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E Teve Copa?

Antes de mais nada, há o Dossiê da agência Pública, que NÃO deve ser esquecido.
Agora, um par de citações breves, todas retiradas de redes sociais ANTES da Copa:

 

Deixe titio quebrar uma real aqui pra você sobre violência. Começo com o autojabá não para recorrer a argumento de autoridade, mas para oferecer fonte do raciocínio para quem quiser, em um assunto cuja complexidade não cabe em post de Facebook. Toda a complexidade do tema não cabe aqui, mas alguns princípios bem elementares cabem. Um deles é o seguinte: a galera que ainda não reconheceu o direito de manifestantes resistirem, de forma violenta se necessário, à ação armada do Estado contra protestos precisaria, urgentemente, chegar pelo menos ao século DEZESSETE. O direito de resistência contra a opressão, o direito de se insurgir contra a ação tirânica do Estado, o direito à rebelião estão lavrados em qualquer documento de fundação do LIBERALISMO. O Segundo Tratado sobre o Governo, de Locke, as Constituições estaduais dos EUA (pra dar um exemplo entre muitos, veja que bonito este Artigo 10, de 1784, sobre o “direito à revolução”: http://1.usa.gov/1f47ibN), a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, na França: escolha o documento liberal que você quiser. Esses direitos estão inscritos nele, sem nenhuma ambiguidade. Defender o direito à resistência, violenta se necessário, contra um aparato estatal extremamente violento não é coisa de esquerdista, de comunista, de socialista, de anarquista, nem de black bloc. É princípio LIBERAL elementar. Então, quem quiser surtar contra as barricadas autodefensivas dos manifestantes brasileiros, que surte, mas seria coerente abster-se de bater no peito para se dizer de esquerda. Porque quem não reconhece esse direito está à direita de Locke e dos liberais do século DEZESSETE. Não chegou ainda sequer ao artigo segundo da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, do século DEZOITO. – Idelber Avelar

A guerra fria acabou! Eu me recuso a entrar no jogo do ou está conosco ou está contra nós. Não vou deixar de apoiar os protestos para não prejudicar a eleição da Dilma. Vou me opor ao projeto da Copa do Mundo que gerou remoções, elitizou os estádios de futebol e suspendeu direitos civis em troca de benefícios bastante incertos – e, ainda assim, espero que a Dilma vença os dois candidatos da direita. Me recuso a submeter meu ponto de vista a uma estratégia de partido ou de governo. E não tolero ver intelectuais agirem assim – já que eles têm o dever de ofício de pensar com ponderação e independência. Se os governistas quiserem tratar a esquerda não petista como inimiga, que sejamos inimigos. Façam suas escolhas e nos vemos em junho! – Pablo Ortellado

copadasmanifestações

 

Ora, ora, ora… e veio a Copa. O maior evento do esporte mais popular no Brasil, tido como epítome de certo ethos nativo, a alma do povo. Mas não precisa ser muito inteligente para sacar que, povo mesmo, não iriai participar do evento, ao fim e ao cabo, um convescote para endinheirados a nível global.

 

O teu esquema sempre foi lograr

Criar uma imagem boa pra vender
na captura do nosso querer
tá conseguindo é nos provocar.

Toma cuidado pra não se perder – ‘Mordido’, Apanhador Só

 

Se tua sanha pelo evento rolar no Brasil tiver laivos nacionalistas – por si só, motivação bem vagabunda, diga-se de passagem -, pare aqui. Desligue o computador, feche livros e vá ver TV. Sério. Não tenho paciência pra pataquada nacionalista. Assim como não acredito que amigos que considero espíritos críticos, considerem cinicamente (porque, vamos lá, sabem que não é verdade) a crítica ao evento, o tal do “Não vai ter Copa”, seria uma agenda da direita, dos conservadores, dos que “naturalmente mandam no país desde os mil e quinhentos”, como dissera Luiza Erundina. Dos governistas não esperava nada diferente. Real politik desavergonhada. “Compromissos assumidos” – lucro privado ao invés das pessoas: tudo conforme a música. Da imprensa governista, através de seus apatetados “blogueiros progressistas”, por exemplo, espero menos ainda. Desde o episódio das manifestações em junho, onde publicavam avaliações e estudos porcos pra justificar a impossibilidade da redução da tarifa (com ênfase no caso paulistano), mantendo o espírito jornalístico do “lutar” para que tudo fique como está (e nisso, não diferem em nada dos jornalistas do chamado Partido da Imprensa Golpista), não me espanta em nada a cantilena de agora. A perseguição que emcamparam em consonância com a direita contra os Black Blocs (teoria conspiratória: não estavam preparando terreno pra destros e canhotos no poder e suas “polícias antiterroristas” de agora?) mostra o tipo de caráter dessa laia.

