Anaquismo

Fragmentos de uma História Política Subterrânea Sul Mineira I

Nem tudo foi normalidade, café bão e pastel de farinha de milho gostoso no Sul de Minas. De redutos integralistas (Ouro Fino foi a cidade com maior densidade de militantes integralistas no Brasil!) até pequenos redutos de italianos anarquistas no início do século, o Sul de Minas tem boas histórias de dissidência política – à esquerda e a direita, é bom frisar – que merecem ser contadas. Isso pra não falar dos quilombos, como os da região de Lavras e Três Corações! Mesmo a história das primeiras greves na região, no fim dos anos 1980 (e nego tinha que ter MUITO culhão MESMO pra fazer greve por aqui no período) e das Pastorais e quetais merece uma recapitulação por parte das novas gerações.Faz parte de um esforço maior de mitigar o mito fundador do brasileiro como “ser cordial”. Aqui também se lutou e se luta – é bom que se diga.

Sem muito rigor e nem colocando prazos, vou tentar desencavar alguma dessas histórias. A primeira, graças a minha sanha de acumular documentos, livros e revistas, parte de um achado de meus arquivos.

‘Nossas balas são para nossos generais’ – trecho d’A Internacional na versão anarquista.

cartaz_ULMG2

(esquerda) panfleto da ULMG usado em panfletagens em toda a região; (direita) envelope de carta recebida em junho de 1995.

Era início de governo FHC e a classe média se esbaldava na paridade do real com o dólar. Lojas de bugigangas ianques proliferavam na cidade. O quartel ainda mantinha alguma sombra onipresente no cenário das mentalidades locais e era uma opção de emprego estável muito mais presente nas periferias do que o trabalho de peão de fábrica – que, de fato, se dissemina e solapa a influência do quartel nas periferias um par de anos depois. Pouso Alegre vivia sob a ditadura do pequeno capital local e a mesma dúzia de famílias de sempre dava as cartas na cidade. Pra se ter ideia, longe de se “integrar” na política regional, o PT ainda era uma ameaça vermelha na guerra por corações e mentes na região e ser chamado de petista era sinônimo de subversivo, não de “ladrão’ ou ‘corrupPTo’ como transformaram a partir da imprensa no século 21. Outros tempos mesmo.

Pra que a garotada sinta o drama: se você andasse de skate na rua e um PM não fosse com a tua cara, eles apreendiam teu skate e um responsável tinha que retirá-lo na delegacia. Skate era na pista de skate e ponto. Mas até aí, tudo ok: skate na cidade era mais um dado contracultural umbilicamente ligado à contracultura punk – não tinha a menor assimilação midiática e Charlie Brown Jr não existia. Resumindo: skate te tornava mais pária na sociedade, tal qual a cultura punk, e não o “integrava” como um cara “cool”, bacanão. Mas punk naquele tempo também era uma subcultura de esquerda radical em todo o sul de Minas, não uma onda de meninos brancos de classe média reacionários, como se tornara o punk no início do século 21 em Pouso Alegre. Voltemos ao assunto.
Punk era anarquista na nossa roda e ponto – por mais que poucos tenham tido contato com uma única linha de Proudhon ou Bakunin. Era quase que um dado atrelado. Obviamente, a intensidade com que as pessoas se sentiam “anarquistas” encontrava tonalidades e acentos. Pra uns tava próximo do “Anarquia oi Oi!” do Garotos Podres; outros entendiam anarquia como contracultura, faça-você-mesmo, a moda de um Cólera; e uma pequena parte já ia de cabeça no Dead Kennedys, por exemplo, e começava a pensar política local e global com mais afinco. É desse caldeirão que surge a U.L.M.G e seu braço União Libertária Sul Mineira, que assina o panfleto da esquerda na imagem acima.

