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KL Jay, Rapaz Comum

(Julho de 2008, originalmente publicada na +Soma 6. Colaborou Tiago Moraes; Fotos Cia de Foto)

 

“Se o rap fosse um partido, pra mim, ele seria o presidente!” A frase foi dita pelo DJ Pampa, do [extinto] grupo Relatos da Invasão (responsável pelo hit dos bailes blacks “Jaçanã Picadilha”) e o presidente em questão seria Kléber Geraldo Lelis Simões, mais conhecido como KL Jay, DJ do grupo Racionais MCs.

 

Chamá-lo somente de DJ do Racionais – o que não é pouco, dado que o grupo é desde sempre o mais importante da história do rap nacional – é reduzi-lo ao seu lado “celebridade”: KL Jay é pai de cinco filhos, administra [não sei se até hoje] em parceria com Xis a 4P – selo, loja de roupas e salão de cabeleireiros –, cuida de parte dos negócios do Racionais MCs e ainda tem seu próprio selo, a Equilíbrio Discos. Acima de tudo, é um dos personagens mais queridos do rap nacional. Conversando com ele, fica fácil entender por quê: bastante articulado, KL Jay sorri, brinca, mas sabe defender seus pontos de vista de forma enfática. E, apesar de ser reconhecido nacionalmente desde o estrondoso sucesso do álbum Sobrevivendo no Inferno (1997) e de sua passagem como VJ pelo programa Yo!, da MTV Brasil, mantém a simplicidade de quem um dia foi office-boy (“Mesmo com ginásio completo, fazendo contas bem etc., não conseguia emprego melhor. Foi o rap que me fez ver o preconceito, o racismo, o que o sistema faz”).

 

Em determinado ponto de nosso papo, falamos sobre Chuck D, lendário líder do Public Enemy: “Ele é muito humilde, trata todo mundo bem. Esse é o comportamento dos reis né? A humildade.” A descrição serve perfeitamente para definir o próprio KL Jay, que continua sendo o bom e velho “rapaz comum” da Zona Norte de São Paulo: “Eu estava preparado para um possível sucesso. A gente (os membros do Racionais) tava vacinado sobre isso, porque via pessoas que ficaram pretensiosas por causa da fama. O sistema faz isso: tem que andar com segurança, com carro do ano, engordar, mudar o cabelo, andar com jóias… Eu viajei com o lance de dinheiro, caí um pouco no jogo também. Mas sempre tive pra mim que eu queria continuar indo beber meu suco na rua, andar de Metrô, de ônibus, quero continuar andando no bairro. O sucesso vem e você tem que saber lidar com esse veneno. Vejo um monte de gente se perder”.

 

A entrevista teve como mote o lançamento de sua mixtape Fita Mixada Rotação 33, seu segundo trabalho-solo (o primeiro foi o álbum duplo KL Jay na Batida, Vol. III, de 2004), contando com participação de nove MCs e redesenhando faixas previamente lançadas de artistas como Xis, MV Bill, RZO, Sabotage, SP Funk, SNJ, GOG e 509-E, por exemplo. O trabalho começa com um improviso ao vivo de Mano Brown e Ice Blue, em um show em Porto Alegre, abrindo alas pra faixa “Bem Pior”, do primeiro álbum do Xis, devidamente retrabalhada por KL Jay. O disco é feito na medida para animar qualquer festa por aí. Nada para se espantar, já que KL Jay é um dos melhores DJs da noite paulistana desde sempre.

Mestre absoluto, referência pra toda cultura de rua do Brasil.

Mestre absoluto, referência pra toda cultura de rua do Brasil.

 

Você usou só discos de rap nacional pra fazer esse álbum?

Quis fazer um lance autêntico. Fiz uma seleção de rap nacional e chamei alguns MCs para cantar em cima das partes instrumentais. Fiquei fascinado com a mixtape do FunkMaster Flex. Ele colocava a Erykah Badu cantando em cima de base do Mobb Deep, a Lauryn Hill cantando em cima de base do Busta Rhymes… Por isso eles são os melhores. Qual é a mentalidade deles? Tamo junto no bang, meu! A música é nossa! Os/as MCs cantavam em cima das bases, e aquilo combinava muito com cada um. Aí usei só rap nacional, porque tem muita base legal pra usar.

