mikeladd

A Música Futurista de Mike Ladd

 

(+Soma 4. Junho de 2008, com André Maleronka)

(Pouco mais de 6 anos atrás, saía uma matéria com um de nossos ídolos da época, Mike Ladd. “Nossos” porque essa matéria foi escrita a quatro mãos, com meu chapa André Maleronka, hoje editor da VICE. Ladd não só comentava o estado da cultura hip hop de então, através do duelo em suas letras entre “Majesticons” e “Infesticons” como dialogava em pé de igualdade com artistas igualmente vindos da cena de spoken word, como Saul Williams e as produções tensas e ruidosas de El-P e toda turma da gravadora Def Jux. E ia além! Além disso, o papo que levamos com ele nos deu a certeza de termos um “chapa” a quilômetros de distância, dada a empatia e a sintonia nas ideias que trocamos. De lá pra cá, muita água já passou por debaixo da ponte e, além do disco solo que vai no fim deste texto para download, Ladd colaborou com Marc Ribot, Arto Lindsay, Jungle Brother e Sensational no ótimo Anarchist Republic of Bzzz. Após esta entrevista, eu descolei uns 3 álbuns do Itamar Assumpção para o fera – vai que dá caldo nessa mistura…)


Daria um filme: jovem mestiço, dividido entre o punk rock e o rap, as ruas e a universidade, descobre, na ficção científica e nas teorias intelectuais radicais, enredo e metáforas para sua própria vida, e, no sampler, o poder de síntese necessário pra dar sentido a ela. MC e produtor, o estadunidense Mike Ladd, infelizmente, fez uma rápida passagem pelo Brasil, se apresentando para uma audiência restrita.

Pra quem pôde conferir seu universo sonoro balançado e conturbado, ficou muito claro que o conceito que batiza seu segundo álbum, Welcome to the Afterfuture, é o plano diretor de sua produção. Com uma atitude tipicamente pós-moderna, usa análises dialéticas e liberdade semântica – não é a palavra post (pós) dos teóricos sua escolha, e sim a pedestre after: após, depois – para definir como soa: a partir de um arcabouço acadêmico, arquiteta resultados simples. O balanço de Ladd – mesmo em suas digressões pelo som instrumental de timbres orgânicos e construções largamente eletrônicas debitárias do free jazz – pode ser cru ou cozido, mas é sempre saboroso.

Sua música move-se a partir do enfrentamento entre disparidades e descompassos – de alguma maneira, conceitos caros tanto à ficção científica como aos estudos de Teoria Crítica. Sua afiliação à linhagem do afro-futurismo via a agenda política do Black Arts Movement – uma transposição dos ideais Black Power liderada pelo poeta, dramaturgo e ativista Amiri Baraka durante os anos 1960 e 70 –, apresentada em uma trilogia (inacabada) de álbuns que descrevem uma guerra entre os personagens Infesticons e Majesticons – o bem e o mal musical, respectivamente –, pode parecer contraditória: um amálgama de materialismo e fantasia, tipicamente pós-moderno. É a contradição da capa de … Afterfuture, sua melhor obra até agora: uma distopia expressa com postes emaranhados em estranhas ligações elétricas, estatais e privadas. É uma utopia de caos impensável no Primeiro Mundo e cena cotidiana no Terceiro. “Estou considerando passar um tempo aqui, seria ótimo para compor”, disse Ladd, impressionado pela quantidade de material que produziu durante sua passagem por São Paulo. Além de ambiente de trabalho ideal, a capital paulista sintetiza suas previsões para o futuro do bom som, como ele declara na entrevista a seguir.

