fiquei muito impactada. Voltei pra casa sabendo que era aquilo que queria. Chico era muito impressionante, não tinha quem ficasse parado. E no Abril Pro Rock eu vi o Mestre Ambrósio (grupo anterior de Siba), e era engraçado porque no início [do grupo] metade do show era acústico e metade elétrico. Ali eu pirei de fato, me deu a sensação de ser algo mais profundo. Eu era muito pirralha e ia em todos os shows deles. Daí acabei ficando amiga dos meninos e comecei a conhecer maracatu etc.

 

Foto de Rodrigo Valença

Foto de Rodrigo Valença

 

 

Em São Paulo existe um samba tipicamente paulistano, mas que se manteve na esfera da canção popular/tradicional e não se tornou pop/produto cultural. A minha impressão é que em Recife há um diálogo maior entre a cultura popular e a pop…

O Chico Science e o Mestre Ambrósio tiveram um impacto grande, mas geraram também uma versão um pouco distorcida das coisas. Para algumas pessoas, quando a Nação Zumbi colocou maracatu na música deles, ficou parecendo que o maracatu se “modernizou”. E esse conceito de moderno é uma bosta. O maracatu se modernizou faz muito tempo. Teve uma febre de alfaias, de maracatu, e foi algo bom, muita gente tomou conhecimento da música de Pernambuco por causa disso. Essa ideia da música tradicional ter que se modernizar é muito esquisita. Ela nunca parou no tempo, sobrevive às transformações, aos governos, e continua. Se você pegar os figurinos de maracatu de um tempo atrás e os de agora, são muito diferentes. O frevo tocado cinquenta anos atrás era muito mais lento do que é hoje.

 

SAiBA MAiS

Site

Baixar Dois Cordões

Soundcláudio cheio de coisa linda