 

Qual foi o vinil mais antigo e o mais recente que você usou?

O mais antigo foi o som “Bem Pior” do Xis, e o mais novo foi um do ParteUm.

E você mixou tudo ao vivo?

Sim, porque a maioria das mixtapes são editadas, e eu queria ser autêntico. Normalmente o pessoal faz algumas passagens ao vivo e depois vai montando.

 

Você foi estudando, selecionando os discos…

É, e pensando nos MCs pra cantar em cada base. E foi o Márcio, ex-Código 13, que agora tem [novamente: matéria de 2008] uma loja na galeria, que me chamou um dia quando andava por lá e falou: “Faz uma mixtape, a molecada tá precisando, tem que movimentar a cena!” Eu falei, “Você acha mesmo?”, e ele “vai lá e faz, você é o KL Jay, pô! (risos)”. Depois disso, comecei a selecionar uns discos em casa, escutar um monte de coisa, treinar pra cacete fazendo a passagem de um som para o outro. Daí pensei em fazer ao vivo, sem usar computador. Como DJ, não concordo com isso; computador é para outras coisas. Eu acho que DJ tem que fazer mixtape sem corte, na hora. Aí chamei o pessoal da 13 Produções [produtora que fez o DVD que acompanha o CD] para filmar. Selecionei os MCs e dei as bases para eles pensarem no que iam cantar. Eu pratiquei muito, marquei o estúdio e fui.

 

Vai fazer o show com todos esses caras?

Já fiz três shows desse disco. Os caras vão lá e fazem na hora. No disco, eu gravei a minha parte primeiro, depois o pessoal foi encaixando vocal. Eu gravei em dois dias – em um deles saí [do estúdio] umas cinco da madrugada. Porque você erra, tem que gravar vários takes. Eu errava e começava do zero. Teve take que faltavam cinco minutos pra acabar e eu errava. Depois do primeiro dia, eu mostrava para os amigos e eles falavam que tava bom, mas eu sou muito autocrítico e voltei mais um dia, porque não tava do jeito que eu queria.

 

E a seleção dos MCs? Você escolheu como?

Pelo flow e, sobretudo, pela admiração. E muita gente ficou de fora, porque senão ia ter duas horas. Mas eu gostei de fazer essa parada e já tô armando a próxima (risos). No mesmo formato, mas mais dinâmico e agressivo.

 

Vai sair em vinil?

Como? Fecharam a fábrica! [na época, a Polysom não havia reaberto] Conforme for as vendas, lanço uma edição em vinil. Mando pra uma Tuff Gong da vida fazer, com os Marley (risos). Porque teve gravação e filmagem, gastei uma grana.

 

Quanto vai custar o CD?

R$ 35, CD e DVD em duas mídias diferentes. A capa ficou cara, porque tive cuidado em fazer um lance bonito.

Projetos estão sempre no horizonte do DJ de 39 anos. Em 2009, ele pretende lançar um Rotação 33 na Batida Vol. 2, misturando a mixtape com seu trabalho de produtor, o álbum da cantora Flora Mattos, pela Equilíbrio Discos, sem contar que, pelo que se divulga por aí, 2008 ainda conhecerá um novo trabalho dos Racionais MCs, ainda sem nome e data definida de lançamento [infelizmente, nenhum desses 3 projetos foram adiante, ainda que tanto KL Jay quanto Flora Matos e Racionais continuem na ativa e colocando novidades na praça]. Na internet, duas pré-produções deste novo álbum já estão disponíveis: “Tá na Chuva” e “Mulher Elétrica”, um sagaz elogio às mulheres escrito por Mano Brown. Comento com KL Jay como algumas amigas gostaram dessa música: “A mulherada chapa com esse som! Minhas amigas mandam mensagem pro meu celular ‘Tamo indo na [festa semanal comandada por KL Jay] Sintonia, uma hora e meia na frente do espelho’”, citando trecho da nova canção dos Racionais, que caiu na internet. Falo sobre essa qualidade única de Mano Brown, de criar frases que ganham as ruas e viram bordão. “O Brown usa palavras populares, fáceis, mas que ninguém usa. A poesia dele é simples. Pra mim, ele é o maior MC do mundo”, diz.

