Samurai

Pensata #2: ser guerreiro

 

Walking through a world of lies
with a heart made out of stone
i looked deep into your eyes
and i knew i was alone – Black Flag, “I’m The One”

Imagine um mundo futuro dividido por patologias, um “clã” vivendo de vilipendiar e atacar o outro. Agressão e crueldade serão moedas corrente. As instituições faliram. Não sobrevive quem baixa a guarda. Sem empatia, sem envolvimento. Todo um Bushido às avessas. Sobreviverá quem mantém a sanidade que ainda se configura então como possível, aqueles cuja Razão operará.

Esta distopia já existe, e é parte central no livro Black Flag, do escritor italiano Valério Evangelisti, publicado no Brasil em 2005, pela extinta Conrad Editora.

Black Flag

Evangelisti cria uma história/catástrofe baseada em três tempos distintos (passado, presente e futuro) para avaliar/repensar os limites (ou a falta deles) que norteiam a raça humana. O nome do livro diz respeito tanto à bandeira negra que o bando de Jesse James empunhava durante a Guerra da Secessão dos Estados Unidos quanto à banda punk californiana de mesmo nome, cujas letras talhadas em raiva, desolação e ética belicosa servem de epígrafe em alguns capítulos. Não preciso dizer que as cores pesadas com as quais Evangelisti investe sobre o futuro dizem respeito basicamente à nossa realidade, correto?

E para mim surge só uma questão: em um mundo hipermediado, onde o cidadão comum se mantém afeito/emaranhado em jogos infinitos de mentiras, é necessário que cada um pense sobre um possível “caminho do guerreiro. Se o teu coração já se transformou em pedra, como na letra acima (presente na primeira música no vídeo abaixo), é hora de abandonar certas ilusões e dar um papo reto na sua própria vida.

Viver sem grandes ilusões não te deixará ao largo de grandes emoções, de farra da boa. Ao contrário! Num primeiro momento, “viver pela espada” parece um pouco desgastante – sobretudo no que diz respeito à energia mental. Mas por outro lado, te faz ver o que de fato interessa pra viver bem, pra se encontrar no labirinto. Lembre-se: “leve como uma borboleta, mas com o ferrão de uma abelha!”

Mais importante nisso tudo, é que o caminho que você trilha passa a ser mais importante que os percalços na trilha: tudo de bom ou ruim que te aconteça, diz respeito às suas próprias ações e emoções. Não há mais o porquê de se magoar com a ação alheia que venha interferir em sua vida.

Agora é bom ter cuidado: guarda a postos o tempo inteiro pode não te afastar dos outros, mas com certeza incomodará alguns. Digo por experiência própria – nem todo mundo (na real? Quase ninguém!) tá pronto a encarar os fatos, o mundo e o outro sem cascata, olho no olho. Assim, a mediação de si para si é fundamental. É necessário desvelar a visão através da inteligência, mas também é necessário sagacidade para transitar.

Esteja atento às suas paixões: muitas vezes o que alguém ou algum grupo tem a dizer sobre você diz mais respeito a quem diz do que sobre nós mesmos.

Separei dois trechos do Hagakure – O Livro do Samurai, do Yamamoto Tsunetomo que tratam um pouco sobre tudo isso. A leitura deste livro – assim como o Black Flag, de Evangelisti) – é recomendadíssima! Esqueça as bobagens sobre disciplina, sobre dietas com xixi de cavalo e o escambau… enfim: seja inteligente e sagaz!

“Havia um certo monge de quem se dizia que era capaz de conseguir qualquer coisa por meio de sua inteligência e sagacidade. Não existe hoje um só monge no Japão que se iguale a ele. Isso não é nem um pouco estranho. Simplesmente poucas pessoas hoje são capazes de enxergar a raiz do problema.

(…)

Se estivermos seguros de nossos princípios, não sofreremos ao relevar os pequenos detalhes ou assuntos que são contrários às expectativas. Mas, em última instância, os detalhes de um assunto são importantes. A maneira certa ou errada de fazer algo pode ser percebida nos assuntos mais triviais.”