Você falava que precisa do caos para compor, mas como você aprimorou sua habilidade de composição, desde a época em que você começou a ouvir e a se interessar por música?
Praticamente tudo veio como fruto da audição de muita música, da mesma forma que alguém pode aprender a escrever lendo muito. Minha mãe ouvia uma estação de rádio que tocava música clássica de manhã, e durante a tarde e a noite ela ouvia Nina Simone, Jimmy Cliff, Bob Marley, George McCrae… “Rock Your Baby”, do George McCrae, rolava direto no toca-discos. Quando eu era muito criança, essas foram minhas maiores influências. Depois descobri o Hendrix e o Funkadelic. Eu era muito fã de punk rock e de toasting do começo do dancehall: Yellow Man, Charlie Chaplin, esses caras. Acho que consegui usar essa diversidade quando comecei a usar samplers, um bom tempo depois, porque toquei em muitas bandas antes… Quando comecei a usar samplers, eu estava escutando muita coisa orquestral, e também John e Alice Coltrane, e Pharoah Sanders. As músicas deles são estruturadas em movimentos, como música clássica, e é justamente por isso que, especialmente nos meus primeiro e segundo discos, algumas músicas são arranjadas dessa forma.

O seu background é da cena punk hardcore. Por qual motivo você escolheu o rap como meio de expressão?
O interessante é que eu estava sempre fazendo os dois ao mesmo tempo. Eu e meu amigo Troy começamos a rimar assim que o hip-hop chegou a Boston, uns dois anos depois de chegar a Nova York, mais ou menos em 1981. Eu fazia freestyle, porque nunca conseguia lembrar as letras dos caras. Quando a gente tinha 12 anos, o Troy inventou uma parada que era mais ou menos assim (cantarola): “When I was a little boy I read the comics/ Then I gave my money to Reaganomics/ Now that I’m poor I live in a shack/ Please Mr. Reagan won’t you give my money back?” Era muito legal (risos). Eu também era baterista de uma banda punk. Eu cresci em um lugar muito peculiar, chamado Cambridge, em Boston. Era um lugar com muitas universidades e estações de rádio muito boas, muita gente andava de skate, [havia] uma cena grande de ska, uma cena grande de reggae porque a [gravadora] Trojan tinha uma sede lá, uma cena enorme de punk rock e uma cena de rap. E em Cambridge as coisas funcionavam de forma particular, era diferente de Boston. Então foi meio lógico ter todas essas influências juntas.

E o que rolava nas cenas de punk e rap em Boston?
No começo dos anos 1980, tinha o Gang Green, Slapshot… Grandes bandas! Eu era muito fã do The Freeze, The F.U.’s. Isso tudo era de 84, 85 e 86. Era uma cena muito vibrante. E o hip-hop, nessa época, você ouvia na WERS, que era uma estação de rádio fantástica – e ainda é uma das melhores estações de rádio da América. Funcionava mais ou menos assim: rock das 16h às 18h, reggae das 18h às 20h, rap até as dez, e depois disso punk rock até a meia-noite. A gente já deixava umas fitas cassete de 90 minutos só esperando pra apertar o rec (risos).

Você cursou literatura, certo?
Eu estudei numa escola experimental e me graduei num curso que era parte antropologia, parte etnografia, parte literatura, parte ciência política e história. Estudei sobre negros americanos expatriados no século XIX e bastante sobre colonialismo. Na mesma época que estava escrevendo meu primeiro disco, fiz um mestrado em poesia. Esse foi provavelmente o último ano em que trabalhei duro (risos).

Ok, tem um monte de bandas que todo mundo gosta porque eles dão duro, mas sempre existe alguém que é bom porque é realmente bom pra cacete e é isso. Não tem discussão. E esses são os melhores. Eles sempre aparecem, como o Bob Marley.

mikeladd black-arts

Existe uma tradição de arte radical vinda dos anos 1960. Você enxerga sua obra como uma continuação daquelas propostas, especificamente o Black Arts Movement?
Sim, eu estava seguindo a tradição do Black Arts Movement de forma consciente, quando comecei a escrever diariamente. Eu tava dividido, porque nessa época existiam dois grupos de jovens escritores negros. Tinha um grupo chamado Darkroom Collective, um grande coletivo de poetas da minha idade, escritores fantásticos. Mas eles estavam negando o BAM naquele ponto, e eu não gostava daquilo. Eu estava interessado em algo mais radical e político. No começo dos anos 1990, cheguei a pensar que rolaria uma revolução – eu tava pronto pra isso. O Public Enemy ainda não havia sido crucificado e parecia que algumas coisas podiam realmente acontecer. Eu tava andando com um poeta marxista hardcore chamado Tony Medina e gostava muito dos ideais marxistas nessa época – na real ainda gosto. Hoje em dia, o pessoal do Darkroom se dá bem com o pessoal mais velho de spoken word.

