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Pozalégui Mon Amour: Um Poema Patriótico

Pozalégui Mon Amour

(um poema patriótico)

Pouso Alegre eu te dei tudo e agora podia ser um nada.

Pouso Alegre dois reais e cinquenta centavos sete de setembro de 2013.

Pouso Alegre não é grande o suficiente pra comportar minha solidão.

Pouso Alegre quando vai se atinar ao fato que seus ricos nem são tão ricos assim e nem numerosos em demasia para tanta soberba?

Vá se foder com seus clubes de campo caros e seus convescotes de velhos e velhas caretas e cafonas.

Não sou simpático, não abraço reaças e não me encha o saco.

Não farei trovas de rimas simplistas para reuniões do Clube Literário enquanto não ficar numa relax, numa tranquila, numa boa.
Pouso Alegre suas mentiras sinceras não me interessam.

Pouso Alegre quando vai finalmente ter um orgasmo?

Quando você irá levantar a saia para eu passar com minha libido?

Quando você se olhará através do túmulo?

Quando você merecerá suas gerações e gerações de dissidentes, músicos e doidivanas?

Pouso Alegre porque sua biblioteca é vazia de livros e cheias de mentiras?

Menotti Del Picchia, o integralista, encontrou o berço de seu nascimento intelectual porque tu és tediosa, frígida.

Pouso Alegre quando vai parar de espalhar seus morangos cheios de agrotóxicos por aí?

Pouso Alegre Passe Livre ou dois centímetros de pau?

Pouso Alegre mais um par de tênis caro.

Pouso Alegre mais um colégio particular em seu acesso e democrático em seus preconceitos.

Pouso Alegre seus carrões são lindos.

Pouso Alegre todos rumam em direção ao novo shopping.

Pouso Alegre i’m lost in the supermarket.

Pouso Alegre, não suporto nem mais uma igreja ou templo,
porque Jesus morreu por seus próprios pecados, não pelos meus.
Pouso Alegre cuidado com a santíssima trindade da Igreja, Estado e a Lei.

Pouso Alegre, seus inferninhos são exclusivistas.

Seus alunos de Medicina nos envergonham mas são ricos e cheirosos e isso é suficiente.

Seus alunos de Direito nem são tão ricos mas não veem a hora de enviar novas levas de pretos, pobres e pardos para o algum novo presídio e isso basta também.

Suas mulheres fartas de carnes, afundadas em camadas de maquiagem, envoltas em tramas comezinhas para arrastar o menino de família pra cama.

O menino se esforça para fingir que está sendo arrastado e tudo fica na mais perfeita ordem.

Sem consentimento.

Sem divertimento.

Pouso Alegre tudo pela fama e pela grana.

Quem se engana?

“E aí, galera, essa é a Gervásia. Cumprimenta a rapaziada aí, vai” e um playboy folgado e chucro puxa a garota pelo pescoço e mostra o seu trofeu ao grupo, ambas as partes acenando constrangidos.

Estou cheio de suas exigências malucas.

Pouso Alegre aqui se vale o que tem, e nem um centavo a mais, e também se sobe em lâmina de barbear e se faz discursos.

Pouso Alegre você é perfeita para alguém mas nós vivemos em mundos diferentes.

Seu provincianismo é demais para mim.

Você fez minha alma de bandido tímido.

Renatê está em Porto Alegre acho que ele não volta mais e isso é sinistro.

Estará você sendo sinistra ou isso é uma brincadeira?

Estou tentando entrar no assunto.

Deve haver algum outro jeito de resolver isso.

Pouso Alegre pare de me empurrar sei o que estou fazendo.

Pouso Alegre já não se encontra mamangabas às margens de seus rios.
Eu me recuso a desistir das minhas neuroses.
Pouso Alegre, seus políticos são tacanhos até mesmo para você!

Pouso Alegre seus habitantes são insones – que triste ironia!

Não dormem mas sonham acordados com 3 carros na garagem, 1 viagem pra Miami todo ano e com cadeias de fast food no lugar de seus vendedores de pastel de farinha de milho.

