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Rimon Guimarães, Livre e Inquieto

(+Soma 15, 2011)

“Eu não compararia com essa geração, não sei… Cada artista tem um traço diferente, mas o que admiro no desenho dele é como ele cria, é bem fluido e criativo. Gosto das situações e de como usa as linhas. E ele é um desenhista de verdade. Eu, ao contrário dele, não me considero um desenhista, não sei desenhar como ele e admiro isso. Ele é mais solto do que eu, sou mais acadêmico.” A afirmação do jovem artista Pjota faz todo sentido em relação ao igualmente jovem curitibano Rimon Guimarães, ou simplesmente Rim, cujo trabalho de linhas sinuosas apresenta figuras dissolvidas em meio ao entrelaçamento de formas obtusas, linhas irregulares e padronagens mil.

Rim é tranquilo – nas poucas vezes que o vi parecia observar algo que não nos era possível ver. “Aqui tá tranquilo”, escreveu, quando me desculpei pelo avançar das  horas madrugada adentro. A indeterminação de seus desenhos é transposta em seu discurso. “As organizações naturais, que vão além do físico, a pura intenção de uma semente crescendo, essa imaterialidade do impulso que nos mantém infinitos” foi sua resposta ao perguntar o que era necessário para um trabalho lhe inspirar. No caso de um artista autodidata tão jovem, é natural e importante que o imponderável aja sobre seu discurso e prática.

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Como você gostaria de ser lembrado pelos que te conhecerem no futuro?
Gostaria de ser lembrado pelos meus atos, e não só por palavras. Atos de liberdade e inquietação.
Seu trabalho expressa isso em algum sentido?
Sim, em todo o processo.
Como é sua rotina de trabalho? Disciplinada ou caótica? 
Minha rotina é bem volúvel, nunca é igual – até fujo disso. A disciplina que tenho é natural, sempre estou desenhando algo ou
observando de maneira investigativa as coisas. Meu ateliê mais parece uma instalação em processo contínuo.
Sendo autodidata, como tomou conhecimento de todo esse mundo das artes, ateliê, galerias etc?
Sempre transitei nesses espaços, busco o que me instiga no momento. Tenho uma pesquisa permanente.
Alguém de sua família é envolvido com artes?
Minha mãe sempre foi criativa, fazia minhas roupas quando era criança.

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O preto-no-branco predomina, mas é a cor que o diferencia, o que imprime o traço de personalidade do autor, que a usa com certa parcimônia. “Sempre desenhei e sempre busquei me aprimorar nisso. Só de estar 99% do dia ativando essa prática, mesmo que seja desenhando em meu cérebro, já é um bom exercício”, explica o artista sulista de apenas 21 anos, assinando embaixo a máxima de Thomas Edison: “a genialidade é fruto de 1% de inspiração e 99% de transpiração”.

Acompanhar isso te influenciou de alguma maneira?

Sim, tem essa coisa de fazer com as próprias mãos, não pegar as coisas prontas, entender todo o processo industrial.

Você falou sobre pesquisa contínua. Tem algo que te interesse em particular? Alguma questão ou temática?

Estou fazendo muitas experiências com sons, composições atmosféricas. Também sempre gostei de fazer vestimentas – desenho minhas próprias roupas e às vezes lanço algo em pequena escala pra ser vendido.

Seu foco no momento é mais em música do que em artes plásticas?

Não, o lance é muito mesclado: sempre se cria uma relação. É algo de percepção, com várias vias novas e distintas.


Quais seus interesses em música?

Experimentar, descobrir, compor, ampliar, desmistificar, gravar, remixar etc.

Se eu olhasse no seu mp3 player ou iPod, o que encontraria?

Música espanhola e latina, Axel Krieger, Juana Molina, afrobeat, novos compositores brasileiros, Moacir Santos, Bonobo, Tosca Tango Orchestra, tudo do Evard. Muita coisa de vários estilos.

A produção de pôsteres e flyers é algo presente na vida de vários artistas. Como você se interessou por esses meios? Quais os critérios que usa para ilustrar esse tipo de material?

Geralmente ilustro flyers e pôsteres de festas que eu ou algum amigo meu promove. O critério é liberdade e calma.

O fato de ser negro influencia de alguma forma seu trabalho? Para você, isso é um assunto a ser discutido em uma pintura?

Na realidade, sou uma grande mistura, como a grande maioria no Brasil.

Sou um pouco índio, africano, italiano, português – não consigo especificar ao certo. Curitiba, acima de tudo, é uma cidade brasileira, mas com muitos gringos que fugiram de guerras e situações desconfortáveis em seu país de origem. Racismo tem sido um problema tão bobo no mundo inteiro… Ainda mais no Brasil.