 

Mas enfim, a Copa veio. Galera se superou no cinismo e encarnou, cada um a seu modo, uma criança louca por futebol (como eu mesmo já fui) fingindo estoicamente que nada acontecia. Quando vieram as vaias nos estádios à presidenta, eram os “coxinhas”. O que a Copa revelou então? Que tanto governistas quanto os endinheirados nos estádios SÃO os coxinhas! Tá tudo junto e misturado. Poderia usar mil exemplos pessoais pra exemplificar como essa Copa foi saudável entre os de baixo no sentido de revelar muitos dos joguetes por detrás dos jogos em campo. E pra justificar esse alinhamento “coxinha”, só um dado: 99,9% dos meus conhecidos governistas que se comportaram como crianças contrariadas e mimadas são 1. caucasianos, 2. não moram em periferias e 3. são ricos ou classe média.

 

Aliás, triste fiquei apenas pela molecada que vai ter que conviver com o trauma do que rolou dentro de campo. Um anticlímax ÉPICO pra uma Copa que aconteceu de fato, mas não “virou”.

(num vi ninguém reclamando do corte deste áudio na exibição da Globo)

Sempre achei a palavra de ordem “Não vai ter Copa”, fraca, irreal. Mas sempre respeitei o fato que foram inúmeros grupos articulados que optaram por essa palavra de ordem então, lá fomos nós!  Mas o evento serviu pra mobilizar os de baixo, afim de pensar o que estes mega eventos deixam de espólio ao país (“remoções forçadas, privatização dos espaços públicos e novos episódios de violência policial” – como elenca o blog sulista Calle Soriano e com o qual fecho). Se o resultado na conjuntura política governista for o desastre eleitoral neste ano, o problema, com todo respeito, diz respeito só e somente ao próprio PT mesmo. E, vale lembrar: seria tenebroso uma volta ao PSDB no governo federal, não tenho dúvidas. Porém, não tenho dúvidas que se a direita trabalhar e espezinhar o governo federal diante da barbárie que dizem avistar no horizonte das lutas que prometem tomar o país, o problema é, antes de mais nada da condução e da análise de conjuntura do governo petista. Fazer prospectos contando com a mudez do povo não é digno nem da mais apagada social democracia, convenhamos.

Rebelar-se é justo – vale deixar claro.

Em suma, fecho com a pensata do professor da USP e amigo Pablo Ortellado: “Os governistas começaram de maneira articulada uma campanha nas redes sociais ‘em defesa da copa’. E a argumentação é sempre a mesma: a crítica aos compromissos assumidos pela Copa é uma pauta da direita e apoiada pelos meios de comunicação de massa. Não tenho dúvida que a direita está fazendo um esforço para reduzir a campanha da extrema-esquerda que critica os compromissos e efeitos da Copa (as remoções, as limitações dos direitos civis e a elitização dos estádios) à crítica vulgar e despolitizada de “gastos excessivos e desnecessários”. Os governistas, ao ligarem os tratores para atropelar a extrema-esquerda, não apenas desrespeitam o direito democrático de divergir e de lutar, como corroboram a assimilação canhestra que a direita articula. Que o governo defenda os equivocados compromissos que assumiu para a Copa, é apenas inevitável. Que ao fazê-lo esteja disposto a se colocar em antagonismo com a sociedade civil independente é um grave equívoco político, em especial em ano eleitoral”.

Que cada um assuma seu B.O pra eternidade.

A reflexão sobre a Copa do Mundo e seus impactos negativos no país já não é privilégio dos Comitês Populares da Copa: inúmeros coletivos, grupos, movimentos e indivíduos se posicionaram criticamente a este megaevento, inclusive com manifestações e protestos com agendas próprias.

Antes que continuem com essa lenga-lenga de querer jogar os críticos da Copa no mesmo guarda-chuva onde caberiam lambe-botas como Miriam Leitão, Rodrigo Constantino e quetais, aviso que a maioria absoluta das fontes usadas neste dossiê para ajudar você leitor a pensar o assunto, são de fontes reconhecidamente progressistas, à esquerda no espectro político, ou belos exemplares do quase inexistente jornalismo investigativo. Por mais que a tratoragem dos governistas queiram colocar gregos e baianos em uma mesma cela, a verdade pura e simples dos fatos os atropela por sua vez. Não me assustaria se tivessem defendido a internacionalmente-reconhecida-como-suja FIFA, como uma entidade “fair play”, honrada, interessada em valores como democracia e emancipação popular. Não foi necessário, felizmente…

Que essas 20 notinhas sirvam pra manter essa história bem acesa.

