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Kamau e o Império de um Rapper Só

(publicado originalmente na revista +Soma #7, setembro de 2008. Colaborou Tiago Moraes)

(Kamau desde o final de 2008 já produziu um monte de coisas novas, novos clássicos do rap brasileiro, a bem da verdade. Algo que fica muitas vezes subentendido mas que é bom que se diga com todas as letras é: essa nova geração vitoriosa do rap nativo, de Emicida, Rashid e outros, não seria a mesma se não tivesse contato – e influência – do rapper do Tucuruvi, Zona Norte de São Paulo. E tenho dito!)

Na faixa introdutória de seu novíssimo trabalho, o primeiro em carreira solo, Marcus Vinicius Andrade e Silva, 32 anos, conhecido nacionalmente como Kamau, declara: “eu escuto vozes”. A faixa segue, e as tais vozes vão surgindo uma a uma – questionamentos sobre sua vida, ecoando como se fossem assuntos recorrentes e incômodos ao rapper. A resposta é instantânea e vem na forma de colagens de trechos clássicos do rap nacional, reafirmando a idéia de que o MC escolheu um caminho e dele não se desviará. Qual é esse caminho? O de um rapper ciente de seu próprio trabalho e disposto a construir uma história singular na música atual. “Agora tô sozinho na caminhada, falando mais na primeira pessoa. O disco é mais eu trocando uma ideia comigo mesmo. Mas não é exatamente um disco autobiográfico”, explica Kamau.

O rapper e produtor, que passou no vestibular para Matemática na Unesp de Rio Claro (“Em décimo lugar”, conta, orgulhoso) abandonou o sonho universitário para dar vazão ao skate – onde construiu uma carreira profissional – e ao rap. Em uma primeira audição do seu novo trabalho, Non Ducor Duco, a auto-análise de Kamau soa tão intensa que pergunto se o disco é de certa forma um descarrego. A impressão fica mais evidente na faixa “A Quem Possa Interessar”, que conta a história de uma pessoa que passou no vestibular. “Essa é menos pessoal, me inspirei em várias pessoas. Tem um trecho livremente inspirado no meu irmão, que trabalha e tá feliz com isso, a outra é inspirada em um cara que estudou comigo, estudioso, fazia tudo direitinho e passou em Arquitetura na USP. E a terceira parte é para as pessoas que realmente gostam de rap, que paravam pra perguntar quando ia sair o disco etc. Teve gente que falou que esse som era um pedido de desculpas por ‘Poesia de Concreto’, porque ali nesse som eu dizia que você tem que fazer só o que gosta etc., e agora falo de gente que tá feliz fazendo coisas que nem gosta tanto”.

Produzir um disco solo, independente, já não é fácil para uma banda. Imagino que sozinho seja pior ainda. Escrever, produzir, gravar, mixar, masterizar, pensar no lançamento, nos shows… Sem falar na parte dos custos também: você acaba tendo que segurar a onda sozinho, com estúdio etc. Fale um pouco de como foi toda a preparação para esse disco.

Foi dez vezes pior do que tudo isso que você falou (risos). Do [grupo de rap] Simples eu banquei tudo também, os caras não tinham experiência nem grana, daí banquei tudo. Todos os discos que eu fiz sempre foram independentes. Eu nunca cheguei a ter proposta de gravadoras. Na real teve uma “quase” proposta, e uma da 4P que não foi adiante. Nesse disco foi tudo mais difícil, porque foi mais pensado, gravei tudo no Vander Carneiro. Quando entrei no estúdio, só tinha metade do dinheiro. E se eu não começasse logo, não ia acontecer nada. Aprendi com todo esse processo que vinha desde 2002 a divulgar o disco antes – coisa que rola na gringa, e aqui é difícil, porque a fábrica atrasa etc. Esse disco mesmo atrasou.

Quantos meses?

Quantos? Doze! (Risos.) Eu comecei a gravar o disco em maio do ano passado, mas não vinha inspiração, não conseguia escrever. Foi só quando fui pra Curitiba, na casa do [produtor] Nave, que a inspiração voltou, e acabaram entrando três bases desse período no disco. E o disco ficou pronto já faz uns três meses. Só que falta grana, eu não achava as pessoas que gostaria que participassem etc. No rap é impossível fazer tudo sozinho, precisa de gente pra produzir e gravar os instrumentos. Não sei mixar, não tenho os equipamentos em casa… Até arrumar tudo isso e aprender a fazer direito – porque eu sou chato pra caramba com isso –, já estaria com uns 40 anos (risos).

