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Siba O Mestre

(publicado originalmente na revista +Soma 5. Maio de 2008)

(Entrevista antiga – quase seis anos se passaram. A única coisa que não mudou pra mim desde então é: Siba é um dos maiores artífices da nova música brasileira. Tem 3 nomes que sempre me vem à cabeça quando penso em artistas muito acima da média da minha geração: Fernando Catatau, Kiko Dinucci e Siba. Assim, dá pra imaginar a emoção que foi pra mim fazer essa entrevista não? A carreira dele desde então só se expandiu, e ele lançou em 2012 um dos discos fundamentais, ao meu ver, da música brasileira dos últimos 5 anos, Avante. Espero que curtam!)

Um dos fenômenos da indústria musical nos anos 1990 foi a revalorização de elementos regionais, algo que atingiu proporções planetárias. No Brasil, Recife foi o epicentro dessa tendência e teve no mangue beat sua expressão maior, com grupos como Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S.A e Mestre Ambrósio – representantes da primeira fase do movimento – alcançando projeção nacional. A ideia, grosso modo, era explorar uma estética pop antenada com o que acontecia no mundo, reinterpretada segundo elementos da música regional brasileira. A maior parte desses grupos acabou transferindo sua base para São Paulo. Com Sérgio Roberto Velloso de Oliveira, o Siba http://www.mundosiba.com.br/ , ex-integrante do Mestre Ambrósio, a necessidade de revisitar suas raízes in loco, para participar de uma vida cultural riquíssima, porém desconhecida ou mistificada, foi imperiosa. Assim, ele deixou São Paulo e voltou para Pernambuco. Tudo em nome de um processo criativo que não conhece barreiras ou dogmas.

Siba, hoje um mestre de maracatu inserido na exuberante tradição da  Zona da Mata pernambucana, é filho da primeira geração urbana de sua família,  que tem raízes no Agreste. “Boa parte da família é do interior e a gente cultiva esse lado. Tem a história com meu avô, que fazia festas para reunir a família em seu aniversário, o que fazem até hoje, mesmo depois de sua morte.” Dessa herança, nasceu o gosto pela música – ainda que ele seja o primeiro músico profissional da família. “Tinha muita música nas festas da família. Meu pai gostava de cantoria de viola, Luiz Gonzaga, gostava muito de poesia popular – o que acabou despertando meu interesse por embolada, cantoria e coco”, relembra Siba. Muito em função de sua ligação com o interior e com o pai, Siba sentiu a necessidade de explorar suas raízes mais a fundo. Reuniu alguns músicos experimentados da Zona da Mata, com quem vinha mantendo relação desde sua volta à região, e formou então a Fuloresta. Com o grupo, lançou os álbuns Fuloresta do Samba, em 2002, e Toda Vez Que eu Dou Um Passo o Mundo Sai do Lugar, certamente um dos  melhores lançamentos do ano passado.

Seu depoimento sobre [falecido em 2010] Biu Roque, 77 anos, integrante da Fuloresta e lendário músico pernambucano, diz muito sobre suas motivações artísticas. “[Biu Roque] canta coco desde os 8 anos com a mãe –  ela cantando e ele acompanhando, batendo o gongo. Com 12 anos, sustentava a família tocando forró.  Ele sempre foi músico e participou de um grupo de cavalo-marinho muito importante para a região. E, para mim, teve uma importância muito grande porque não foi só um professor na música, mas na vida também. Ele é a base da Fuloresta e eu procurei músicos que tivessem uma história como a dele.” Acompanhe o bate-papo com um dos mais interessantes artistas brasileiros contemporâneos, que fala sobre os desafios de maracatu, poesia popular, suas motivações artísticas e influências.

Em uma entrevista você falou sobre seu forte interesse por poesia popular, mas não exatamente pelo cordel.

O cordel é uma das ramificações da poesia rimada do Nordeste, bem característico da Península Ibérica e que se desenvolveu aqui de diversas formas. Mas o principal elemento da poesia popular nordestina é a cantoria de viola, que se desenvolveu muito. Pra se tornar um cantador, tem que se dedicar muito, porque o nível técnico que se exige é muito grande, há uma variação muito grande de formas e técnicas, é preciso ter boa memória, se exercitar por muitos anos. E tem vários estilos que bebem da cantoria: o maracatu de baque solto, a ciranda, o coco – e são diversos tipos de coco. O cordel é uma ramificação. Eu sou mais ligado à tradição da poesia cantada. Me envolvi com os ritmos da Mata Norte, como o maracatu de baque solto e a ciranda, que foram bem importantes para minha formação. Para mim, uma das coisas mais importantes é poder acompanhar a produção dessa região. Agora sou mestre de maracatu e participo dessa tradição. Isso tudo é a base de meu trabalho, do meu dia-a-dia.