 

1. “Seria uma vergonha pro país o não-cumprimento de um compromisso acordado anos atrás, o que iriam pensar de nós??”

Bom, poderiam pensar que o Brasil é mais próximo do país que inspira globalmente revoltas populares a partir de junho, quem sabe. A imagem do Brasil cordial está atrelada à construção de um mito nacionalista que perpassa a história nacional, um recorte do todo assumido como mito fundador. Tão só e somente isso: manutenção de um status quo. “Mas imagina, seríamos os primeiros a fazer isso”, pode ser indagado. MENTIRA – a primeira de muitas espalhadas comodamente por aí -, já que a Colômbia rompeu com compromisso assumido para a Copa de 86, como mostra o sempre imperdível site Impedimento.

Obviamente, não podemos fingir que há uma distância de contexto político e, sobretudo, o fato que ela rompeu o compromisso com pouco mais de 3 anos de antecedência. Mas que rompeu, rompeu.

 

2. (a fonte aqui é o UOL, mas diz respeito a um relatório comandado pela acima de qualquer suspeita Raquel Rolnik)

Em abril deste ano, a relatora especial da ONU para a Moradia Adequada, Raquel Rolnik (foto), acusou as autoridades do Rio e das outras cidades-sede da Copa de praticarem desalojamentos forçados e violarem os direitos humanos. O relatório provocou críticas da Anistia Internacional e repercutiu na imprensa do exterior.

Na semana seguinte, o Rio recebeu membros do Comitê Olímpico Internacional (COI) para uma das reuniões de revisão do projeto Rio 2016. No último dia da visita, em entrevista no Palácio da Cidade, o diretor executivo de Jogos Olímpicos do COI, Gilbert Felli, foi perguntado sobre como a entidade enxergava a questão. O prefeito Eduardo Paes tentou se antecipar e responder que tudo estava sendo feito dentro da lei, mas Felli pediu a palavra e disse que havia pedido um relatório completo de todas as desapropriações.

A audiência foi proposta pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC/RJ) para ouvir as demandas da população. A artilharia pesada começou com Leonardo de Souza, subprocurador geral de Justiça. Representando o MP Estadual, Souza disse que não estaria prevalecendo o estado de direito nas realocações.

“A Prefeitura vai lá e pinta uma sigla na casa dos moradores: SMH, Secretaria Municipal de Habitação. Isso me remonta os nazistas que marcavam as casa dos judeus”, disparou o subprocurador.” Saiba mais aqui.

 

3. Alckmin cria primeiro batalhão da Polícia Militar com função antiterrorista. “Para a militante do Comitê Popular da Copa de São Paulo Juliana Machado, é clara a tentativa de impedir as mobilizações sociais no período da Copa do Mundo, em junho deste ano, e depois do evento. ‘Após as manifestações de junho do ano passado e com a perspectiva de aumento dos protestos e dos questionamentos pela população, o Estado está se preparando para recrudescer na violência’”, avaliou. E ela estava CERTA!

 

4. “Mas a Copa vai deixar um legado positivo de infra-estrutura pro país”. Proposição mui questionável. E mais: via de regra, eventos esportivos globais NÃO COSTUMAM deixar legado positivo para os países que o sediam. “E quem ganha com isso então?” Quatro construtoras e a FIFA. A saber: FIFA projeta 10 bilhões de lucro líquido, além de operar com custos baixos no país e isenção de impostos. Em relação à Copa da África do Sul, é um crescimento de 36%. Em relação à Alemanha, de 110% – tudo segundo esta matéria comentando estudo da consultoria BDO.

Já as 4 construtoras que se beneficiam você pode – e DEVE! – ler mais no ótimo relatório “O TCU e a Copa de 2014”, do instituto Mias Democracia. Mas sejamos claros: os governos municipais, estaduais e o federal, segundo a Matriz de Responsabilidades da Copa, desembolsaram 27 bilhões em obras de infra-estrutura, reforma e construção de estádios (ops, Arenas) e custos com mão de obra pra receber os turistas.