Obviamente, era algo muito precário, sem muita sistematização ou organização. Por exemplo, esse panfleto aí de cima, fora enviado de Três Corações pra nós, com a sugestão de que xerocássemos e distribuíssemos na cidade. Sem finalidade, sem assunto demarcado, sem preparação, nada. Anarquia mesmo – naquele sentido que teus avós provavelmente usam.

Se não me falha a memória, juntamos uns parcos trocados, imprimimos umas 200 cópias e lembro de distribuir, no ponto final de ônibus, no período da tarde, depois da aula de educação física, com o Paulo Punk (“Sujão”, alcunha que ganhara anos depois em São Paulo, e primeiro straight edge da região), o Luizinho “Tiquinho” (baixista do lendário Puro Lixo) e um fera que depois se mudou pro interior de São Paulo e me foge o nome. Minhas lembranças acabam aí. Não lembro de maiores efeitos, de conversar com as pessoas para quem distribuímos panfletos… nada! Acho que a ação insurgente acabou aí. E te falar? Já era adrenalina pra caramba pra um moleque de 15 anos!

O envelope lá de cima, de correspondência (e eram muitas – cheguei a enviar uma média de 3 cartas sociais – 1 centavo cada! – por dia durante meses a fio), era a missiva de um dos caras “mais velhos” (e mais velhos significava que ele devia ter uns 17, 18 anos) com quem me correspondia da rede libertária regional, o Jorge, de Lavras. O endereço ainda é da minha primeira residência em Pouso Alegre, onde fora vizinho do Paulo Punk do parágrafo acima. Posso estar errado, mas acho que o Jorge estudava já na UFLA – o envelope da carta, pelo que está impresso em suas costas, parece ser um exercício de Biologia. Nessa carta, recebida um ou dois meses após nossa “audaciosa” panfletagem de horas (ou seriam minutos?), trazia um conteúdo mais interessante e muito sintomático do espírito libertário de então:

cartaz_ULMG

“O desejo de formar uma colônia anarquista”!! Que tempos! que aspirações!  Convocação com menos de um mês de antecedência!! Pra se ter ideia, essa vontade de parte da molecada que acabou, precisa dizer?, virando uma aventurinha mutcho loca que deu em neo ripongagem, brigas homéricas e morte por afogamento depois de chapações mil em um sítio que durou coisa de um ano, acabou marcando também o desmoronar da organização. Uns queriam curtir a natu, o cogu, aquele pique “drop out” sessentista; outros ‘cresceram’ e foram cuidar de suas vidas, estudar, namorar, casar, procriar etc etc; uns passaram a levar política pra outros encaminhamentos, com outras colorações, e ainda teve quem voltou ao lar mais confortável da contracultura punk/hardcore.

“É hora de amadurecermos perante a realidade desse fim de século e praticarmos o anarquismo em sua essência”. Bom, “amadurecimento” e busca por “essência”, ao meu ver, não costuma dar em coisa boa. Mas, ali em 1995, aquilo mexeu com minha cabeça. Como seria essa comunidade? seria melhor que o opressor ambiente familiar e escolar? Que tipo de luta se daria num lugar que todo mundo é igual e “livre”? Eu ainda vou encontrar (e publicar aqui) alguma correspondência que trate desses meus questionamentos de então, porque era um debate muito franco, bonito, de um idealismo ainda intacto, sem corrosões do embate com a realidade mais dura da vida adulta.

Eu não fui nessa reunião, mas, pelo que me foi relatado do que aconteceu lá, se historiador o fosse, usaria o dia 25 de junho de 1995 pra marcar o fim dessa micro-micro era libertária na região. O que se pretendeu movimento, com gente em cidades como Pouso Alegre, Poços de Caldas, Lavras, Luminárias, Brasópolis, Três Corações, Itajubá, Cristina e outras que me fogem agora à memória, virou um sinalizador ao menos de tendências individuais que cada um exercitaria a partir de então. Mas isso é papo pra outros posts.

“Abraços libertários”.