Quando o disco do Infesticons saiu, o underground era uma esperança de renovação musical, mas depois de um tempo tudo isso desapareceu. O que você acha disso?
É exatamente isso. O N.E.R.D mudou tudo. Eu me lembro que antes de embarcar para a Europa, pra turnê do Majesticons, foram lançadas as coisas do N.E.R.D./Neptunes. Na hora eu percebi que o que estava rolando no mainstream era muito mais interessante que o underground. Ok, tem um monte de bandas que todo mundo gosta porque eles dão duro, mas sempre existe alguém que é bom porque é realmente bom pra cacete e é isso. Não tem discussão. E esses são os melhores. Eles sempre aparecem, como o Bob Marley. Porque o cara vendeu milhares de disco? Ele era realmente foda!

The Clash?
Exato, é a mesma coisa que o Bob Marley.

E o Outkast.

Exato, não tem como mexer com essas pessoas, são forças da natureza!

Quando sairá o disco final da trilogia?
Eu não sei (risos), mas tá quase pronto. Acabei de descobrir o enredo, é mais ou menos assim: o conflito já acabou há anos, mas cinco Infesticons ficaram em um bunker. Quando eles finalmente saem, acham que a guerra ainda está rolando. Eles vão para algumas festas e não entendem nada. É um mundo descolado: todo mundo é bissexual e usa roupas fluorescentes. Eles ficam confusos, porque isso não é hip-hop (risos). Eles estão realmente perdidos. Depois de Negrophiliae Father Divine, quero fazer discos com canções realmente boas, o que na real é mais difícil de fazer.

E quem faz música boa hoje em dia?
Não sei muito o que tá rolando. Eu gostei muito do primeiro disco da M.I.A. Há algum tempo eu estava tentando fazer algo como um pingue-pongue cultural, especialmente tentando usar samplers de Bollywood e mais outras coisas, e ouvindo algumas bandas que estão surgindo em NY e que estão fazendo coisas impactantes, e que não são world music. Eu espero que o próximo grande movimento não saia de NY ou Los Angeles, mas sim de São Paulo, Bombaim ou Xangai. Quem sabe o que rola em Xangai hoje em dia? É isso que eu estou esperando. Essa idéia de música global, sem ser world music, é muito interessante…

Na minha opinião, quando os lados tecnológico e cultural estão para se alinhar, mas ainda não deram o clique, é nesse momento que rola ação.

Como você acha que viver na França influencia seu trabalho hoje em dia?
Olha, eu não mudaria para a França por razões artísticas. A França era obviamente um lugar incrível para um artista do séc. XIX ou XX se mudar, por uma razão específica: a colisão de novas tecnologias do modernismo com as antigas tradições, resultando numa grande explosão que tornaram o lugar muito excitante. Era um enorme epicentro cultural, mas isso não está mais acontecendo. Já em Bombaim, essa tensão está quente, por isso o lugar é interessante. A gente meio que precisa disso. Na minha opinião, quando os lados tecnológico e cultural estão para se alinhar, mas ainda não deram o clique, é nesse momento que rola ação.

