Piotr-Kropotkin

Duas Autobiografias: Kropotkin e Diane Di Prima

“Como pode o prisioneiro alcançar o lado de fora se não investir contra a parede? Para mim, a baleia branca é essa parede, empurrada para perto de mim. Às vezes penso que nada existe além dela”.

– Herman Melville, Moby Dick

Pode parecer estranho, mas consigo fazer relações entre a autobiografia do cientista e revolucionário russo Piotr Kropotkin, Em Torno de Uma Vida (Livraria José Olympio, 1946) e a recém publicada no Brasil, Memórias de Uma Beatnik (Editora Veneta, 2013), da poeta estadunidense e militante do amor livre, Diane di Prima. 79 anos separam os dois testemunhos (um 1890; o outro, de 1969), o temperamento de ambos é praticamente oposto (um é absolutamente discreto, toma sua vida para nos guiar no coração de uma Rússia pré-Revolução, nos meandros do ethos revolucionário anarquista em um momento que vivia seu primeiro apogeu como movimento classista e revolucionário; a outra, no limiar do exibicionismo, onde a ideia de “fazer uma revolução” estava atrelada à um carpe diem hedonista, próprio de quem experimentou e foi vanguarda da revolução sexual sessentista no Ocidente), mas cada qual contra a sua baleia – tal qual o capitão do célebre livro de Melville. A ligação entre ambos se dá num rápido entrelaçamento das vidas de ambos: em dado momento nas memórias de di Prima, ela descreve uma cena de uma (dentre várias) orgia onde uma das participantes lê, antes da “ação” propriamente dita, o folheto “Aos Jovens”, de Kropotkin.

Kropotkin ganhou uma alcunha que encerra muito do ambiente (e mentalidade) de Kropotkin: “o príncipe anarquista”. Ainda que não o fosse de fato – ele era descendente de uma família que foram “monarcas” de uma região ao Noroeste da Rússia – Kropotkin nasceu em berço esplêndido e teve os primeiros anos de sua vida vivendo no conforto das altas esferas de São Petersburgo, com um futuro de riquezas e privilégios em seu horizonte. Brilhante nos estudos, fora pra Escola de Cadetes (a melhor escola de então na Rússia), onde se notabilizou e alcançou proeminência no Corpo de Pajens do príncipe e futuro czar Alexandre II. O corpo de pajens era uma espécie de elite organizada para exercer altas funções administrativas ou militares, que era criada junto ao príncipe, para que assim o mesmo tivesse a oportunidade de viver com as “melhores mentes” de seu tempo. Porém, muito cedo, Kropotkin e seu irmão mais velho já começam a questionar o papel de seu próprio pai em relação a seus servos, muito influenciados pelos jornais clandestinos liberais. Paralelo a isso, o interesse intelectual de Kropotkin era todo voltado às ciências naturais. Essa dupla faceta faz com que, quando chega o momento de “cumprir seu destino” e tomar um lugar de destaque no exército do czar, peça uma patente numa missão na longínqua Sibéria. Se hoje a expressão “ser mandado pra Sibéria” já carrega em si a noção de um lugar inóspito e distante, na atrasada e quase feudal Rússia de então, a impressão era ainda maior. Nada melhor para Kropotkin, que já tinha intuições científicas que o fazem querer permanecer na região. Já leitor de autores revolucionários (Herzen inicialmente, posteriormente Bakunin, sua maior influência inclusive na conduta pessoal), o período no deserto de gelo cristaliza o que antes era apenas intuição no campo das ideias de sociedade:

Os cinco anos que passei na Sibéria foram para mim muito instrutivos a respeito do caráter e da vida humanos. Me vi colocado em contato com homens de todas as condições, os melhores e os piores; aqueles que se encontravam na cúspide da sociedade e os que vegetavam em seu mesmo fundo; isto é, os vagabundos e os chamados criminosos insensíveis. Tive ocasiões de sobra para observar os hábitos e costumes dos camponeses em seu labor diário, e ainda mais, para apreciar o pouco que a administração oficial podia fazer em seu favor, ainda quando animada das melhores intenções.

O que mais me chama a atenção em Kropotkin é a forma radical como encara sua missão revolucionária. Uma das primeiras coisas, ainda influenciado pela juventude narodnik (os niilistas, personagens típicos da literatura russa de então), é sua leitura do lema “ir ao povo”: Kropotkin abdica de sua vida de regalias, abre mão da enorme herança familiar e vai viver in loco com o povo. Nisso, está em sintonia com o próprio Bakunin e com a leva de revolucionários anarquistas de então, que tinham um desprezo absoluto pelos privilégios de classe e mantinham relações nulas com o capital – ao contrário, obviamente, de um Marx, que soube “mamar” na renda de seu parceiro Engels e suas empresas. Não é a toa que Kropotkin tenha, posteriormente, ficado completamente enojado copm a postura de Lênin e sua plêiade de puxa-sacos, pouco depois da Revolução Russa, vivendo como uma casta distinta e acima dos “de baixo”. Para quem havia vivido junto com os relojoeiros do Jura suíço, aquilo devia soar como a quintessência caricatural das previsões de Bakunin sobre a “burocracia vermelha”.