Você mora em Nazaré da Mata atualmente?

Rapaz, atualmente não sei onde tô morando (risos). Tenho minha base lá, para desenvolver esse trabalho com a Fuloresta, mas hoje eles funcionam sem mim.

Eles se apresentam sozinhos, como Fuloresta?

Não. Mas eles se mantêm funcionando sem a minha presença. Tenho meu quartel-general lá, mas fico muito tempo em Recife e hoje São Paulo é minha segunda casa.

E por que você se estabeleceu especificamente em Nazaré da Mata?

Eu tenho uma relação profunda com a Mata Norte desde 1990, antes até do meu trabalho com o Mestre Ambrósio. O grupo meio que começou em função dessa relação, das coisas que estava aprendendo lá, cavalo-marinho etc. A rabeca, um dos instrumentos que mais marcaram meu trabalho, aprendi a tocar por lá. Em paralelo ao Mestre Ambrósio, me exercitei muito nos estilos de poesia, música e dança da Mata Norte. A Fuloresta foi um sonho que eu acalentei até me sentir mais ou menos pronto para realizá-lo, em 2001. E Nazaré da Mata é uma cidade central na região, tem papel importante na tradição do maracatu de baque solto e tem uma infra-estrutura razoável.

Como alguém se torna mestre de maracatu?

O mestre é quem canta o maracatu. Para isso, é preciso conhecer algumas técnicas de poesia, métrica, rima e oração, que são mais ou menos comuns em todo o Nordeste, e dominar todos os estilos de maracatu. Ninguém te dá esse título. Mas, a partir do momento em que você alcança certa coordenação e domina os estilos, você pode virar mestre. Pra mim, o essencial são as “sambadas”. Sambada é o encontro de dois grupos para a disputa de rimas, que dura a noite inteira. Você passa a ser respeitado como mestre quando assume este tipo de responsabilidade.

Imagino que haja alguma semelhança com os encontros de congada em Minas Gerais…
Realmente o maracatu se parece muito com as congadas em alguns aspectos. Por ser um cortejo, ter as mesmas origens. Mas na sambada o confronto é bem real. Você está lá com seu grupo de mais de cem pessoas e chega outro grupo, existem algumas regras que não são objetivas, tem um jeito de chegar, de sair, um jeito de dizer “Boa noite”, tudo isso em rima… É uma longa história, são vários os procedimentos. Aquilo dura a noite inteira, um canta pro outro cantador, depois para o público, perto das duas começa a disputa mesmo, as duas torcidas ali no mesmo lugar, tem que saber o que se diz, porque tem gente armada de facão, cacete.

Você já participou de várias? Como foi a primeira vez?

Já participei de algumas. A primeira foi meio de impulso, ainda não dominava totalmente.

Mas sai um vencedor de fato?

Cada um sai dizendo que ganhou (risos). A não ser quando um lado tenha se saído muito mal, o mestre tenha gaguejado, daí o povo vai falar que você apanhou. No início dei duas sambadas muito ruins, mas os outros mestres não eram lá grandes coisas (risos). Depois de um tempo, levando a coisa mais a sério, como projeto artístico, passei a enfrentar os melhores mestres da região. Isso me deu certa respeitabilidade.

No último álbum, me parece que a ciranda é o ritmo que vai costurando os demais.

Gostaria de abrir parênteses aqui. É até irônico que haja, aparentemente, algum estilo se destacando, mas esse disco não tem nenhum maracatu de baque solto, e é ele o cerne do disco. Tudo parte dali. No maracatu é onde se exige mais do poeta. Isso que eu chamo de tradição: não é uma série de regras, é um ambiente.  É como formar uma banda de rock hoje – você tem que conhecer o que veio antes e o que tá acontecendo no momento, senão você fica perdido no espaço. É uma produção muito calcada na criação de texto – primeiro vem a rima, depois a música. Tudo vem do maracatu e da Fuloresta, que é um grupo de músicos de rua que se apresenta mais fora da região, até pela questão financeira. Assim, nos apresentamos mais para um público pouco afeito à tradição do maracatu. E a coisa tá cada vez mais musical. No início a turma subia no palco e nem sabia o que ia tocar. E eu nunca tive intenção de ser didático com a Fuloresta ou ficar preso a alguma regra. No fim da história é tudo música, ritmo, melodia e pronto.

