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Apo Fousek Na Contramão

(+Soma 7, com colaboração de Tiago Moraes. setembro/2008)

 

“Tem gente que chega e fala ‘Ah, você é artista urbano’. Não, eu não sou um artista urbano! E aqui é uma coisa muito ligada ao grafitti. Teve uma época que eu ficava até puto com isso, porque se você não é grafiteiro, você não é artista, pelo menos no meio da arte urbana. E como eu tinha formação de designer, havia um certo preconceito. Os caras achavam que você era menos artista ainda, sabe? Eu procurei ficar meio à parte disso, não tenho uma coisa tão formatada sobre o que é arte urbana, como existe lá fora.”

 

E assim, Apoena (Apo) Fousek, 34 anos, começa uma série de quebras de expectativas. Para este artista paulistano, nada é o que parece ser, e seu gosto pelo desafio fez com que ele abandonasse os tons pasteis que o caracterizavam e recuperasse uma perspectiva mais livre e colorida de seu trabalho.

Fale uma pouco da sua última exposição, Some Things.

Na verdade, essa exposição é uma espécie de resgate. Teve um período, de 1989 a 92, que era ligado à customização das capinhas de fitas cassete, uma coisa mais livre. Depois fui migrando pro design, que tinha aquele lance mais iconográfico, e meu desenho ficou mais sintético. Isso se acentuou na faculdade, ficando meio monocromático. O trabalho dessa exposição é ligado à infância, bem colorido. Eu estou me sentindo mais “eu”, mesmo. Essa exposição é muito importante pra mim por causa disso.

 

Lembro de uma exposição tua na Rojo ArtSpace (espaço conjunto com a Livraria Pop, em São Paulo), em 2007, que era mais tom pastel etc.

Pois é, esse era o lado mais sintético. Eu considero este novo trabalho mais alegre, ele representa melhor meu momento atual.

 

E qual é esse momento?

É um momento de deixar um pouco de lado as coisas que me travavam na vida. O design foi uma coisa que me travou muito, porque eu era um cara muito rigoroso e tinha o Alexandre Wollner como ídolo. Era uma coisa meio utópica – eu queria propor este tipo de design do Wollner para o mercado de skate (Apoena teve uma marca de skate chamada Fox Force Five, além de ter criado para diversas outras marcas). Não tinha nada a ver, e eu sofri muito por causa disso. O skate é tão livre, e mesmo assim eu não consegui propor aquilo. Sofri muito.

 

Você começou a desenhar quando?

Eu sempre tive muito incentivo dos meus pais, por isso desenho desde os 3 anos. Logo após meus pais se separarem, comecei a desenhar muito mais. Também tenho duas tias artistas que me incentivaram bastante, sempre teve essa coisa de a família estar em cima. Aí fui estudar em um colégio em que as matérias obrigatórias eram artes plásticas, música e

teatro. O colégio era na Vila Madalena, se chamava Novo Horizonte. Muitas pessoas que estudaram lá hoje em dia são designers, arquitetos etc. Era uma escola “alternativa”: tinha horta, argila… Hoje em dia não tem mais muita coisa assim. Depois estudei numa escola técnica federal, onde fiz [o curso de] Edificações, e foi uma tortura para mim. Considero o colégio Novo Horizonte primordial, foi minha educação para a vida inteira.

 

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Você fez faculdade de design gráfico, não?

Fiz parte da primeira turma de design gráfico do Senac, em 2000. Na verdade, foi a primeira faculdade com curso superior de design gráfico e foi bem bacana, meio que um laboratório.

 

Você está vivendo no litoral. Faz quanto tempo que você se mudou?

Faz seis meses e estou muito feliz. Continuo fazendo meus trabalhos de ilustração, mas estou centrado 100% na arte. Nestes seis meses trabalhei basicamente com o material para a exposição.

 

Se você estivesse morando em São Paulo, conseguiria produzir tanto quanto agora?

Sim, mas não sei se teria essa coisa tão solta. Quando ficaram sabendo que eu estava indo pra lá, pensaram “nossa, agora ele vai explodir na produção”. Mas também tem um lance em São Paulo, uma tensão, não sei realmente o que é, que me influencia também. Eu vinha pra São Paulo a cada 15 dias, absorvia tudo isso, ia pra praia e produzia mais. A natureza te deixa equilibrado, mas olhar árvores e passarinhos todos os dias não me traz muitas idéias.

 

E quais são esses elementos da cidade que te renovam?

O que me interessa mesmo são as pessoas na rua, gente que dá duro para sobreviver – vejo várias soluções para alguns problemas observando essas pessoas. O mundo mais certinho, todo bacana e tal, não me interessa, não. Acho que isso também vem muito do skate, porque você fica sempre na rua e absorve. É engraçado, venho conversando isso com algumas pessoas, comparando o surf com o skate. Porque eu acho que o pessoal do skate é muito mais criativo, devido a toda a energia da rua. Você acaba produzindo um pouco mais, e eu tô tentando achar o meio termo disso tudo.