 

Tentamos arrancar algo sobre o novo álbum do grupo. KL Jay responde enfático, com um largo sorriso: “Não posso falar nada! Só vou te falar que tem só música monstro, e tá muito pra frente. Muita gente vai estranhar”. Falamos se esse longo intervalo entre um disco e outro foi necessário. “Sim, melhorou as batidas, estamos com outras idéias… Não dá pra ficar fazendo a mesma coisa.” Falo que, pelas produções de Mano Brown para outros projetos, imagino que o disco esteja atrelado a um estilo próximo da canção “1 Por Amor 2 Por Dinheiro”: “Eu ia falar disso. Você tá esperto, hein”, diz KL Jay, caindo na risada. Dessa forma, parece que os Racionais vão continuar na “redenção pelo funk”, como disse Mano Brown na canção “Eu Sou Função”, do rapper Dexter.

 

Eu queria que você contasse um pouco da tua trajetória até virar DJ.

Quando tinha uns 11 anos, comecei a escutar rádio AM, junto com minha mãe. Aqueles sons… Roberto Carlos etc. Não me identificava muito, não. Meu pai tinha um rádio da Sony que ele tinha o maior cuidado. Mexia escondido no rádio e vi um botão escrito FM. Quando comecei a ouvir aquilo, funk anos 80, me identifiquei de cara. Ouvia as rádios Antena 1, Alfa, Manchete, Excelsior, tocavam Kool and The Gang, One Way, Gap Band.

 

Ainda rolava disco music?

Já tinha passado. Isso era 82, 83. A disco acabou no final dos anos 1970. Eu me identifiquei com aquilo e comecei a sair na rua, a ter contato com os caras mais velhos, de 18 a 20 anos, que iam pras festas de madrugada. Eles falavam dos bailes, das músicas, das danças, das mulheres… Aquilo me fascinou. Um lance importante foi o programa do Juninho Mazzei, Big Apple Show, da Jovem Pan. Ele lançava altos sons, que estavam no auge em Nova York. Lembro quando ele lançou “Pull Fancy Dancer/Pull, Pt. 1”, do One Way (do álbum Fancy Dancer, de 1981). Aliás, usamos um trecho desse som na abertura de “Vida Loka II” (do álbum Nada Como um Dia Após o Outro Dia). A referência pra mim, pro Brown, pro Blue e pro Edi Rock foi o funk.

Você escutava samba naquela época?

Outros estilos, como o samba, soul, jazz etc., eu fui conhecer pelo  rap, que me levou pra história da coisa, por causa dos samplers. Comecei a me envolver, ir nos bailes e dançar. Tinha também os clipes no Fantástico, no programa do Tio Sam. Quando você se envolve, as coisas começam a vir até você, a informação etc. Tudo isso ainda ali na zona Norte. Era uma época que tinha muito baile na casa dos amigos – o pessoal reunia os aparelhos de som pra tocar, normalmente na sala da casa das pessoas – o pessoal no bairro fazia e eu ainda não podia ir (risos). O tempo passou e fui ganhando mais liberdade. Entrei no ginásio em 84 e conheci o Edi Rock – era época do break. Tinha um vídeo do Chic, da música “Hangin’” (do álbum Tongue in Chic, de 1982) que tinha um moleque dançando break e eu pirei com aquilo. Comecei a trocar idéia com o Edi Rock sobre fazer umas festinhas e comprei um aparelho de som 3 em 1 da Sony para mim. Aí fizemos uma equipe chamada Bill Black – que era o nome do DJ do Kurtis Blow. A gente tinha uns amigos com caixa acústica e começamos a fazer sucesso ali na nossa área, fazendo festa em escola, nas casas. As pessoas dançavam na sala e a gente colocava os aparelhos no quarto, nem participávamos da festa. A gente olhava pela fechadura pra ver se o povo tava dançando (risos). Era louco. E o DJ no quarto tinha regalias – o povo te trazia bolo, refrigerante. E assim a coisa foi evoluindo e o hip-hop começou a chegar. Já ia nas festas da Chic Show, no Clube da Cidade e era aquela febre das equipes de baile.