Acho que essa tua liberdade criativa acaba por conferir certa vocação pop ao teu trabalho.

Apesar de ser um mestre de maracatu ou cantar ciranda, tenho outra formação, o que me possibilita coisas que meus parceiros do interior não fazem, porque não têm interesse, não querem, enfim.  Quando voltei para Pernambuco, há seis anos, formei a Fuloresta e me propus o desafio de fazer algo fechado naquela estética de lá. Seria muito mais fácil pra mim chegar lá e colocar uma rabeca, fazer algo que já vinha fazendo. Mas queria explorar algo que estava exercitando, em um ritmo mais lento, porque estava em São Paulo há um tempo e voltei para dedicar minha vida àquilo.

Essa tua busca está atrelada a entender uma tradição e a essa ideia de desafio?

Meu compromisso mesmo é com meu processo criativo. Em algum momento da minha vida passei a entender o sentido da arte no processo criativo, e não no resultado final. O Mestre Ambrósio foi fruto de um momento de processo criativo coletivo. E, em algum momento, tive a necessidade de explorar um processo radicalmente meu. Meu compromisso é com o que me mantenha criativo. E isso pode mudar de acordo com as coisas que eu vivo, escuto ou leio.

Hoje todo mundo gosta de maracatu, ciranda, coco e tal. Agora, as pessoas não têm intimidade com esses ritmos. Quando falo isso fora de Recife, as pessoas se assustam. Mas a cultura popular ainda ocupa um espaço muito marginal na vida das pessoas. Ninguém sabe dizer o nome de dois mestres de maracatu ou diferenciar um tipo de maracatu de outro.

Qual a situação concreta da música da Zona da Mata pernambucana?

Quando visitei Recife e região, senti uma ligação forte dos jovens com os ritmos regionais – o que não vejo muito em outras regiões do país.

Sua geração, conhecida como mangue beat, teve algum papel para aquecer essa relação da juventude com os ritmos locais?

Nos anos 1980, isso que chamamos de cultura popular era muito desvalorizado e marginal em Pernambuco. Tinha um preconceito muito grande, e houve um processo na década seguinte, no qual essa minha geração urbana teve uma função. Mas não fomos os únicos responsáveis. Tivemos alguma importância  a partir do momento que fizemos releituras  e passamos a valorizar essas tradições como fundamentais. Mas tem a ver com outras coisas: o momento do país, as identidades locais em todo mundo passaram a ser percebidas – já vinha acontecendo na África, e Recife foi a ponta de lança por aqui. A gente estava sintonizado a isso, o que até então era impensável. Houve também uma articulação popular por parte de quem fazia maracatu, ciranda etc., o poder público lenta e tardiamente ajudou nisso. É um processo complexo. Hoje todo mundo gosta de maracatu, ciranda, coco e tal. Agora, as pessoas não têm intimidade com esses ritmos. Quando falo isso fora de Recife, as pessoas se assustam. Mas a cultura popular ainda ocupa um espaço muito marginal na vida das pessoas. Ninguém sabe dizer o nome de dois mestres de maracatu ou diferenciar um tipo de maracatu de outro. No interior de Pernambuco, a história é outra – as pessoas sabem diferenciar os tipos de rima, os estilos.

A recepção é tão diferente?

Lógico, é uma diferença radical. No interior as pessoas vão pra te ver cantar, no sentido que elas querem ver o que você tem pra dizer. Se eu canto três, quatro temas no interior eles reclamam: querem ver dez ou mais temas, pra ver se sou bom (risos). Em Recife, se canto mais de três temas o pessoal se cansa, acha chato. Quer conversar, dançar, tomar uma.

O poder público teve um papel forte também, não?

Acaba sendo um mediador. Para o bem e para o mal. A cultura popular no Brasil, em termos de subsistência material, é toda baseada no poder público. Isso vem desde Getúlio Vargas. É algo que está tão arraigado que nem pensamos sobre como isso influenciou a nossa identidade. A cabeça de quem faz maracatu está muita ligada a um meio de sobrevivência atrelado ao poder público. Seria muito difícil sobreviver do mercado, realmente.

 Eu acho que uma função importante da arte é possibilitar a quem escuta ter acesso a uma percepção diferente das coisas. Não é mudar a cabeça das pessoas, no sentido de fazê-las tomarem uma atitude política. É ajudá-las a enxergar algo por um ângulo completamente novo.

