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Primeiras Impressões: Vida Universitária em Inconfidentes

Ou de como manter o estado de “maravilhamento” com o mundo depois dos 30 anos…

INCONFIDENTES

Tem dias que se acorda e até a luz do dia se faz diferente em nossas retinas. Hoje foi um desses dias.

Inconfidentes é uma cidade de pouco mais de 8 mil habitantes, cuja vida social e economia é dinamizada por um campus (belíssimo, diga-se de passagem, um naco de bucolismo para quem estava saturado de grandes centros) do Instituto Federal do Sul de Minas (IfSul), uma fábrica de tapetes, a cultura do tricô e monoculturas agrícolas. Dessas cidadezinhas arquetípicas do Sul das Gerais, parca presença de negros ou descendentes de povos originários e apinhado de descendentes de italianos. Nem preciso dizer que o catolicismo é onipresente, deixando pouco espaço inclusive para evangélicos e, dia sim dia SIM, há missa ou novena em alguma residência. Há tantos pecados a serem expiados ou os habitantes dessa pacata cidade oram pelos pecados de seus universitários?

Sim, os universitários, o dado que foge à normalidade. Assim como os carolas, não há dia sem “culto” para a juventude. Seja em bares ou em repúblicas, a folia tá garantida de carnaval a carnaval. Me pergunto sobre estatísticas de alcoolismo na cidade. Obviamente, esse vigor da juventude contamina de formas diversas o todo. E é por isso que a vida aqui não só é suportável como desejável – ao menos para mim, que já consigo distinguir névoa de fumaça, as pérolas das bijuterias.

Moro numa pequena gleba. Explico: 5 quitinetes – três de um lado e 2 do outro – separados por um estreito corredor, um tanque ao fim deste corredor, um pequeno quintal à frente, funcionando como rampa já que o terreno (ordinário, de dimensões exatas para uma casa de 3 quartos) se encontra no alto de um morro, e nossa vila está um pouco acima do nível da rua. O aluguel é barato, há uma internet que funciona razoavelmente e o convívio entre nós é pacífico, um mar de tranquilidade em contraste com a balbúrdia das repúblicas da cidade. Além disso, duas colegas de curso são minhas vizinhas, o que facilita a vida acadêmica imensamente. A rua está a um quarteirão do final da cidade, onde começa uma propriedade rural e, na ponta oposta, na baixada, é onde se encontra a entrada da fazenda-universidade, cerca de 1 quilômetro de caminhada.

Pois bem. No início da tarde, após o horário letivo, limpei as janelas e a porta da minha casa, aliviando a respiração que andava difícil, lavei o nosso quintal comum e, sem sinal de internet, parti imediatamente para o refeitório da IfSul (localizado em sua sede, onde há também os cursos técnicos secundários, exatamente na metade do caminho entre minha casa e o campus), onde almocei com uns veteranos. Galera bacana, diversa entre si, bem a cara da universidade pública pós-Lula, e completamente diferente da vida que desfrutei na Universidade de São Paulo do fim do milênio. Um veterano comentava como a vida estava difícil já que sua namorada fazia intercâmbio na Austrália. Um ano e meio. Me deu uma vertigem ao tentar me colocar em seu lugar. Obviamente, os gracejos giraram em torno desta questão. A magia do que poderia ser mais um dia ordinário começou a partir daí.

Subindo uma ladeira, paralela a minha rua, encontrei três garotos encapando suas pipas, todas coloridas, discutindo animadamente como haviam realizado os desenhos geométricos etc. Pensei de imediato que não deveria ter faltado ao convite de um amigo em Pouso Alegre para brincar de pipa no Horto local, umas semanas atrás. Corto por uma rua (todas elas largas, o horizonte sempre a vista), onde um grupo de mulheres, provavelmente tratando de suas rotinas, tricotavam pequenas peças de cores neutras. Uma delas percebe meu interesse pelo trabalho delas e pergunta se quero ver as peças. Fazem um rápido interrogatório (“Qual seu nome? De onde é? O que faz? Ah, entrou na faculdade? Seja bem-vindo”) e digo que o trabalho delas é lindo, que dava até vontade de fazer também. Um garotinho, que até então brincava com um filhote de vira-lata, debruçado sobre a perna de sua mãe que tricotava sentada em um banquete, me olha e fala “Ara! Isso é coisa pra mulher, ô!”. As mulheres se entreolham e riem, coradas, tímidas. Brinco com o garoto e sigo adiante com minha marcha. Adiante, dentro de uma construção adiantada de uma casa, avisto dois pedreiros, possivelmente descansando após o almoço, a popular sesta (alguns comércio aqui também fecham neste horário). Um deles, feições machucadas de sol, o chapéu baixo, arranha em um violão, com gosto e habilidade, uma moda de viola muito bonita. E eu pensando, “que dia, que dia!”

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Já na rua de casa, a dois quarteirões de minha toca, um funk ostentação ricocheteia tomando toda a ladeira, vindo de uma construção mais nova e portentosa, aquela pequena listra na sua fachada da frente de algum material da moda (mármore, etc etc) e uma porta com vitral dá a dimensão que quem construiu aquele sobradão tem recursos para gastar com frivolidades. A letra era curiosa, dizia algo como “agora tô por cima, vou pegar todas as vadias metidas”. Só que exatas duas redidências adiantes, de uma casa mais simplória, já carcomida pelo tempo e a poeira onipresente, saia, baixinho (eu fechei os olhos e me concentrei para filtrar o som emitido de lá), um Chico Buarque sentenciando “hoje o samba saiu, lalaiá, procurando você”. Não deu pra não pensar em meu amigo Pedro Pezinho e sua sentença clássica, “viver é maravilhoso”.

No quintal de casa, queimando as pestanas em um sol gostoso, a imensidão azul no horizonte, acompanho o canto dos passarinhos, distinguindo seis cantos diversos. Enquanto isso, um casal de maritacas namorava no poste em frente.

Inconfidentes já é um estado de alma.