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O Preto no Branco de Nilson Primitivo

(originalmente publicada na extinta revista +Soma, com fotos da Cia de Foto em março de 2008)

O videomaker, o fotógrafo e eu nos dirigimos até um sebo no bairro da Liberdade para encontrarmos Nilson Primitivo, 41 [obviamente, em 2008], um dos bons nomes da safra recente de cineastas autorais no Brasil. Nilson realiza um trabalho que contempla e amplia uma (anti-) tradição cinematográfica nacional: o cinema marginal total, no qual forma e conteúdo se alinham para tratar do intratável por excelência. Assim, faz coro a outros “marginais-geniais” (como diz Primitivo), como Sady Baby, Mario Vaz Filho, Alex Prado, Nilo Machado e José Mojica Marins, para ficar em alguns nomes.

Primitivo, desde o primeiro contato, chama a atenção; seja por sua fisionomia expressiva, sobrancelhas largas e espessas, um tanto corpulento, óculos à la Hunter Thompson, as tatuagens abundantes em frases e símbolos, ou por seu fraseado rápido e caótico, que se desdobra em referências mil, complementando e expandindo suas próprias reflexões vertiginosamente. E, ainda que numa primeira impressão pareça um tanto confuso, Nilson, assim como seus filmes, gosta de coisas preto-no-branco. “O Mojica fala um lance genial: ‘você vive pra comer ou come pra viver?’ Uma parte da sociedade é miserável e a outra é grotesca. Viver pra comer pô? Piranha e picanha: é só isso essa merda? É pouco né?” ou “a fotografia do Cidade de Deus parece coisa de propaganda do PSDB”, e ainda “tenho o maior respeito pelos suicidas, pelas pessoas feias. Ali está o ser humano mesmo”.

Penso como definir Nilson, pessoa e obra: intensidade é a palavra que me vem à cabeça. O fotógrafo: “livre e sujo”. O videomaker: “um caminhão de abóboras sem freio”. O que importa é que essa multiplicidade de opiniões dão a tônica de seu trabalho. Sua ideia sobre o amor sintetiza bem a estética de sua obra: “no amor, como na música, menos é mais”. Nilson, definitivamente, tem a qualidade rara de saber de onde veio e para onde vai.

Você nasceu onde?

Sou santista. Nem a prazo nem à vista (risos).

E como você foi parar no Rio de Janeiro?

Família; acabei mudando para lá. Morei na Tijuca, Grajaú, aqueles bairros por ali.

Na zona Norte…

Pois é. depois fui morar na zona Sul, porque na Norte o pessoal só fala de Vasco etc (ri). Não é igual em São Paulo, que é mais pulverizado, lá é muito caricato. Mas achei que na zona Sul ia ser maneiro, mas também não é. Você acha que é igual eles [da zona Sul], mas eles sabem que você não é (ri). Meio bobo da côrte. A hora que enjoam de tu, te trocam por outro. “Aqui” pra eles.

Qual tua relação com essa nova geração de realizadores do Rio de Janeiro, o pessoal que organiza a Mostra do Filme Livre [importante evento da nova safra de cineastas independentes brasileiros]?

Gosto pra caramba deles. Mas tem um lance curioso: sento pra conversar com o pessoal, vejo que o povo é inteligente, ilustrado, tá sacando umas coisas legais, mas , eles têm um certo respeito pela coisa que não pode ter, não dá coisa boa na hora de fazer filmes. Tem que vir alguém da Tijuca de dez em dez anos chutar a bunda deles. Na verdade, eles gostam dos meus filmes porque identificam muito do que queriam fazer.

E como conheceu o Marcelo Camelo [ele foi nosso interlocutor para chegarmos no Nilsão e foi um divulgador incansável do trabalho dele entre seus conhecidos]?

Na PUC. Eu morava lá perto, na Gávea, e ia todo dia de manhã ler jornal (risos). Ele achava que eu estudava lá. O Rodrigo [Amarante] também fazia umas maluquices com a gente, eu nem sabia que ele tocava, achava que era ator. Nos conhecemos fazendo umas performances com o Grupo Revolucionário Menino Jesus (risos).

E o clipe do los Hermanos que a MTV barrou?

Ela não passou né? O clipe de “Sentimental”, uma das coisas mais bonitas que já fiz e falaram que tava muito escuro, mas porra; eu quero que esteja escuro! Eles são burros. Tem uma coisa muito perigosa, contemporânea, que é o tal do “não pode”. Como não pode? Pode tudo, pô! É aquela história do Celso Furtado, do mito do Estado: começam a achar que existe um pai grandão, que é certo, perfeito, controlando tudo… não tem! O pessoal lá de cima são pessoas como nós, tudo a mesma merda.