11 pensamentos sobre “Fragmentos de uma História Política Subterrânea Sul Mineira I

  1. Arthur, só esqueceu de dar o nome dos três autores do panfleto que você citou. Sinceramente, acho legal você contar a história, mas esta versão tem um monte de buracos a serem preenchidos.

  2. Tutu, sem querer ser cabotino, mas sendo, quem escreveu, diagramou, xerocou, distribuiu aquele primeiro panfleto fui eu. Nós aproveitamos a última reunião em Alfenas e circulamos muitos deles pela região. Não existia a ULMG na época. Era União Libertária Sulmineira. Quem deu a sugestão de transformar a ULSM em ULMG foi o pessoal de Juiz de Fora e do Rio.. A sede permanecia em TC.

    Sempre que o texto for simples e direto, saiba que o panfleto é de Pouso Alegre. Essa era uma preocupação nossa. Outra coisa importante, a letra da máquina Olivetti é daqui também, era a máquina do Lauro. Carregávamos essa máquina pra todo lado. Nós panfletamos isso em 1993. Lembro com certeza que estavam eu, Lauro, Porva, Gilson, Bago e acho que o Herlon. A imagem eu retirei do livro Anarquistas e comunistas no Brasil, do John W. Foster Dulles, veja só, brasilianista, filho de um dos artífices da Guerra Fria (secretário de estado americano e um grandiosíssimo filho da puta). Ou seja, livro de brasilianista, com toda carga negativa relacionada ao termo. O cara

    Quando começou esse papo de colônia anarquista já estávamos com um pé fora da organização. Eles eram o máximo, mas hippies demais para nós e inocentes demais. Eu convivia com gente da CUT desde que nasci, sabia que aquilo ali era mais hippongagem do que algo verdadeiramente combativo.

    Por fim, algo que estremeceu a minha confiança nos grupos anarquistas organizados foi nossa prisão, em 94. Os grupos anarquistas (Como o CEL, do Rio, a JuLi e o COB) adoravam bater no peito e nos mostrar sua autoridade moral e solidariedade aos oprimidos nos textos, não mostrou a menor coragem em nos ajudar e defender.

    Os relatos de abuso policial e militar após nossas prisões era imenso. Pedimos uma força, alguma sugestão legal, e nada. Nós éramos crianças, e os caras não nos ajudaram. Aliás, nem parabéns eu recebi. Olha que eu rodava o sudeste, fazia reunião, visitava tudo que era espaço anarquista. Ia na Praça Afonso Arinos em BH, show de banda punk em todo lado, reunião com gente da SomaTerapia, seminário, eu me dediquei a essa causa. A disciplina anarquista me fez ter hábitos e auto-policiamentos que eu carrego até hoje.

    Eu cheguei a sofrer batidas semanalmente. Ninguém foi solidário. O pessoal do Bigorna pediu pra que nós ficássemos na encolha. Curiosamente, quem nos apoiou foi o pessoal que gostava de som na cidade, militantes que não eram dissidentes. Olha que em nome da causa, passamos todo tipo de material. As maiores bobegens, inclusive. Circulei abaixo-assinado para homem bomba japonês e o cacete. E nada era muito melhor do que nós fazíamos. Tudo era tosco, impositivo, violento, moralista.

    Outra coisa, nunca aderimos às causas da molecada. Você não verá um panfleto em nome da ecologia ou em defesa dos animais que tenha sido feito por mim, O pessoal até se preocupava com isso, mas eram os outros caras, que defendiam os animais do horto florestal. Eu, honestamente, não me preocupava tanto com isso. Lá em casa tem uma pasta com os recortes de jornal. Era zapatismo, conflitos internacionais (Ruanda e Balcãs), MST e coisas mais de cultura.

