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A Gênese De Um Velho de Câncer

(+Soma 15. 2011. Velho de Câncer – depois ainda apenas “Velho” – foi uma das melhores bandas punks a surgirem no século 21 no Brasil. Timbres espertos, personalidade e urgência e pouco respeito por modismos ou demandas temporais. O que mais querer de uma banda punk? O grupo acabou por um único motivo: ao contrário do que declara na entrevista, Zé Ulisses”encontrou” Jesus: hoje, em carreira solo, faz rock evangélico com o nome de”Ulisses” e lançou um álbum chamado “Levanta e Anda”. A nova fase dele, caso tenham interesse, pode ser escutada aqui. Essa contigência da vida não muda em nada a qualidade de sua banda anterior e arriscaria mais: adiciona uma dramaticidade e urgência existencial a flor da pele)

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De antemão, um aviso: se você nunca sentiu “raiva espiritual”, é desaconselhável continuar a leitura. Dito isso, comecemos. Existem assuntos que cabem melhor no campo da mitologia, do folclore. O Velho de Câncer, formado em 2006, uma das melhores bandas brasileiras de hardcore do século XXI, é um deles. Assim como Emicida, outro talento de um gênero igualmente nevrálgico, no caso de Zé Ulisses – guitarrista exímio, cronista dileto da sarjeta e da desesperança e vocalista de timbre rasgado e decidido –, o imaginário construído ao redor de si mesmo importa mais do que a averiguação concreta dos fatos, da mesma forma como ninguém se importou por muito tempo com o passado construído por Joe Strummer. Narradores de suas próprias vidas, esses tipos de músicos dão eles mesmos a dimensão de quão pertinente é a performance de seus discursos.

Sair para farrear com Zé Ulisses é fundamental para entendê-lo: em voo rasante por ruas e bares obscuros da boemia portoalegrense, o jovem punk rocker de 25 anos concentra as atenções de conhecidos e incautos; bebe e fala em doses/volumes graúdos; tem acessos de ternura para com os seus ao mesmo tempo em que pragueja contra o mundo; tempera seu conhecimento de mundo típico de estudante de História com discursos niilistas contra tudo e todos; reconta a vida de seus pares com um esmero que dá às situações mais impossíveis verdade e profundidade; chama a atenção pelo aspecto corpulento e marcado por tatuagens horrendas (“Porra, sabe qual meu apelido? Porta de banheiro – meus alunos falam que eu sou grande e todo riscado”). Tudo nele é hiperbólico e parece empurrá-lo adiante numa espiral que junta rancor, desesperança e um tanto de reflexão. A seguir, com raras intervenções, o que se tem é a teogonia de Zé Ulisses, contada por um dos velhos de câncer típicos de certa classe média urbana que subverteu apatia e alienação em algo muito superior: música sincera e inspirada.

 

Conta aquela história do seu irmão mais velho, primeiro desajustado, depois crente…

Pô, cara, meu irmão sempre foi um cara totalmente perdido. Desde que minha mãe morreu, ele ficou malucão, começou a usar droga e o escambau. Ele foi tudo: clubber, skin, rockabilly, regueiro, do hip-hop. Daí um dia tava muito louco e acabou parando numa igreja, onde tá até agora. Só que a parada foi maluquélvis. Meu irmão é daquelas pessoas que são conhecidas pelo nome na Cidade Baixa (bairro boêmio da capital gaúcha), de treta e o caralho-a-quatro. Faz três anos isso, mas rolou muita treta. Pra ter noção, até eu tô lendo a Bíblia – mas fique tranquilo, é pra sacar o barato.A esposa dele morreu há duas semanas, minha melhor amiga, e adivinha de quê? CÂNCER! Daí vi que quem tava com ele nessa parada era nego com Bíblia na mão e amizade no coração. Os anarcorockers, revolta mamãe-com-Nescau, que eram os caras que colavam com ele, no máximo foram ao velório, e de má vontade. Hoje meus amigos são na maioria crentes, mas, pô: quero dar risada e andar com gente que não bate nas costas e depois te passa o rapa na esquina.

 

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E aquilo de ser o gordinho bobo da escola etc?

Eu moro do lado da minha antiga escola de primeiro grau. Eu era gordinho, é aquele lance: pai durão, sem mãe e irmão doidão. Então era um saco, só que eu era um pouco grande pra minha idade. Dai a única coisa que me deixava feliz era ouvir Misfits no walkman. E, se os moleques na escola eram playboys, eu ia ser punk. Mas na minha escola ocorreu o oposto de filme de sessão da tarde: uma vez foram “porrar” um colega meu, viadinho, e eu fiquei puto, soquei uns moleques e enfiei a cabeça de um deles na privada. Daí os nerds da escola acharam foda, e a gente criou uma gangue de gente torta e zoada. Você tocou em outras bandas.

 

O que te levou ao Velho de Câncer?

Tinha acabado de chegar de Curitiba, onde morei um tempo, passava desgosto, boa parte por rolos com amigos e garotas. O que ligava tudo isso era o fato de que para onde eu ia me sentia deslocado, inclusive na minha própria casa, como se a coisa estivesse dentro de mim. O lance do Velho é decepção com gente. Tava cansado de montar banda com fórmula, música assim, um faz as letras o outro não sei o quê. Fiz umas músicas sozinho, chamei uns amigos antigos, bem fora do círculo punk, mas que tinham raiva no coração, moravam na periferia e o caralho. O problema começou quando a banda começou a ser levada a sério pelos outros. A coisa foi para um lado que nunca se quer – me escreveram falando umas paradas pesadas etc. Sei lá se é esse o sentido da coisa. Sei que pelas músicas somos responsáveis.

 

Você me falou que tava numas de fazer um som mais emo…

Ah, mano, uns chamam de emo, eu chamo de reflexão. Tô a fim de pensar um pouco, principalmente sobre o que e como dizer algumas coisas. Acho que um monte de coisa tem de ser desconstruída, falando especificamente sobre a cena punk. Tá tudo muito bonito, e o bizarro é que vejo gente muito mais tranqueira na igreja do que no punk.

 

Ficou fácil, né? “Vamos imitar as bandas skate punk, fazer como as bandas de Washington, tocar punk 77…”

Porra, mano, o lance tá ridículo! Tá na hora da cena punk acabar e começar outra coisa. A mensagem do punk foi passada e hoje virou um estilo de vida. Me sinto tão deslocado em show punk quanto em um emprego de terno e gravata.

Duvido que haja lugar na alma de um evangélico pra “raiva espiritual”…

Lógico que não. Mas em show de hardcore você acha que tem? Eu não!

 

Então pra quem é o som do Velho de Câncer?

Eu não sei mais, cara! Não faço a mínima ideia de quem é nosso público. Quem vai nos shows aqui são nossos amigos – é algo pela camaradagem e cerveja compartilhada. A única coisa que sei é que é a minha última banda punk! A parada ainda não teve um fim, porque acho que musicalmente ainda tem algo pra fazer. Vamos gravar algo entre março e abril, temos sete sons novos [estes sons acabaram saindo na ótima compilação Conspiração Coração ao Contrário].