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Ainda balançando entre sua vocação científica e a revolucionária (sim, ele via como dois pólos não-comunicantes, já que os privilégios dos cientistas e a forma como lidavam com a divulgação e disseminação de suas descobertas para Kropotkin diziam respeito exatamente à natureza de um sistema de exploração), Kropotkin fez descobertas geológicas e geográficas (no momento, ainda não havia distinção absoluta entre as duas áreas), tanto na fronteira com a China quanto na Finlândia, que o fizeram tornar um nome de ponta na produção científica do final dos XIX. Para muitos, se Kropotkin tivesse aceito o cargo de secretário da Sociedade Geográfica Internacional, hoje seria lembrado com muito mais vigor no campo das Ciências Naturais. Mas esse momento, dramático e um tanto triste ao meu ver , ocupa ao menos dois capítulos do livro e causa ainda mais espanto para um leitor contemporâneo, já que hoje alcançar benesses e privilégios decorrentes do seu trabalho não é só desejável como mote na vida de 11 entre 10 pessoas:

No outono de 1871, estando eu na Finlândia, caminhando lentamente a pé pela costa, ao largo da ferrovia recentemente construída, observando atentamente as paragens de onde primeiro devem ter aparecido as mostras inequívocas da primitiva extensão do mar, que seguiu ao período glacial, recebi um telegrama da da sobredita corporação, que dizia: “O Conselho pede para que aceiteis o cargo de secretário da Sociedade.” Ao mesmo tempo, o secretário que deixava o cargo me suplicava encarecidamente de que eu prestasse boa acolhida a proposição. Minhas expectativas haviam se realizado; mas ao mesmo tempo, outras ideias e outras aspirações haviam invadido meu pensamento. Depois de ponderar sobre como deveria proceder, telegrafei: ‘Agradeço encarecidamente; mas não posso aceitar’.

Inicia-se o segundo momento da vida de Kropotkin, plenamente adulto, plenamente revolucionário e cidadão do mundo. Daí suas duas prisões (a primeira na Rússia que culminou em uma fuga de folhetim; a segunda na França, mais longa, onde preparou e desenvolveu boa parte de suas teses revolucionárias e sobre a natureza humana), o que o fez um teórico ferrenho a respeito da função das prisões e das leis, e consolidou-o como uma figura de destaque no movimento revolucionário – por mais que a atenção que lhe era dedicada o embaraçasse. As colaborações no campo científico nesse momento centram-se na divulgação científica para leigos, basicamente – o que o torna de certa forma um “intelectual público” (segundo definição de Noam Chomsky) avant la lettre. é desse período sua relação mais intensa ao lado dos operários de orientação anarquista:

A Federação do Jura desempenhou um papel importante no desenvolvimento do socialismo moderno. Acontece frequentemente que um partido político, depois de se ter proposto um objetivo, e de ter proclamado que só ficará satisfeito depois de atingi-lo completamente, divide-se em duas frações: uma continua a ser o partido, ao passo que a outra, embora pretendendo não ter mudado uma palavra no seu programa original, aceita uma série de compromissos e arrastada por eles afasta-se do programa primitivo, e torna-se um partido de reformas insignificantes e de expedientes.

Uma cisão análoga produziu-se no seio da Associação Internacional dos Trabalhadores.

O objetivo declarado da Associação, era, desde a sua origem, a expropriação dos proprietários atuais do solo e dos capitalistas e a entrega de tudo o que é necessário à produção das riquezas nas mãos dos próprios produtores. Os operários de todas as nações foram convidados a orgarnizar-se para conduzir diretamente a luta contra o capitalismo e procurar os modos para asocialização dos meios de produção e consumo; e quando estivessem preparados para isso, tomar posse dos meios de produção e regulá-la, sem se importar com a organização política atual, que deveria sofrer uma completa reconstrução. A Associação devia pois preparar uma revolução imensa, que abriria à humanidade uma nova era de progresso baseado na solidariedade universal. Eis o ideal que arrancava ao abatimento milhões de operários, na Europa, e levava à Associação as suas melhores forças intelectuais.