Primitivo não faz dinheiro com cinema. O pesquisador de cinema marginal Remier Lion sintetiza: “Esse papo de ser cineasta, ser artista, é para playboy. Quem é duro vai sempre ficar devendo.  Cineastas como o Nilson Primitivo fizeram uma escolha existencial errada. Como uma espécie de maldição – o artista trágico, marginal, que sempre se dá mal mas fica ali amarrado. É um vício”. Falo sobre essa ideia de escolha existencial errada com Nilson que arremata:  “ele fala que caí no conto do cinema brasileiro, do malandro da Tijuca. Na realidade caí no conto de ser brasileiro, que no fundo é um conto da carochinha”. Há um caráter de inadaptado drummondiano em Primitivo, que começou Filosofia e Jornalismo “cursos que não dão dinheiro” e nunca terminou. “Sou um lixo-maníaco. Quando comecei a filmar, cinema era o patinho feio das artes no Brasil. Hoje virou moda”. Apesar disso, hoje é uma figura querida e respeitada no crescente movimento cineclubista brasileiro, sobretudo no Rio de Janeiro. Além disso, filmou o que pra mim é o mais belo videoclipe brasileiro, “Sentimental”, do Los Hermanos, além de ter realizado o documentário do mesmo grupo.

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Antes de iniciar sua fase da Bolex 16mm (uma câmera do avô de um amigo, circa Segunda Guerra Mundial), realizou alguns vídeos entre 1994 e 95. Nilson foi arrastado para o cinema: “tem uma certa magia em colocar uma música em cima de uma imagem e dar certo, por exemplo. Me identifiquei muito com a captação, a estética do 16 mm.  Eu filmo e edito na própria câmera. Na hora de botar legenda, música, entram outras pessoas, porque eu sou muito gregário. Preciso de um outro olhar, um outro ângulo, pra abrir mais a coisa toda”. Nilson “cresce” ainda mais quando o assunto é cinema. “Eu acho que o melhor filme feito até hoje é o ‘Édipo’ de Pasolini”. Ainda que trabalhe muito com o acaso, pela própria natureza da forma como edita e ordena seus filmes, há uma certa dinâmica de forma e conteúdo em sua obra. “Ator, pra mim, é objeto de cena, porque contam pouco em meus filmes”. Sobre a curiosa forma como mescla som e imagem: “se você desligar o som, as imagens contam uma história, e se prestar atenção só ao som, ele conta outra história. os dois juntos atrapalham o entendimento”. Em Mais Velho, por exemplo, referências umbandísticas, o arranjo do texto potencializando a malandragem da linguagem outsider carioca e a realidade transformada em fantasia, nos remetem ao melhor dos clássicos da Boca do Lixo paulistana ou a uma certa película de Rogério Sganzerla…

Mais Velho, de 2000, tanto no discurso como na estética, remete diretamente a O Bandido da Luz Vermelha. Até porque o personagem principal, baseado na improvável biografia de um bandido real – tal qual O Bandido… -, não respeita a propriedade privada nem a mulher dos outros…

Pois é… Roubar bicheiro na década de 1980 [o personagem principal de Mais Velho roubou vários bicheiros cariocas], é coisa de maluco. Devia ter alguma coisa em crise dentro dele pra fazer isso. Ele jogava no bicho, não ganhava – porque nunca ninguém ganha naquilo – ia cobrar o prêmio e descia a porrada em todo mundo. Sem arma.

E como você chegou nessa história?

Lia nos jornais na época. Nunca consegui esquecer isso e fiz o filme. Na época, tinha um filme sobre o Profeta Gentileza, feito por um amigo… Teve um incêndio imenso em Niterói, morreu um monte de gente. O Gentileza tava lá, se salvou e deu uma pirada depois daquilo. Daí juntei [a palavra] gentileza, essa coisa do brasileiro cordial que me emputece um pouco, e fiz o Profeta Grosseria. Inventei que ele saiu do mesmo incêndio, porque ninguém tinha referências sobre ele na época. Era um personagem tão legal, que você sentia nos textos de jornal o quanto o jornalista ficava fascinado por ele.

Daí depois veio o Exu do Amor né?

Filmei com um negativo de mais de vinte anos… vinte anos depois de vencido (risos).

Qual teu método de filmar? Você me falou que normalmente tem uma idéia… Que geralmente muda no processo.

É um lance de improvisação total, igual tinha na música clássica, nas “fantasies”. Tem um grande amigo meu que definiu bem meu trabalho, falando que eu fazia cinema malvado. Um outro, inteligente pra caralho, falou que eu fazia “cinema si contra si” (risos).