    Aprendi muita coisa com o pessoal mais próximo e tenho muito carinho por todo mundo que esteve na ULMG, mas não acho nada daquilo glorioso. Aliás, pelo contrário, acho que toda relação social baseada na virtude uma cascata. Compartilhar um ideal não criou solidariedade entre o anarquismo nacional e a ULMG. Ao contrário do que o panfleto diz, sempre alguma relação hierarquíca e de poder existe em coletivos políticos ou pretensamente políticos.

    Quando eu tinha uns 17 ou 18 anos, ainda achava que o anarquismo tinha um sentido cultural forte, ajudava uma “cultura de resistência” (tá aí um termo que não significa nada), mas não tinha mais nada a ver com essa militância. Honestamente, passou, ainda bem.

    O que ficou foi um modo de se portar frente ao mundo, disso eu não me livro, nem que eu queira.

    PS: Desculpe-me pelo tamanho do comentário …

    • incrível, Tiago!!

      essa história da máquina de escrever é muito importante até pra identificar autoria dos textos.

      Esse panfleto foi achado em minhas coisas dentro de uma carta do Fernando BU – aliás, acho que vou digitalizar as 7 cartas que achei aqui do período. Não falava de autoria nem nada, tinha apenas um recado curto, pedindo pra xerocar, panfletar e depois contar como foi. O envelope (que era da empresa de rações onde o Cebolão e o Iuri trabalhavam), é de jan.95.

      Incrível essa história toda. Vou tentar subir os Boletins Unificados que eu tenho (são 3 apenas) aqui no blog.

      Valeuzaço!

  3. Fera, só mais alguns dados. Quando a coisa começou a esquentar aqui, os skatistas eram mais tigres e não tinham nada de politizados. Nadinha de nada mesmo. A política vinha de outros cantos. Mais, a União Libertária Sulmineira não era um braço da ULMG, ela era A ULMG. Esse nome veio depois, por volta de 1994. Até então era tudo união libertária sulmineira. O grupo foi fundado em Três Corações, que tinha anarco-punk muito antes de Pouso Alegre. Nós éramos outra onda, menos metal da Earache e mais punk-hc e pós-punk mesmo. Acredito, inclusive, que os caras que fundam a ULMG são uma segunda geração de punks de TC. Eles se juntam aos metaleiros de Machado, Carmo da Cachoeira e com Anarco-Punks de Alfenas, Luminárias e tal. Em Varginha, eu só lembro do Vitinho, em Poços, era uma turma mais tigre que nós conhecemos antes da ULMG.
    O pessoal se conhece por conta de uma visita dos anrco-punk-hippies de Alfenas à cidade. Era a primeira vez que colava aí, algo que não existia antes: Punk de visual. Nós não nos fantasiávamos até esse ponto. Era camisa de banda e roupa zoada, mas nada muito fora dos parâmetros da normalidade. Aliás, outra coisa que veio com esse pessoal era uma certa ética hippie, com amor livre e incentivo à bissexualidade. Nós éramos moleques machões que achávamos todo mundo na cidade racista e filho da puta. Isso aconteceu antes da eleição do FHC.

    Era o período Itamar, com toda a farra (custosa para o país, diga-se de passagem) da paridade dólar e real. O FHC só entrou no poder dois anos depois, em 1995. O que rolou de importante em 1993 foi o plebiscito da forma de governo. O PT, aliás, teve sua primeira vitória nacional (contra o Lula, que era parlamentarista): que foi a vitória do presidencialismo.

    Mas começava uma certa crise no emprego que se tornaria mais visível na segunda metade da década. Mas o ódio de classe era presente e a precariedade da vida também. Os fantasmas da ditadura apareciam toda hora pra nós, até o dia que pegou nos nossos pés.

  4. Pingback: Fragmentos de uma História Política Subterrânea Sul Mineira II | Big Mouth Strikes Again!

  5. Pingback: Fragmentos de uma História Política Subterrânea Sul Mineira III | Big Mouth Strikes Again!

Os comentários estão desativados.