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Meus Heróis Não Estampam Selos: Stewart Home

Cartaz Neoísta presente no livro "Manifestos Neoístas & Greve da Arte"

Cartaz Neoísta presente no livro “Manifestos Neoístas & Greve da Arte”

Lembro-me do dia que, andando entre os corredores de uma Bienal do Livro em São Paulo (acho que 99, trabalhando no estande da Paz e Terra), eu vejo um estande laranja, pequeno, uns mangás expostos e, como que deslocados do ambiente, o livro da Valerie Solanas e o Assalto à Cultura do Stewart Home! Aquilo foi como se abrissem uma fenda espaço-temporal onde se transportara um ínfimo pedaço das coisas da AK Press que eu via em um catálogo/calhamaço gringo (mesmo formato e papel do zine Maximum Rock N Roll) ali pra Bienal: era a Conrad Editora. Eu era duro pra cacete e, obviamente, não comprei os livros, mas, por incrível que pareça, eu li uma parte substancial do livro do Stewart Home ali mesmo no estande, indo um pouco na hora que chegava, depois no horário de almoço e depois na saída durante alguns dias. E numa boa? Aquilo era ainda melhor do que eu podia imaginar ao ler a descrição no catálogo da AK Press.

O tempo foi passando, eu fui comprando os livros importados do Stewart Home e acabou que ainda fui trabalhar na própria Conrad Editora, tendo a oportunidade de editar o Manifestos Neoístas & Greve da Arte e, apesar da minha insistência, não rolou de publicar seu idiossincrático trabalho sobre o punk inglês, Crancked Up Really High – livro que ainda hoje eu gosto muito – mais pela provocação contida do que pelo resultado final.

Nesse ínterim, eu conheci a Graziela Kunsch, artista plástica e ativista que eu havia conhecido durante o festival Mídia Tática Brasil, de quem virei amigo e compartilhávamos o enorme interesse pela obra do bravateiro da anti-arte. Mais do que isso: ela foi a maior divulgadora da obra dele no Brasil e acabou fazendo uma entrevista junto comigo com o autor, que entrou na edição brasileira do Manifestos Neoístas…, livro de onde tirei as imagens do post, além de coordenar a edição brasileira do Buceta (no original, Cunt), romance picaresco pornográfico do Stewart Home que infelizmente nunca encontrou uma edição por fim no país. Eu ainda tenho o texto por aqui e, relendo hoje um dos capítulos, pude rir tanto quanto ao ler pela primeira vez. Além disso, ela montou uma interessantíssima exposição em 2004 (10 anos já!!) chamada Um Espaço Para A Contracultura Inglesa, onde apresentou alguns trabalhos em Artes Plásticas do Stewart Home.

O que vem abaixo, é a tradução dos “Poemas Selecionados” (1982-85) de Stewart Home, que, originalmente, estava em nossos planos integrar o livro mencionado acima. A tradução, provavelmente, é de “Montsy Cantsin” – o pseudônimo que assina a tradução do livro e era usado pelo próprio Stewart Home. Não lembro ao certo, mas deve ter sido o Rogério de Campos (um dos donos da Conrad e capo da Coleção Baderna) que vetou a inclusão – ele odiava poesia.

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No período em que Stewart Home esteve no Brasil para uma série de conferências (teve essa matéria aqui na ocasião), lembro que ele falou algo sobre a sacada por detrás desses poemas era fazer poesia “materialista” no sentido marxista vulgar. É aquilo: dá pra não gostar de um cara que manda uma dessa?

Divirtam-se!

Bananas Pretas no Prato

Eu passei pelo prato de frutas
sorrindo para as bananas
elas eram amarelas e pretas.

Trilogia

a)

folhas de outono

supermercado distante

o meu coração bate mais rápido ao pensar em você.

b)

neve nos campos de inverno

música de pássaros

um carro que passa

nós dois

juntos

c)

Canal da Mancha
Mar da Irlanda

Oceano Atlântico

Nada pode nos separar agora

Aulton Place London SE11

há uma casa

paraalém da muralha de fábricas

onde as pessoas vivem por trás de cortinas fechadas

Manteiga de Amendoim

espalhe a palavra

espalhe manteiga de amendoim

fica tão bem com tudo

Lumsden

Sentado em uma montanha

Bebendo café

Nuvem acima

Névoa abaixo

Gravidade

A gravidade é uma coisa útil

Ela faz o mundo girar

Ela mantém as estrelas lá no céu

E a gente aqui no chão

O Mar

O mar é verde

E cinza e azul

E muito grande

Diário

em maio

compramos papel higiênico

às dúzias

A Condição Humana

Cure a acne e os cravos

com a condição humana

Desenvolva confiança

com a condição humana

Seja o primeiro da vizinhança

com a condição humana

Tomates

Estou cansado

de tomates fritos

que sempre soam o mesmo

aquele estouro na gordura

e então a queda silenciosa

no meu prato

Água Rio Mar

a água

do rio

sempre flui em direção ao mar

Ode à Ferrovia Inglesa

Norte

Sul

Leste

Oeste

Qualquer trem que preste

Pepino

quando

ela respondeu ao telefone

eu

me estiquei no chão

e

coloquei fatias de pepino

sobre

minhas pálpebras

Para Além da Muralha do Sono

Aquelas mãos familiares

Vastas e silenciosas

Contra um céu escuro

Sem controle

qualquer um que já escreveu algo escreveu demais

as palavras somente podem tangenciar o que deve manter-se não-dito

Stoke Newington

a subjetividade floresce

entre xícaras de café

e murcha quando a garçonete

vem esvaziá-las

Swingin London

Eu vaguei por essa cidade

vezes demais

cara vazia

coração quebrado

Pôr-do-sol Sobre Richmond

a silhueta de um rinque de patinação

congelada contra o céu

Grove Road E3

a primeira bomba que voou sobre Londres

caiu aqui em 13 de junho de 1944

esparramando água

ponte de Londres

o Tâmisa

Rua Wells Depois de Entardecer

vento

lixeira

a proteção de fibra de vidro de um supermercado

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Dedicatória em meu livro #ostentação

4 pensamentos sobre “Meus Heróis Não Estampam Selos: Stewart Home

  1. ei arthur, legal o post, mas faço uma precisão: a exposição ‘Um espaço para a contracultura inglesa’ não mostrou trabalhos de arte do Stewart. eram trabalhos meus a partir da obra escrita dele e um trabalho em vídeo dele comigo (Pornô), além de toda a nossa correspondência, a presença dos livros e discos dele e a ocorrência de conversas no espaço expositivo (a primeira com a presença dele e as outras sobre punk, reclaim the streets, editoração independente e a ideia de assalto à cidade). o livro Greve da arte/Manifestos Neoístas foi uma das ações da exposição, e eu cuidei de todo o projeto editorial em diálogo com vocês na editora, como parte do meu projeto artístico. sobre o Buceta, o processo editorial foi posterior à exposição e foi muito legal (criação do vale-livro para levantar grana para a impressão, a palestra com o Platão Modotti, o show do Rattu Mortu – esqueci como escreve). mas depois de tudo pronto desanimei um pouco da publicação do livro… tenho o boneco aqui, revi dia desses, um dia isso circula… beijos,

    • eu realmente achei que dentro do espaço da tua exposição tinha passado os vídeos dele também. E realmente, a movimentação pra publicação do Buceta foi algo muito bacana mesmo. Oque importa de fato tá lá no post: vc foi a mais ativa eempenhada divulgadora da obra do fera no Brasil!😉

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