Mas você tem a ambição de aprender a fazer todas essas coisas?

Com o tempo fui aprendendo a fazer várias coisas. Desde 1997, quando comecei a rimar, já fui aprendendo a fazer umas batidas. No Simples eu produzi tudo. E o que ganhava com o skate, usava para comprar equipamento. Até contrabaixo eu tenho em casa. Mas tem coisa que eu não quero aprender senão vou ficar meio maluco. Tenho vários exemplos próximos de gente que ficou maluca. E sei que é um lance que não iria funcionar pra mim. O ParteUm sabe fazer quase tudo: toca, mixa, edita, faz a arte. O cara faz tudo mesmo! (Risos.)

O Vander Carneiro, responsável pela gravação e mixagem do disco, tem uma história no rap nacional. Fale um pouco de como foi essa experiência com ele.

Chegamos a um meio termo. A gente se conhecia porque eu tinha gravado uma participação com o Thaíde e outra com o ParteUm no estúdio dele. Eu troquei idéia com ele, e foi legal porque o Vander acabou se envolvendo no projeto, deu palpite, ficou preocupado com a qualidade do que estava sendo feito.

Que discos clássicos ele gravou lá?

Um novo clássico foi o “Raciocínio Quebrado”, o disco do Mzuri Sana, o último do Thaíde com o DJ Hum, o “Raio X do Brasil” do Racionais MCs foi gravado lá, a música “Señorita”.

Fale um pouco das participações no disco. Há uma mistura de MCs da nova geração, como o Emicida, com artistas mais velhos como o Carlos Avonts do Potencial 3, além da cantora Thalma de Freitas…

Muitas vezes, esperava as pessoas escreverem para eu fazer minha parte. Só dizia qual era o tema, ou mostrava o que já havia feito para eles escreverem a parte deles. O critério era o de proximidade, talento, disponibilidade, e como essas pessoas iriam interagir nas faixas. Na música “Resistência” pensei no Carlos Avonts, e que seria muito legal colocar o KL Jay também, e acabou que ele fez a primeira fala do som e um scratch no final. Conheço vários MCs, mas tem alguns que eu não conseguiria colocar na faixa, assim como não participo na música dos outros se eu não tiver nada para falar. O meu critério principal é pensar no que a pessoa pode acrescentar àquela faixa.

Você tem um jeito muito característico de desenvolver os temas. Há muitos MCs com uma levada fantástica, mas que não se preocupam muito com o desenvolvimento da letra. Quem você acha que combina as duas coisas?

O Brown, o ParteUm e o Emicida casam bem as duas coisas. No exterior são vários: Mos Def no primeiro disco, Common, Talib Kweli, Little Brother, Mr. Lif…

Consigo identificar algumas semelhanças com o trabalho do Common. Você manda bem no inglês né?

Eu aprendi inglês sozinho, por causa do skate. Common me influencia bastante e acompanho bastante ele atualmente. Teve um show dele que eu prestei muito atenção na postura de palco, porque ele canta sozinho, com um DJ, um tecladista e um percussionista. E o jeito como ele leva o show tá influenciando muito meu show novo.

Qual será a estrutura desse seu novo show?

Eu, o Jefe e o DJ Primo [R.I.P]. Quero levar outras pessoas, quero levar alguém pra filmar, fazer um DVD, levar um produtor. Tô tentando fazer da melhor maneira possível, ainda que no rap seja difícil ter tudo isso.

Você chamou muita gente para colaborar com a criação das batidas: Primo, Munhoz, Philip Neo, Nave, ParteUm e Suissac, entre outros. Deu para alcançar uma unidade no álbum?