Por que a demora do disco anterior para o novo?

Foi um processo de maturação meu, foram quatro anos em que pratiquei intensamente poesia de rua, para desenvolver uma linguagem de texto direta, com conteúdo que qualquer pessoa possa entender. Mas era o que eu queria indo para lá.

Essa pesquisa foi mais forte no ínterim entre um disco e outro?

Sim. Mas essa pesquisa é prática. Quando você coloca essa palavra “pesquisa” em relação à cultura popular há um senso comum sobre a pessoa pegar a coisa pronta. Minha pesquisa é igual à de Zé Galdino, Barrachinha, os grandes mestres da região: lendo um livro, vendo TV, conversando, procurar conhecer o que o pessoal no passado fez.

Como foi chegar n’OSGEMEOS, que fizeram cenários para seu show e a arte do último disco?

É uma história interessante, porque não foi nada intencional. Quem apresentou meu trabalho pra eles foi o Rodrigo Brandão, do Mamelo Sound System. Depois Jorge Du Peixe deu o primeiro CD pra eles. E eles gostaram muito daquilo e preparam uma exposição na Fortes Villaça ouvindo o disco. A gente não se conhecia e eu não tinha nenhuma ligação com o mundo do graffiti. E eu imaginando que eles eram moleques. Quando conheci, fiquei bem impressionado com o que eles faziam. Realmente há uma coisa onírica, um clima meio de interior no trabalho deles que lembra o Nordeste. O que ligou eles à gente não é tanto o imaginário, mas a coisa de ser uma cultura de rua, tirando todos os estereótipos. A poesia da Mata Norte trata do que acontece na rua, fala do momento que está acontecendo, assim como o graffiti.

Escutando o disco, vejo uma grande maestria entre os arranjos e a forma como as músicas se expressam.

É um sentimento meio ancestral, que nos leva a coisas que nem conhecemos. Acho que isso se dá muito em razão da criação e da relação com o pessoal da Fuloresta.

Como foi o convívio entre vocês?

A criação é um processo mais pessoal. Assim que surge um esqueleto das músicas, há o processo coletivo de achar um jeito para tocar aquilo, que se dá na interpretação. Essa força que você enxerga é algo que vem antes da gente, é algo difícil de explicar. O material novo, estou compondo com um parceiro, porque tenho viajado muito. Quando Biu Roque e Cosme Antônio colocam a voz, vem de um jeito que eu não consigo imaginar sozinho.

O que te deixa com a pulga atrás da orelha para criar? O que te move atualmente?

Volto para a história do processo criativo em si. Eu acho que uma função importante da arte é possibilitar a quem escuta ter acesso a uma percepção diferente das coisas. Não é mudar a cabeça das pessoas, no sentido de fazê-las tomarem uma atitude política. É ajudá-las a enxergar algo por um ângulo completamente novo. Este é o ponto central: buscar um jeito diferente de olhar as coisas. E é isso que me move. E buscar passar isso de alguma maneira é o que me move como artista. Todo resto é acessório.

Que outros músicos se expressam dessa forma, para você?

A lista é muito grande. Há artistas formadores para mim: Luiz Gonzaga e Quinteto Violado eram coisas que tocavam em casa e formaram minha percepção, e cantoria de viola é a referência mais importante para mim. Alguns poetas foram especialmente importantes, como Ivanildo Villa Nova. Não só pela música, mas pela trajetória dele, que revolucionou uma tradição. Em um certo momento teve o rock dos anos 1960 e 70: Jimi Hendrix, bandas como Cream, Deep Purple, Black Sabbath e Led Zeppellin; jazz dos anos 50 e 60. Numa outra fase,  a música urbana africana – não só como experiência estética, mas pelo modelo de procedimento, de como eles souberam remodelar diversas tradições e se tornaram referencial de modernidade. Tem a literatura, como Guimarães Rosa. É uma lista muito grande.

DISCOGRAFIA:

Com Mestre Ambrósio

1996 – Mestre Ambrósio

1997 – Fuá na casa de Cabral

2001 – Terceiro Samba

Siba e a Fuloresta

2002 – Fuloresta do Samba

2007 – Toda Vez Que eu Dou Um Passo o Mundo Sai do Lugar

2009 – Canoa Furada (EP)

Com Barachinha

2003 – No Baque Solto Somente

Com Roberto Corrêa

2009 – “Violas de Bronze”

Solo

2012 – Avante