Pouso Alegre honrará teu nome quando no lugar dos bairros São João, São Geraldo e Cidade Jardim levantarmos mais um presídio, outro shopping e um residencial fechado.

Pouso Alegre, onde as pessoas simplesmente se esvaziam, são corpos cheios de medo e mentes obedientes. A cor deixa seus olhos. A voz se torna feia. E o corpo. O cabelo. As unhas. Os sapatos. Tudo fica.
Pouso Alegre, quando fecho os olhos e me concentro, controlando minha respiração, posso ouvir o som retumbante de coturnos em marcha sinistra, e o cheiro de ovo podre do autoritarismo toma minhas narinas.
Pouso Alegre, deixe suas crianças longe de fanfarras patriotescas.

                                                                 Pozalégui é outra coisa.

Pozalégui nasceu em 7 de Setembro de 1994.
Pozalégui é Lauro, Tiago, Gilson, Luizinho Tiquinho, Paulo Punk, Roberto, Arthur e Alexandre Porva.
Pozalégui não tem um dois, em pé; um dois, deitado.

Em Pozalégui o gigante abobalhado acordou de pau duro mas broxou na hora H.
Pozalégui não pode com dois reais e cinquenta centavos.

Pozalégui é pau dentro.

Pozalégui é gozo sem culpa.

Pozalégui é um mundo sem catracas.

Pozalégui state of mind.

Pozalégui é state of shock.

Em Pozalégui a anatomia ficou louca e é toda coração.

Pozalégui, agora mesmo, morro de vontade de ir na rua, tocar corneta, abraçar as pessoas, gritar que eu amo e que nascer é uma sorte.
Pozalégui é amor no Foch, é bamba na Árvore Grande, é desvario no Ribeirão das Mortes, é atitude no São João, é luta no Cidade Jardim, é uma harmonia bonita no Esplanada, é amizade na rua Mauro Brandão ali numa esquina da Vicente Simões.
Pozalégui é um gesto abstrato tom pastel em tela de Rogério Barbosa.

Pozalégui é adocicada nas mãos do Psilosamples.

Pozalégui desdenha de Pouso Alegre e seus zé-povinho na rima do La Tropa.

É um verso de amor do Douglas Hummano em arranjo especial de Davi Bernardo, executado pelo Pumu.

Pozalégui é uma estrofe doce na voz do Raimundo Andrade, é lirismo e amizade Imbuia.

Pozalégui é linguira pra caralho!
Pozalégui é um abraço coletivo embriagado na festa dos gêmeos.

Pozalégui suas meninas são formosas, independentes, sadias e altivas.
Pozalégui é cruzar a avenida Dique e contemplar a terceira margem do rio.

Pozalégui é o riso gostoso solto ao largo de uma piada de Fabiano Scodeler.

Minto: em Pozalégui, Fabiano Scodeler é Zoio e não houve nem haverá maior poeta da vida que ele!
Pozalégui são skatistas redesenhando suas ruas e praças, é William Robe rabiscando paredes.
Pozalégui é mais povo todas as sextas-feiras no Samba do Arvão e eu sou o samba.

Pozalégui honra SRD, Puro Lixo, Os Neuza, Space Invaders, Visão Geral, Hu-A e Xincons Bronxs.

Pozalégui é Quintervenção, é Aberto Audiovisual, é Coletivo Pouso Alegre, é pastel de farinha de milho, cachaça do Xará e muita treta pra Vinicius de Morais.

Pozalégui o Bilú estará sempre presente e o Renatê voltará!
Pozalégui num aceita Tristeza do Sul e nem ao norte, a leste ou a oeste.
Pozalégui é sempre mais!

Pozalégui é Diko Califórnia, 63 anos, ocupando a Câmara Municipal.

Pozalégui não cabe em um mapa.
Pozalégui não é uma cidade.
Pozalégui não existe.
Pozalégui pode tudo.
É dor e é amor.
É chama e é água.

Em suas ruas, damos volta pela noite adentro e somos consumidos pelo fogo.
Pozalégui renasce todas as manhãs.
Pozalégui se perde no República e se encontra na feira às 6 da manhã.