Quando eu ouço uma base, penso em vários aspectos – até porque eu sei bem o que eu quero. A idéia era de um álbum, não de uma coletânea. Então tinha que fazer com que, apesar de usar vários produtores, [o disco] tivesse uma unidade. Por outro lado, quando você faz tudo com um mesmo produtor, corre-se o risco de ficar uma coisa muito parecida, monótona. O Kanye West é um produtor muito bom e mesmo assim usa outros produtores nos discos dele. Peguei a melhor opção de produtor para cada música que eu fiz. Eu indicava a melodia, os timbres. Se não tiver a minha mão no meio, tenho que saber bem para onde o produtor vai levar aquele som. Com o Nave, por exemplo, não mexi em nada. Troquei apenas o baixo, chamei o Rian do Instituto para fazer outro. Só nas produções do Fábio (ParteUm) eu não mexi (risos). Ele sabe muito bem o que faz e o que eu quero. Não iria aprovar se não tivesse do meu gosto, mas ele sabe o que eu procuro.

***

Kamau, em suas próprias palavras, tem “mania de fazer o que os outros não fazem”. Para ele, isso significa, entre outras coisas, explorar temas pouco ou não explorados pelas letras do rap nacional. “O rap tem essa linha de falar do mano que morreu, do cara que tá preso, que perdeu isso e aquilo e tá sofrendo, mas algumas pessoas não se vêem ali. É legal falar do mano desempregado, mas é legal também falar do cara que tá empregado e feliz.” Outro ponto importante é poder contar com valiosas participações, que vão desde o projeto gráfico às fotografias do novo CD. “Conheço o Gustavo [Felipe, designer do disco] desde a época que morei no interior. O Flávio [Samelo, fotógrafo e artista plástico], desde quando estudamos juntos, no ginásio. Tive sorte de trombar um monte de gente que deu em alguma coisa (risos).”

Eu tenho uma filosofia: quando você copia, no máximo vai chegar em segundo.

Eu vi em uma entrevista que você ia com o Robson [DJ Ajamu, irmão de KL Jay] nos ensaios e shows dos Racionais. Você teve a tentação de tentar fazer algo parecido com o que eles faziam no início de carreira? Afinal, é um pouco natural…

Não. Eu tenho vivência diferente da deles, principalmente… Talvez o jeito que eles falam da vivência deles tenha influenciado meu jeito de falar da minha vivência. Mas não necessariamente copiar, o que acontece bastante. O cara vê um rapper falando de Chicago e quer fazer igual, falando de São Paulo; vê um cara falando do Capão e quer fazer do mesmo jeito falando do Tucuruvi – aí não adiciona nada, só muda de endereço. Eu tenho uma filosofia: quando você copia, no máximo vai chegar em segundo.

E sobre o nome do disco, Non Ducor Duco (frase em latim que significa “Não sou conduzido, conduzo”, lema ostentado pelo brasão da cidade de São Paulo): o significado é mais do que auto-explicativo na tradução literal, mas fale um pouco sobre o porquê dessa escolha. Tem mais algo por trás disso, a ver de repente com a sua relação com a cidade de SP?

Acertou, não precisa falar mais nada (risos). Na verdade tem a ver com duas coisas: o momento – estou tomando a direção da parada –, e o fato de eu não conseguir ficar muito longe de São Paulo – nem de praia eu gosto. Em Rio Claro, na época da faculdade, só pensava em São Paulo. Nem sei quando tive a ideia de colocar o nome do disco, mas quando cheguei nela não larguei mais. E meu nome, Marcus Vinicius, tem essa coisa de imperador romano etc. Seria fácil arrumar um nome africano para o disco, por exemplo. Tenho que explicar esse nome na descrição do orkut (risos), porque ninguém descobre o porquê (risos).

O disco todo tem algum tema central, alguma coisa que amarre tudo?

Eu sou ruim de passar mensagem…

Que é isso! Você escreveu no seu blog de um cara que tava a fim de uma garota, usou uma letra tua para se declarar e deu certo, pô! (Risos.)

Se eu fosse me tornar conselheiro amoroso, não daria certo (risos). Eu falo de coisas que acontecem comigo, e do início ao fim é como se estivesse fazendo uma sessão de terapia, uma auto-análise. Tô tentando me fazer acreditar em várias coisas.

Muitas pessoas estão desacreditadas e se perguntam se o hip-hop morreu. Mas quem se pergunta isso não tá fazendo o suficiente para continuar seu próprio trabalho.

Como o quê?