É triste que este livro não esteja disponível em edição atual, já que é um retrato incrível tanto da Rússia czarista quanto do desenvolvimento das ciências pós-Darwin, assim como explica muito do ethos de gerações e gerações de revolucionários que se fizeram ao redor do mundo tendo aquele espírito mais ingênuo da Comuna de Paris como horizonte e que, ao menos no que diz respeito às relações interpessoais, falta na minha geração de ativistas políticos. São diversas as passagens onde Kropotkin descreve as relações humanas entre os revolucionários, sua vida cotidiana, que dão o que pensar, como a abaixo, onde antecipa em um século o conceito de “papo reto” – o que pra mim parece ser o elemento mais claro da cultura hip hop que poderia ser assimilado nos movimentos de hoje:

Quando nos aparecia um estrangeiro, logo o interrogávamos, com a franqueza habitual dos niilistas, sobre o seu passado, os seus projetos atuais e em breve sabíamos com quem tínhamos de tratar. A franqueza nas relações recíprocas é sempre o melhor meio de se estabelecer uma boa relação entre os homens.

diane di prima

Diane di Prima, também o é uma revolucionária em muitas medidas.

Se é pouco conhecida como poeta no Brasil, não é por falta de predicados literários, e sim porque o que ficou-nos marcado como cultura beatnik, trata sobretudo dos meios masculinos, sejam os heterossexuais ou homossexuais. Se ela não deve nada aos seus pares (não que a poesia beat seja a minha predileta por excelência), teve uma importância enorme ao fazer a ponte inexistente entre os poetas da Costa Oeste e Leste estadunidense. Em muitos momentos, inclusive, suas autodeclaradas raízes anarquistas (teu avô teria sido amigo de Emma Goldman) o fazem encarar a si mesmo como uma revolucionária. No contexto de então, o que me fez em diversos momentos de suas memórias me lembrar da Mansão Libertina em Belo Horizonte e do Espaço Impróprio em São Paulo, me remetendo às amigas que atuaram nestes espaços de “drop out” (esse “cair fora” dos valores e práticas da sociedade burguesa) que marcaram esses dois espaços da cultura punk/hardcore brasileira. Significa dizer que seu estilo de vida desregrado, totamente oposto à “eficiência proletária” ou ao “asseio burguês” eram seu auto de fé revolucionário. Ou melhor, a menor parte desse auto, cujo epicentro se dava na forma completamente livre de preconceitos em relação ao sexo. Apesar de se tratar de uma memória de artista, em nada lembra a pompa e circunstância e o evidente zelo pela sua própria imagem tão caros à autobiografia de Patti Smith, que trata do mesmo ambiente, Nova Iorque, só que 10 anos depois. Patti Smith seria vinho, di Prima cachaça. Nem precisa dizer que se achei um porre a escrita de uma, adorei obviamente a escrita da outra.

Raphael Soyer retratando Di Prima

Raphael Soyer retratando Di Prima

Di Prima viveu entre artistas, serviu de modelo inclusive para fotógrafos famosos e pintores, como Raphael Soyer por exemplo, e mostra uma visão descarnada de glamour de si mesmo e de seus pares:

Joe era pintor, daquela escola vívida e expressionista de pintores negros da Costa Leste de que nunca se via ou ouvia falar lá – embora fosse conhecida na Europa – por ser vital e animada (e heterossexual) demais para qualquer galeria de arte da Costa Leste. Ele estava me passando uma receita de comida de pobre: algo chamado hopping john, feito de arroz integral e feijão roxo com pernil de porco. (pág. 90)

O sr. Gay era tão gay quanto o nome. Tinha um ódio absoluto pela forma feminina e dedicava toda a prática de sua arte a distorcê-la, obscurecê-la e confundi-la de todos os modos possíveis. As produções de sua câmera, reproduzidas em cores às dezenas de milhares, tidas como sexy, eram coladas em calendários  e penduradas em oficinas e antros por todo o país. Elas mantinham a ele e ao ex-halterofilista que morava com ele e cuidava da casa no conforto que tanto mereciam (pág. 94).

O ambiente em que vivia beirava a descrição que se faz comumente de squats europeus atuais. Inclusive, quando descreve a demolição de um prédio velho ao lado de seu carcomido apartamento (pra variar, há exemplos e exemplos de processo de gentrificação na obra), e a infestação de ratos variados em seu apartamento, despertou-me uma vertigem enorme, além de alguns pesadelos, já que sou fóbico a esses roedores nojentos.