Você acha que os EUA, em conjunto com a administração Bush, passam por um momento extremamente conservador?
Certamente estamos passando por isso, mas está mudando – vamos ver o que vai acontecer com as eleições. A mídia promove uma agenda conservadora, você vê as batalhas que o Obama tem que travar, e algumas coisas parecem piada, como “você não tem um broche da bandeira americana? Que merda tá errada com você, cara?” Mas isso não tem nem a ver com conservadorismo. Na verdade mostra o funcionamento bizarro do processo eleitoral neste momento, a quantidade de besteiras que são levantadas…

Você fala que vivemos no “Afterfuture”. Você pode falar um pouco sobre isso? Se pensarmos nos últimos oito anos nos Estados Unidos, você acredita que o Obama pode ser a pessoa perfeita para encarnar essa nova era?
Não se engane: gosto muito do Barack, e vou estar na América em novembro de qualquer jeito, apenas para participar desse momento da História – eu não vou ficar na França durante a eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos. O Obama, em um nível mais abstrato, pode significar uma nova era, mas ele ainda é a favor do imperialismo e tem interesse em que os EUA estejam na frente, continuando no papel da maior potência mundial. E mesmo se em algum lugar do seu subconsciente ele não estiver interessado nisso, se ele estiver interessado em algo mais igualitário, ótimo, mas as pessoas com quem ele trabalha e para quem ele trabalha não que- rem isso. E ele definitivamente trabalha para outras pessoas, para grupos de interesse e algumas grandes corporações – não são todas – que ainda precisam da idéia de nação para fazer dinheiro. Mas o Obama trabalha para essas pessoas, e mesmo na sua campanha ainda não deu exemplos claros de como essas mudanças ocorrerão e de quais serão elas. Eu acredito que uma grande mudança simbólica vai ocorrer e isso é importante, mas ele não está interessado no modus operandi econômico e social do planeta de maneira alguma (risos). Mas… dá pra repetir a pergunta?

Você acha que o Obama personifica esse seu “Afterfuture”?
Na minha opinião, e provavelmente na do resto do mundo, se o Obama ganhar ele vai ser o presidente negro do império, algo completamente louco e complicado de se imaginar… Eu concordo, é verdade. Mas é muito interessante: nesse momento um dos mais perigosos políticos no mundo é uma mulher negra, a Condoleeza Rice. Você me entende? Ela é diabólica e inteligente, e é uma mulher negra. Então toda nossa percepção já tá mudando mesmo que a gente não perceba. Há uma grande diferença entre ser o Barack Obama e ser o presidente dos EUA, mas isso tudo não é algo pequeno. É muito interessante o que o 11 de setembro causou também, no momento em que as torres caíram. Eu estava em NY e de repente os afro-americanos não eram mais o inimigo público número 1, pela primeira vez desde 1942. Foi muito louco! Em relação à administração Bush, a minha teoria é que ela tem uma relação bizarra com o povo afro-americano, acho que no fundo ele ama a América negra, do seu jeito perverso de ser. A primeira coisa que posso falar é que o Bush não dá a mínima para a humanidade. Ponto. Mais de uma perspectiva mais distante ele está interessado na América negra…

mikeladd 2

Como uma ferramenta?
Pode ser. Mas em algum momento no colegial ele já desejou ser negro. Que o Clinton queria ser negro, é óbvio. A maioria dos homens brancos america- nos em algum ponto da adolescência já desejou ser negro. Acho que o Bush tem isso em algum lugar. Ele acha os negros legais, e pela primeira vez na história um republicano acha isso, o que não significa que ele dá a mínima para os negros. Ele quer usar os negros e não vai salvá-los se Nova Orleans estiver afundando. Então, naquele momento em que os prédios caíram a América branca se ligou que não foram os negros que derrubaram um prédio, e os negros passaram a ser visto como 100% americano. Quer saber o que personifca o “Afterfuture” pra mim? Os travestis. Eles alteram seus corpos…

O Michael Jackson [que ainda estava vivo] também…
O Michael Jackson é o exemplo perfeito! (Risos.) Essas pessoas que alteram seu físico… Não é uma coisa que eu admire, mas me impressiona, uma pessoa que muda dessa forma e acha normal. O cara decide que vai fazer mais grana com uns peitões, pronto. O cara vai e coloca os peitões (risos)

Você pode baixar o álbum Kids and Animals (2012), gratuitamente, aqui.