Tive momentos que beiraram a depressão no processo desse disco, porque achei que havia escolhido errado. Porque eu tinha uns vinte temas, fui diminuindo, analisando até que cheguei a esse disco. E passei a me perguntar se eu conseguiria fazer algo depois – ainda bem que já tenho idéias para um EP. E eu acho que as pessoas que ouvirem o disco vão se questionar sobre o que elas querem fazer da vida. Agora o disco vai para a rua e vamos ver no que vai dar. Estamos numa época em que ninguém vende disco, não dá para saber qual será o resultado. Muitas pessoas estão desacreditadas e se perguntam se o hip-hop morreu. Mas quem se pergunta isso não tá fazendo o suficiente para continuar seu próprio trabalho. Muita gente chiou quando o [rapper nova iorquino] Nas fez um disco chamado Hip Hop is Dead, mas ninguém se ligou que a última faixa se chama “Hope” (“Esperança”). Eu troquei essa idéia com o KL Jay, e ele falou que o Nas tava errado. E eu falei dessa última faixa, onde ele fala que se alguém se pergunta porque o hip-hop tá morto é porque ele mesmo não fez o suficiente.

***

Conseqüência, Academia Brasileira de Rimas, Quinto Andar, Instituto, Central Acústica, Simples… Todos esses foram projetos com o qual o rapper se envolveu. Segundo Kamau, “a Academia já era e o Quinto Andar também. O resto tá parado, mas continua. Eu continuo envolvido com todo mundo e idéias sempre rolam”. Uma de suas facetas mais conhecidas é o trabalho como MC de freestyle. “Tentei me desvencilhar disso. Tem gente que comenta até hoje uma batalha de 2004 [contra o carioca Slow]. Eu faço freestyle no meu show, em festa da Central Acústica, mas nunca fui um MC de freestyle. Eu sou um MC, ponto. Às vezes,[no freestyle,] o cara nem liga para o que tá falando. Eu prefiro rima ‘da hora’ do que rima ‘na hora’”.  O rapper com nome de imperador sabe bem o quer de sua arte.

Non Ducor Duco é um lançamento independente. O que é ser independente para você? Qual a diferença entre ser independente e ser underground?

Eu sou independente por falta de opção – não que queira fazer algo com um monte de gente bancando. Até já tive oportunidades e tal. Não vou deixar de ser o que sou se [meu trabalho] aparecer para mais pessoas. Se eu colocar uma música desse disco em uma novela, muita gente vai dizer que eu não sou mais o mesmo. Tem gente que só quer as coisas para si, quer colocar tudo dentro de uma caixinha que só ele pode conhecer. O [MC do Little Brother] Phonte fala disso no som “Can’t Win For Losing” [do álbum Get Back, de 2007]. Vou falar um lance que nunca falei antes. O Instituto estava fazendo show no Skol Beats e o [produtor de grupos como Mamonas Assassinas, CPM 22 e Rouge] Rick Bonadio veio falar comigo. Daí eu falei que meu lance era de um jeito, e eu não mudava. Mas ele queria fazer com todo o Instituto e naquele momento não rolou. Ele chegou para o Ganjaman e falou “sei que você é produtor e não vou mexer na tua produção”. É uma questão de se impor. Se tiver alguma proposta eu vou me impor, porque a massinha já secou e ninguém vai me moldar.

Li em algum lugar que as duas pessoas com as quais você mais conversa é o KL Jay e o ParteUm. O que você aprende com eles?

Muito. Coisas pra vida mesmo. De jeito de trabalhar e forma de encarar dificuldades e facilidades. Eu conheço o KL Jay faz muito tempo, e ele nunca me facilitou nada. Eu dei o disco para ele e no outro dia ele tocou vários sons no programa dele. E falou que só fez isso porque eu merecia, porque se fosse ruim ele não tocaria. Com o ParteUm rolam as idéias mais malucas. Olha o agradecimento pra ele no disco: “Ao Fábio, por insistir em me ensinar o que eu não queria saber (risos)”. Várias coisas ele vem me ensinar, só que são tão loucas que eu falo “pode parar que assim eu desisto de fazer música (risos)”. E ele continua falando para eu aprender. Ainda que não façam exatamente a mesma coisa que eu, me espelho muito neles. O KL Jay por tudo que ele conseguiu – a 4P, o selo, a forma como ele convive com os filhos dele – e o Fábio, com o lance dele se isolar bastante. Até com isso eu aprendo.