Há uma passagem no livro que exemplifica enormemente o impacto do livro Uivo de Ginsberg naquele momento e que destaco abaixo:

Então uma noite – era uma noite como muitas outras; havia umas doze ou catorze pessoas jantando, inclusive Pete, Don e gente do Studio, Betty McPeters e seu séquito; as pessoas andavam de um lado para o outro, bebendo vinho, conversando com empolgação em pequenos grupos, enquanto Beatrice Harmon e eu preparávamos a refeição – o sacerdote ex-ladrão de livros chegou e colocou um pequeno livro preto e branco na minha mão, dizendo: “Acho que isso pode interessá-la”. E eu o peguei, folheei a esmo, ainda determinada a servir nosso ensopado de carne, e me vi no meio de Uivo, de Allen Ginsberg. Soltei a concha, voltei ao começo e, de imediato, minha atenção foi capturada por aquela abertura triste e poderosa: “Vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura…

Fiquei excitada demais para me preocupar com o ensopado. Passei a tarefa para Beatrice e, sem nem agradecer a Bradley, saí com seu livro novo. Andei algumas quadras até o píer na Sixtieth Street e me sentei diante do Rio Hudson para ler e encarar o que estava acontecendo. A expressão ‘abrir terreno’ ficava me vindo à mente. Eu sabia que aquele Allen Ginsberg, quem quer que fosse, abrira terreno para todos nós – algumas centenas de nós – só por ter publicado aquilo. Eu ainda não fazia ideia do que isso significava, até onde nos levaria. (págs. 195 e 196)

Mas são cenas e mais cenas de atos sexuais que constroem a espinha dorsal da obra, fazendo qualquer um desses livros contemporâneos eróticos soarem pueris. Daria pra caracterizar essas memórias, facilmente, como um romance picaresco inclusive, remetendo tanto a ideia de texto onde as ações tem vida autônoma entre si, podendo ler o livro em diferentes sequências e ainda assim ser compreensível, quanto à ideia de “uma pica sobressalente” por passagem da história, como prezava os folhetins que deram origem ao termo “picaresco”. O desassombro como trata o sexo é tanto que parece até meio “impossível” a forma como trata do estupro que sofreu, dada a naturalidade com que encara o feito e a leveza como supera o ocorrido, por exemplo.

E há, obviamente, a descrição de uma foda entre os “astros beatnik”, na mesma noite em que di Prima conhece Ginsberg e Jack Kerouac:

Allen e Leslie terminaram, e Leslie estava com fome, como sempre ficava depois de transar. Ele foi à cozinha e voltou com pão, arenque e um saco de pêssegos temporãos, e ele, Jack e eu ficamos comendo e fumando, enquanto Allen rabiscava em um caderno, erguendo a cabeça de vez em quando, distraído, procurando o fumo. Jack puxou-me entre suas pernas, começou a esfregar o pau mole na minha bunda, que endureceu novamente, e exclamou: “Olha, Allen!” e pulou para fora da cama, me puxando para cima dele, enquanto fazia um plié profundo, e nós tentávamos transar na posição tibetana yab-yum. A sensação era boa, estava muito agradável e era bastante divertido, mas Jack estava bêbado e chapado, sem muito equilíbrio, e nós caímos, quase batendo em uma planta, e continuamos transando no chão, minhas pernas em torno da cintura dele, enquanto ele protestava que deveríamos ter ido mais devagar e deixado que ele ficasse na posição de lótus para tertarmos essa. Mas eu simplesmente travei os tornozelos em volta da cintura dele, abri a bunda dele com as mãos e o mantive ocupado. Viramos para um lado e depois para o outro no chão.(pág.205).

A posição "yab yum"

A posição “yab yum”

Enfim: um livro é encontrável na Estante Virtual e o outro nas livrarias físicas e virtuais brasileiras. Espero que alguma editora resolva reimprimir o primeiro e que publiquem algum livro de poedia de Diane Di Prima, sendo minha sugestão suas “Cartas Revolucionárias, como a abaixo, na tradução de Miriuam Adelman.

“Carta Revolucionária”

(Revolutionary Letter)

Acabo de perceber que o que está em jogo sou eu

Não tenho outro dinheiro de resgate, nada para

quebrar ou trocar, a não ser minha vida

meu espírito parcelado, em fragmentos, esparramado sobre

a mesa de roulette,

eu recupero o que posso

só isso para enfiar embaixo do nariz do maitre de jeu

só isso para jogar pela janela, nenhuma bandeira branca

só tenho minha pele para oferecer, para fazer minha jogada

com esta cabeça imediata, com aquilo que inventa, é a minha vez

enquanto deslizamos sobre o tabuleiro, e sempre pisando

(assim esperamos) nas entrelinhas.

Aqui, é posível baixar o clássico “Apoio Mútuo”, de Kropotkin.

Ótimo perfil contextualizado de Diane Di Prima. 

Artigo “Três vezes radical”, sobre Di Prima.