O filme Duelo das Loiras é o que tem mais a ver com um certo cinema nacional, pornografia da Boca do Lixo, não?   

Será? Acho esse um filme estranho. Posso te falar? Acho que o Sem Essa, Aranha do Sganzerla tem a ver com esse filme. Pode até parecer sacanagem com ele, até porque O Bandido da Luz Vermelha é um dos filmes mais lindos que já vi, e o filme é limpo, não tem nada a ver com meus filmes…

Tem uma certa dinâmica em toda sua obra, de sexo, política e um imaginário que remete à contracultura, um tanto engraçado também. Qual a relação entre tudo isso?

Eu acho que as coisas são realmente misturadas. Se for pra responder a essa pergunta, acho que tudo gira em torno de poder.

Fale sobre O Craque do Futuro. Falam que é um filme mais esperançoso, ao contrário de seus outros filmes.

É sim. Eu gosto muito desse filme. Eu vi uma vez um argentino jogando búzios em Copacabana e pensei: “Pô, a coisa tá feia!” Imaginei um personagem que era um vidente mentiroso, mas que no final as coisas que ele previa davam certo. O mote era esse. Na época, tinha morrido o Bezerra da Silva, daí fiz um personagem meio parecido com ele. Sou bom com maquiagem (risos).

Sério?

Na realidade sou bom com caracterização de personagens. Eu deixo os caras grotescos. O ator do Mais Velho eu chamei pra ajudar a filmar e acabou virando personagem, porque ele tem o tipo e o visual do personagem que eu precisava. Sei escolher a camisa certa pro personagem, fazer olheira etc. Acho que é a melhor coisa que eu faço.

E o Dez Pro Inferno? Fala de fim da humanidade etc. Um niilismo que alguém já apontou como metáfora para o fim do cinema… O Peter Greenaway fez uma performance falando sobre isso, o David Lynch já afirmou isso também…

O cinema acabou mesmo. Não que tenha morrido, tá se transformando. Já não falaram do fim do romance como gênero literário? É a mesma coisa. Aquela linguagem mais clássica… Não existe mais! Você vê um filme dos anos 1970 do Sam Peckinpah, “O Poderoso Chefão”… Não rola mais. O “Tango”, do Carlos Saura foi o último filme dessa linhagem que eu vi. Assisti e pensei: ‘Esse cara não vê TV, ele lê romance!’. O ritmo, a narrativa, o imaginário: coisa de quem lê romance.

Como você edita seus filmes?

Eu lembro da última imagem que filmei e faço uma cena na seqüência, e edito na própria [Bolex] 16 mm. Eu tento criar conexão entre uma imagem e outra. Nem sempre acontece, mas eu tento (risos). Eu faço filmes de trás pra frente, tentando descobrir o que a pessoa tá dizendo. Quanto mais espaço você dá para as imagens, mais elas vão te dizendo, porque elas têm um discurso próprio. Até porque o ser humano fica bonito quando tá distraído.

O papo se encerra umas 20 cervejas depois, naquele calor paulistano inclemente. Vimos ainda seu último filme, em primeira mão, uma espécie de making off experimental do último filme do Zé do Caixão, “Encarnação do Demônio”, chamado “O Inferno Não Vale Nada”. A forma como transcorreu esta noite quente e alucinatória, caberia fatalmente em um de seus filmes. Afinal, quem é Nilson? É Marcelo Camelo quem nos dá a dica final: “(…) ele dirigiu e filmou um documentário em torno da turnê do [álbum] Ventura, usando basicamente depoimento de pessoas que iam aos nossos shows, só que sobre a vida delas, sobre questões que não tinham que ver com a banda. Fizemos ainda um filme juntos sobre a gravação do disco do meu tio Bebeto, chamado Amendoeira. Desde então, meu jeito de compor ganhou uma grande influência da naturalidade que o Nilson propõe à feitura de suas obras e no que isso tudo quer dizer. Artisticamente devo-lhe muito. Não conheço nenhum outro humanista tão engajado nem nenhum outro intelectual tão generoso com suas idéias. Sua angústia natural e sua procura parecem o levar numa jornada atrás da verdade traçando um paralelo entre o artista e o cientista. E é melhor pra nós se ficarmos de olho”.

Filmografia selecionada em 16 mm:

Exu do Amor . 2001

Idade da Pedra . 2002

Duelo das Loiras . 2003

Dez pro Inferno . 2004

O Craque do Futuro

Império das Pelúcias . 2005

Aqui, uma ótima matéria sobre a obra do Nilsão.