VASP

pensata #4: Da amizade

Eu gosto de pensar que tenho os melhores amigos do mundo. Obviamente, é um artifício, assim como podemos escolher ver um copo meio cheio ou meio vazio.

De certo, gosto de ser amigo, e gosto mais ainda de me encontrar na dessemelhança com o outro. Exemplo rápido: odeio, conscientemente, gente muito egóica, aqueles negos cujo assunto é a própria existência e seus feitos; me apraz um mundo de Odisseus, ainda que pareça ser uma demanda distante. Mas a constatação prática é que tenho bons amigos cujo ego funciona tal qual um balão. Mas esse tipo de “contradição” não me incomoda – acho interessante por si só este paradoxo, que encerra muito da própria vida.

William Blake pontuou algo que acho muito acertado em seu Sonhos de Experiência:

Estava zangado com meu amigo;
Disse-lhe minha ira, minha ira acabou.
Estava zangado com o meu inimigo:
Não lhe disse minha ira, ela aumentou.

De fato o é assim: amizade são afinidades eletivas, cada amigo(a) em uma constelação particular acaba por apresentar uma dimensão de si mesmo e do mundo que te põe em dilema, em confronto ou reflexão. E quanto mais nos embrenhamos nesses “poréns”, mais a amizade se solidifica.

Mineiros são muito bons pra lidar com os “ais” que são demais nessa vida!

Agora, “polianismo” é fruto de inocência completa ou de mau caratismo puro e simples. Nem todo mundo tem a virtú ou a ética necessária pra adentrar na minha constelação de amizades. A ética da amizade é das coisas mais sérias que se pode ter na vida. Tal ética vai além das noções de bem e de mal cristãs, mas não é exatamente alheia a ela. Não consigo trilhar o caminho da infidelidade, porexemplo, porém tenho amigos e amigas que assim o fazem e isso não me afasta deles, por assim dizer. O limite, na ética de amigos, ao meu ver, é baseado num projeto de convivência onde o outro a) não despreze suas realizações b) não nutra inveja ou possessividade em relação ao outro c) não maldiga as pessoas caras a ti e d) não o subestime ou jogue areia na tua farofa, por assim dizer.

Por isso, acredito que não tenha amigos pura e simplesmente filhas da puta. Sei bem quem quero próximo de mim; sei bem quem devo afastar. E mais: desconfio de gente que não tem tal discernimento. Confio na máxima “Amizade de alguns homens é mais funesta e danosa do que o seu ódio ou aversão”.

Já há dificuldades homéricas na vida pra nos atermos a “certos amigos (que) nos dispensam de ter inimigos”, como disse o filósofo Mário da Silva Brito. Simples assim.

O polianismo também é muito permissivo com os “simpáticos”.

Papo reto é pressuposto na ética dos amigos. “Errado vira certo / Se acha esperto / Só fortalece quem tem mais / O tempo é o remédio / O proceder se mostra no dia a dia / A caozada, a simpatia / Já ta virando epidemia”. Mr. Catra não poupa esforços pra dar uma dura na tal “simpatia”, o oposto completo da amizade: Ele vive na sombra do patrão / Agradar vagabundo é sua profissão / Confunde ganância e ambição / Simpatia, comédia, é vacilação”.

Quem espera redenção desse tipo de pessoa, desconhece ou brinca com uma dinâmica já muito abordada pelos de baixo, como não deixa dúvidas Mano Brown; “Mas verme é verme, é o que é / Rastejando no chão, sempre embaixo do pé “.

O grande Cumpadi Washington tem um verso que encerra bem a questão: “Pau que nasce torto nunca se endireita”.

Melhor que conhecer seus inimigos, como queria Sun Tzu, é conhecer bem a sua malta, amigos.