matadouro 5

pensata #6: cristianismo

O mestre Kurt Vonnegut, no seu F O D A R A Ç O e intransponível Matadouro 5, uma ficção científica crítica do próprio formato, herdeira superlativa do humor negro de crítica social de um Mark Twain e referência SÉRIA pra todo mundo que se dispõe a entender o pós-modernismo em forma de arte (e poderia ficar rasgando seda por parágrafos a fio!), apresenta o personagem principal, Billy Pilgrim, fã de um autor de sci-fi fictício chamado Kilgore Trout, que escrevia mal mas tinha as melhores ideias do universo (Ra! Alô, sci fi Brasil!). Trout escreveu um livro chamado O Evangelho do Espaço Sideral. Copio abaixo o trecho da página 117 da edição de bolso beeem boa da L&PM, onde descreve o enredo do tal evangelho espacial – ótimo exemplo do tipo de humor Vonnegutiano e visão bem papo reto sobre o cristianismo:

“Era sobre um visitante do espaço, muito parecido com um tralfamadoriano, por sinal. O visitante do espaço realizava um estudo muito sério da cristandade para tentar compreender por que os cristãos achavam tão simples ser cruel. Ele concluiu que pelo menos parte do problema era o modo de narrar descuidado do Novo Testamento. Supunha que o objetivo dos Evangelhos era ensinar as pessoas, entre outras coisas, a serem misericordiosas, até mesmo com o pior dos piores.

Mas os Evangelhos, na verdade, ensinavam o seguinte:

Antes de matar alguém, tenha certeza absoluta de que ele não é bem relacionado. Coisas da vida.

***

O defeito das histórias de Cristo, disse o visitante do espaço, era que Cristo, que não parecia muita coisa, era na verdade o Filho do Mais Poderoso Ser do Universo. Os leitores compreendiam isso e, então, quando chegavam à crucificação, pensavam naturalmente, e Rosewater leu novamente em voz alta:

Ai, ai… eles realmente pegaram o cara errado para linchar desta vez!

E este pensamento tinha um irmão:

Há pessoas certas para serem linchadas.”

Não sabia, mas existe um filme baseado no livro, e achei algo no youtube que dá pra ver que é bem ruim:

E desencanem dessa cantilena que o livro é “libelo pacifista”. Na real, a impressão que dá é que diz que é inevitável que o ser humano se envolva em conflitos bélicos e isso é uma bosta completa.