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pensata #7: o ódio

Não há como não aceitar: o ódio é uma dádiva. A simples constatação não nos exime de pontuar algo simples: nem toda dádiva é constituinte, propositiva. O maior problema em relação ao ódio é que não há dialética possível: a negativa e a recusa a transmutação é quase perene. Nem por isso é uma força a ser descartada ou renegada, até porque não há hipótese cabível onde caibam seres desprovidos destesentimento. Nem por isso devemos ser passivos ou conformados. A dádiva que o ódio nos traz é o ímpeto de transformação, em ser outro, viver algo diverso. O ódio à exploração. O ódio ao trabalho. O ódio à violência injustificada. Mesmo o ódio advindo da recusa amorosa é fonte rica pra superação, praseguir adiante. Só quem se agarra ao ódio é quem teme que ao cessar este sentimento implacável, ficará diante apenas de uma dor incomensurável.

Não é preciso ser um sábio para constatar que nesses momentos o vazio de projetos e a falta de uma ética briosa, potente, são suficientes para dar uma direção vil, mortífera para o ódio. O poeta nos diz: “Eu sei, você sabe o que é frustração / é máquina de fazer vilão.”

Meditação é caminho inequívoco a uma compreensão mais polivalente desse sentimento.

Minha natureza é dada a melancolia. Mas eu escolhi se não negar esta natureza, ao menos torná-la uma pele dentre várias. Sou homem simples, filho da classe trabalhadora, e aspereza na lida diária não casa em absoluto com melancolia. Porém, o ódio aos melancólicos é um gatilho atroz rumo ao abismo. O caminho da mediação, esse estado tão difícil de ser esquadrinhado alcançado pela meditação me fez ter uma compreensão menos angustiada e sofrida com o ódio. Um dentre vários estados, eu vivo ele, mas não busco conscientemente, não uso mais a razão para operá-lo, buscando uma tal superação dessa dialética psicótica própria desse sentimento.

O ódio é o que é e qualquer ferramenta pode se tornar uma arma. A questão: precisamos sempre abrir mão de armas? Sejam água, meus amigos, sejam água.

Um pensamento sobre “pensata #7: o ódio

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