Qual é a mistura, no caso? Curitiba é conhecida pela migração europeia e tem fama de ser uma cidade bem racista.

Sou um pouco índio, africano, italiano, português – não consigo especificar ao certo. Curitiba, acima de tudo, é uma cidade brasileira, mas com muitos gringos que fugiram de guerras e situações desconfortáveis em seu país de origem. Racismo tem sido um problema tão bobo no mundo inteiro… Ainda mais no Brasil, onde tem essa mescla maravilhosa.

Você participa do Interlux, um coletivo formado por pessoas das mais variadas áreas que criam arte interativa. Qual o propósito de vocês? Essa formalidade dos museus e galerias, sobretudo daquelas em que há uma separação rígida entre obras e espectadores, te incomoda de alguma forma?

O Interlux, além de interagir, é vivencial. Creio que espaços expositivos têm que ser livres pra manifestações totalmente novas e desconcertantes – é bom que tenha uma mutação no espaço de acordo com o que o trabalho vem discutir, e que essa discussão seja pertinente à quebra de formalidades tradicionais e provincianas. Às vezes, o que me incomoda é a posição do artista de abaixar a cabeça diante dessa imposições.

Conta como você se juntou aos outros três sócios do estúdio de criação Banzai. Onde se conheceram? Como é o mercado em Curitiba?

Conheci o Luan na escola, morávamos perto, e o Thales e o Fernando através dele. O mercado é morno e raramente busca algo novo. Trabalhamos com a OUS, marca curitibana de tênis, MTV, Nike etc.

É comum que artistas façam trabalhos direcionados à publicidade, com finalidade comercial imediata. Você fez um trabalho para a Nike, por exemplo. Existe diferenciação entre trabalho para publicidade e para galerias etc?

Claro! As questões são outras, mas é só saber como se trabalha. Na publicidade há muitas limitações de clientes, às vezes. A galeria, em tese, seria um espaço de arte mais livre para mostrar o trabalho pessoal. Tem gente hoje que acha que vai pintar um ou dois muros e já vai expor em galeria.

Como foi para você alcançar certa notoriedade, ir para exposições, galerias? Isso te assusta? O que se alterou na sua visão de mundo e na sua rotina com tudo isso?

Foi natural – com 17 anos já estava expondo. Antes disso já pintava. Claro que o raciocínio e a visão de mundo se altera naturalmente quando se decide viver disso. Na real, é um lance de adaptação, depende das coisas que vão se apresentando na sua frente. Acho que essa mudança é sempre pro bem, sempre pra cima.

Seu trabalho encontra certo parentesco com alguns nomes de destaque na cena de arte urbana nacional. Mas, ao contrário da maioria, que parece planejar meticulosamente a disposição dos elementos na tela (na rua sempre é mais livre, penso eu), seu traço é muito solto. É como se não respeitasse nunca a ideia do esboço, tem uma indeterminação no ato em si.

Sim, meus desenhos falam coisas que eu não sabia, muitas descobertas e novos ângulos.

Rimon

Lembro da parede que você pintou com a Nina Moraes em Porto Alegre: pintava, preenchia uma parte do rascunho, começava uma nova linha e parava, observava, depois continuava. É como se tivesse uma ideia inicial, mas que se transformava na ação, por isso suas formas parecem mais livres, menos arquitetadas.

Tem muito o lance de auto-observação nas composições visuais e também nas reflexões filosóficas e espirituais, e ambas acabam se ligando. Isso é muito rico e fértil, acabam surgindo consciências aleatórias e ao mesmo tempo providenciais.

Rimon começou como todo garoto: desenhando distraído na sala de aula, observando revistas em quadrinhos e o grafitti nas ruas, e muito rapidamente passou a espalhar seus trabalhos em desenhos colados na rua. Poucos fizeram tão rapidamente a transição para galerias e museus, em exposições como a individual Madrugada, na Galeria Polinésia (SP) e a Volúvel – em parceria com o artista Pjota, no Museu de Arte Contemporânea do Paraná e na Transfer, no Santander Cultural, em Porto Alegre. Os poucos tons e mesmo a disposição e formas de elementos da natureza de um artista botânico como Ernest Haeckel encontram reflexos em seu trabalho. Mas é a chamada arte primitiva que move seus desenhos. A liberdade e inquietude da juventude sintetizam uma poética em que a aparente simplicidade, ingenuidade e inobservância dos padrões eruditos esconde um trabalho que ganhou um refinamento absurdo em pouquíssimo tempo. Tudo diluído num frenesi de linhas tortas.

Creio que espaços expositivos têm que ser livres pra manifestações totalmente novas e desconcertantes – é bom que tenha uma mutação no espaço de acordo com o que o trabalho vem discutir, e que essa discussão seja pertinente à quebra de formalidades tradicionais e provincianas.