E há os brasileirinhos tão lindos da especulação imobiliária, que já se refestelavam com os números da Copa em 2011, como mostra texto “Brasileiros já lucram com a Copa de 2014 alugando casas e apartamentos”, no site da Associação Brasileira de Empresas de Evento. Afinal, alguém tem que sorrir ao passo que muitos recebem pancada no lombo…

5. “O Estado Brasileiro aceitou, sem maior resistência, todas as imposições da Fifa, inclusive aquelas que são contrárias à legislação nacional e à Constituição, numa afronta à soberania do país. Para citar algumas: a zona de exclusão imposta pela Fifa é inconstitucional, primeiramente porque é princípio constitucional a livre iniciativa, ou seja, o Estado não pode aceitar – quanto menos impor – regimes de monopólio; da mesma forma é inconstitucional e viola direitos humanos a restrição de acesso de parte da população a espaços públicos, que são as ruas, praças e demais equipamentos públicos presentes no raio da zona de exclusão; o financiamento público de um evento privado sem contrapartida também é ilegal e constitui improbidade administrativa – nos discursos iniciais o governo dizia que não haveria recursos públicos investidos na Copa do Mundo e agora, após alguns anos, os números são chocantes. Para piorar, o modelo imposto pela Fifa de transformação dos estádios de futebol em ‘arenas multiuso’ faz uma distorção absurda: dinheiro público vai para a reforma dos estádios que são, em seguida, passados à administração de concessionárias privadas por períodos de 30 a 40 anos, sem que haja nenhuma contrapartida por parte delas, ficando o legado para o povo da elitização e privatização dos equipamentos de esporte nacionais. Uma pesquisa do Instituto Mais Democracia já demonstrou ‘quem são os donos do Brasil’ – por trás de todas as obras da Copa estão majoritariamente quatro construtoras, e os interesses destas e o interesse do Estado já são algo em que não há qualquer dissociação”. Leia tudo aqui.
6. Quanto aos mitos espalhados pelos conservadores, como o uso de dinheiro público pra estádios que ficarão nas mãos de capital privado nos próximos 30, 40 anos (“Os bancos federais financiaram cerca de metade dos R$ 7,5 bilhões gastos em arenas para a Copa. Apenas R$ 820 milhões foram financiados com recursos privados – segundo valores da CGU, que diferem um pouco de um levantamento do Tribunal de Contas da União. O restante dos recursos foi aportado por governos locais, principalmente estaduais”), essa reportagem da BBC é mais do que suficiente pra colocar pingos nos is.  E veja bem: mesmo as críticas elencadas pelos conservadores, ao pesar essa reportagem, merecem crédito e ponderação.
7. Romário discursa sobre infraestrutura para Copa 2014

 

8. Romário critica poder excessivo da Fifa na Copa

9. A Caminho da Copa

 

10. Visita de Raquel Rolnik a Porto Alegre

 

11. Raquel Rolnik e Benedito Barbosa,  O Impacto da Copa 2014

12. Raquel Rolnik: Copa 2014 e Trabalho Decente

13. Obras para a Copa e Olimpíada desapropriam ilegalmente moradores no Rio de Janeiro:

14. Jornal britânico Guardian denuncia as remoções para a Copa:

 

15. Avaliação pós-Copa de Juca Kfouri: “Porque outro legado da Copa é a consciência de que megaeventos são muito bons para quem os promove e para as celebridades que gravitam em torno,mas não são necessariamente bons para quem os recebe, razão pela qual será excelente se os próximos forem submetidos à consulta popular.” Leia o restante aqui.

 

16. A Copa também foi uma goleada no quesito turismo sexual, como não poderia ser diferente – infelizmente.

 

17. Fotos que resumem o espírito da coisa toda aqui.

 

18. “Os governos não podem dizer para a sociedade que vão trazer a Copa porque é uma grande festa. Então eles falam do legado, do benefício econômico, que na verdade não existe. Eles têm que fingir. “O Brasil está tendo que fingir muito mais do que a Inglaterra teve para sediar a Olimpíada. A Inglaterra é um país mais rico, então as pessoas podem ‘pagar’ pela felicidade que os Jogos trazem.” – Kuper e Szymanski – economista da Universidade de Michigan, autor de Soccernomics

 

19. Segue trecho do livro “A Ralé Brasileira” do professor Jessé Souza e que trata um pouco sobre a questão do discurso economicista:
“É isso que explica que a forma como a sociedade brasileira percebe, hoje em dia, seus problemas sociais e políticos seja “colonizada” por uma visão “economicista” e redutoramente quantitativa da realidade social.

O economicismo é, na realidade, o subproduto de um tipo de liberalismo triunfalista hoje dominante em todo o planeta (isso se mantém, apesar da recente crise, já que a articulação de uma contra ideologia nunca é automática), o qual tende a reduzir todos os problemas sociais e políticos à lógica da acumulação econômica.”

 

20. Somos cordiais, óbvio: “Homem é morto por usar camisa da Argentina durante jogo do Brasil em Maria da Fé, Sul de Minas”.