Pozalégui é também luau, vinho barato, drogas ruins, filósofos de botecos tristes aos pés de sua faculdade de Direito.
Pozalégui nada é sagrado, tudo é possível.
Pozalégui é uma fera pansexual.
Pozalégui é terra livre.
Liberdade é um verbo intransitivo em Pozalégui.
Pozalégui não tem leis de tempos sombrios para enquadrar seus rebeldes.
Pozalégui é um verso profano ao pé do ouvido, na hora mais escura da noite.
Pozalégui não se importa com o que você está vendendo e sim com o que você está comprando.

Pozalégui somos todos e todas sua prostituta, porque sabemos que qualquer um tem um preço.

Pozalégui é tudo o que você podia ser. Ou nada.
Pozalégui também se reinventa com João, Francisco, Caetano, Maria Clara e Rafael.
Pozalégui é um outro mundo possível toda vez que amigos viram irmãos.

Pozalégui são olhos brilhando após o coito.
Pozalégui também é um sorriso no rosto e punhos cerrados.

Pozalégui é do partido da preguiça radical.
E Pozalégui é a Cachoeira do Pedrão e a Fazenda do Sossego em Heliodora.
Pozalégui é Rio de Janeiro, é São Paulo, é Brasília, é Porto Alegre, é Inconfidentes.
Pozalégui é onde nós estamos.
Pozalégui é um incrível exército de Brancaleone.
Pozalégui é o coração de todas as coisas porque somos todos amor.
Pozalégui num tem frescura.
É papo reto.
É coito anal que destroi o capital.
É folia.
É descontração.

Pozalégui não tem religião mas é todo um ato de fé, é mistiscismo porque viver supera qualquer entendimento.
Pozalégui é recomeçar, é recolher os cacos e saber que o sentido da vida é só um: adiante.
Pozalégui não tem vencedores nem vencidos.
Pozalégui seus ranzinzas são puro amor.
Pozalégui seus filhos são corneteiros por natureza e não há avacalhação a ser repreendida.

Pozalégui é xepa na fantástica cozinha da Dona Vânia.
Pozalégui não tem CEP nem RG
Pozalégui desconhece pessoas físicas ou jurídicas.
Pozalégui é um novo mundo em nossos corações crescendo a cada minuto que passa.

Pozalégui é a anarquia dos sentidos.

Pozalégui é um, nenhum, cem mil.

Pozalégui é um mantra.

Pozalégui é um sonho bom.

Pozalégui já é ou já era.

Pozalégui é inequívoca.

Pozalégui é.
Pozalégui.

***

19 anos atrás – até parece uma outra era! – um bando de garotos anarquistas eram detidos por panfletar durante o tenebroso desfile de 7 de Setembro, pelo fim do serviço militar obrigatório. O quartel ainda era muito presente na vida social da cidade e os militares ainda exerciam um peso considerável na vida cotidiana de Pouso Alegre. Sinal de consolidação da democracia, o mesmo hoje é só um pálido reflexo do que fora outrora, um imenso elegante branco a nos espreitar. Inspirado no poema “América”, de Allen Ginsberg (de quem já falei aqui), fiz esse poeminha pobre em rimas mas nobre na intenção, para marcar esse 7 de Setembro onde as forças conservadoras ameaçam sair da caserna novamente por todo país.

É bom lembrar: sair à rua no 7 de setembro só para lutar contra o autoritarismo, o desmando. Posto isto, vou ficar em casa quieto, lendo um bom livro, escutando boa música, estudando. Enfim: me preparando pra ser um ser humano melhor a cada amanhecer.

As partes em itálico são citações, de Maiakóvski à Eduardo Galeano, de Sérgio Vaz ao Crass e Chumbawamba, de Fugazi a Durruti, de redação escolar do amigo Renato Lopes – o Renatê dos versos – a, obviamente, versos do supracitado Ginsberg.

A pintura da entrada do post é a “Origine du monde”, de Gustave Courbet.

Abaixo, garotada tocando Off! Afinal, criançada tocando o puteiro também é muito Pozalégui!

Nos vemos nas barricadas!