 

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Uma característica bem forte no trabalho de Apo Fousek são os desenhos e a palheta de cores, que remetem diretamente ao trabalho gráfico de artistas ligados à música independente dos anos 1990. O imaginário de seus quadros é permeado por questões prosaicas, nos convidando a conhecer um pouco de sua rotina, de seu estilo de vida. Apoena preencheu uma dúzia de garrafas de vidro com elementos retirados diretamente de sua vida diária na praia, remetendo tanto à sua rotina mais trivial como a lembranças ternas. E os rótulos apresentavam nome de músicas de grupos que escuta diariamente. “Tem uma garrafa, chamada “Paper Dreams”, nome de música do [grupo de hardcore paulista] Sight For Sore Eyes, que foi preenchida com todo o papel picado nesses últimos seis meses. Uma outra é preenchida com casca de laranja seca, e se chama “Emily”, que é o nome da minha avó, porque ela fazia chocolate quente com laranja e isso marcou minha infância.”

Perguntamos sobre umas barras verticais recorrentes em alguns quadros. “Sei lá, talvez seja uma vontade de romper com algumas coisas.” A qualidade de sua obra reside justamente essa leveza e ternura que caracterizam o próprio Apoena, com sua fala mansa, modos educados e uma timidez flagrante.

 

As fitinhas que você fazia eram um embrião desse teu lado designer. Como era esse trabalho? Você tentava reproduzir as capas?

Tinha uma época em que eu tentava reproduzir, mas nunca consegui copiar, tenho um problema enorme em copiar – nem minha assinatura eu consigo reproduzir da mesma maneira. Então eu criava em cima, ouvia o som, e era uma época muito rica. Andava muito com o [skatista profissional] Geninho. Sempre quando saía algum som novo a gente pirava, e era meio paranóico, porque se tinha alguém escutando outro som, a gente fazia a pessoa parar de escutar e escutar o que a gente queria. Então a gente era bitolado em música, e até hoje, eu acordo cedinho e já ponho um som. Escutava muito Jane’s Addiction, Pixies, Dinosaur Jr., Firehose, Flaming Lips – bandas que ouço até hoje.

 

Qual foi a influência de artistas que vieram do skate, como Ed Templeton e Mark Gonzales? Isso mexeu com você também?

Sim. O Templeton marcou muito quando começou a expor, em 1994. Aqui no Brasil isso era impossível, não havia espaço nenhum para expor, nada. Me chamava muito a atenção a maneira livre com que ele lidava com as coisas. Ele tinha sua marca (Toy Machine) e expunha tudo aquilo livremente. Na verdade, o Mark Gonzalez não me influenciou muito, ao contrário do Natas Kaupas, que eu curto muito. Tem uma coisa de influência e de referência também. Gosto do estilo de vida de algunscaras, mas não curto tanto o trabalho deles.

 

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Como quem, por exemplo?

Tem o Antonio Dias. Vi um artigo sobre ele outro dia e me identifiquei total com o cara, e o trabalho dele não me cativa tanto. O Alex Fleming também – curto o pessoal mais contemporâneo, que tem a ver com o mundo do skate e do surf. Também tem a Claire Rojas. O Templeton hoje já não me cativa tanto, mas, na época áurea da Toy Machine, ele me chamou muito a atenção.

 

Você se considera parte de algum movimento de arte?

Não. É uma coisa até engraçada: lembro que na época do skate eu quis fazer parte daquele movimento e não conseguia. Uma época tentei fazer parte do surf, e aí vi que não era pra fazer parte de nenhum movimento. Era melhor ser um cara neutro, poder absorver um pouco de tudo.

 

No momento o que você é: skatista, surfista ou artista?

(Risos.) Não sei cara, não sou nada, prefiro não me rotular. Curto muito skate, mas já faz um tempo que eu não ando. Voltei a surfar também, fiquei parado de 90 a 2004 por causa do skate, agora deixei de andar de skate e voltei a surfar. O pessoal acha meio estranho, tipo “pô, você é surfista e não tem tatuagem?”

O que de mais importante você trouxe do skate e do design gráfico para a sua arte?

Do design, o que eu mais aproveito hoje em dia é a capacidade de não cair na mesmice. Você tá sempre se reformulando e tem o olhar mais crítico e apurado sobre as coisas, sabe? Acho que pode ser da pessoa isso, mas eu acho que o design me ajudou muito. Mesmo nesta exposição, que é uma coisa mais livre, existe um projeto por trás, um contexto. Isso é uma coisa que o design me oferece. Eu tava falando com um galerista, e ele falou “pô, você tem um lance que grafiteiro não tem pra desenhar uma exposição”. Do skate, eu acho que é essa riqueza toda, de um universo que eu vivenciei por mais de 20 anos.

 

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Saiba Mais:

Apo Fousek

Entrevista com o artista aqui.