O Edi Rock era DJ também?

Era. Ele que me ensinou as coisas mais básicas, a mixar, a fazer scratch. Ele sacou essas coisas antes do que eu. Avançando um pouco na história, teve o (rapper old school americano) Kool Moe Dee, que a Chic Show trouxe. Eu queria ter ido no [show do rapper no ginásio do] Palmeiras, mas fui cortar o cabelo sozinho pra economizar dinheiro e ir na estica, só que meu cabelo ficou todo torto e fiquei com vergonha de ir (risos). Tinha o lance da vaidade, de ir com a melhor roupa que você tinha etc. Daí eu dei um jeito de cortar o cabelo direito e eu fui no domingo no clube House – eu já tava com esse lance de ser DJ nessa época. Lá, eu vi o DJ do Kool Moe Dee tocando um som do Tim Maia, “Você Mentiu”. Quando chegou no refrão, ele repetiu aquilo até virar outro som. Na hora, eu pensei: “Hã? É isso! É isso que eu quero fazer! (risos)”.

Quais eram as referências que vocês tinham nessa época?

Eu achava o som do Kurtis Blow louco. O primeiro cara que eu vi e ouvi mixar foi um DJ que tocava na festa da [equipe de som paulistana] Sideral. O Grandmaster Flash – ele tinha lançado uma mixtape chamada As Aventuras de Grandmaster Flash (KL Jay se refere ao álbum The Adventures of Grandmaster Flash, de 1982), misturando Chic com Blondie etc. Eu nunca tinha visto ninguém fazer ao vivo, porque nas festinhas nas casas era quase tudo com fita cassete. E em alguns lugares o DJ tocava de costas para o público – no Rio, por exemplo. Eu também ia nas lojas da (rua) 24 de maio e os caras gravavam as fitas pra mim, porque não tinha dinheiro para comprar os vinis. A gente tocava de fita mesmo. Numa domingueira no Sideral eu vi o DJ mixando [a música] “Martin Luther King” do Hurt´em Bad [com a S.C Band] com outra, e achei fantástico. Aquilo pra mim era mágica. Sei lá, eu vejo o Romário jogar, o Robinho, aquilo é mágica também (risos)

E quando saiu o disco Hip Hop – Cultura de Rua [coletânea histórica com Thaíde & DJ Hum, Código 13, MC Jack e outros]?

Eu já tava envolvido. Ainda não tinha gravado nada, tava ali me aperfeiçoando. Os caras que apareceram nessa coletânea eram todos famosos, ídolos pra gente. Foi o DJ da Sideral que me mostrou a possibilidade de fazer aquilo com qualquer música. O Edi Rock me ensinou a mixar naquela época, porque o mixer naquela época era o botão de volume do aparelho. Me ensinou a fazer scratch, no aparelho normal.

 

E seus pais? Te apoiaram?

Meu pai apoiou, me ajudou a comprar meu primeiro mixer. Minha mãe sempre foi muito conservadora, veio do interior, e tinha a mentalidade da maioria das pessoas, que você tem que ter uma profissão com carteira assinada.

 

Quando o rap americano chegou, imagino que mais de 90% das pessoas não sabiam sobre o que eles estavam cantando. Mas parece que essa afirmação de negritude chegou junto.

São duas coisas distintas. A linguagem da música propriamente dita, que te hipnotiza, não importa o que está sendo falado na letra, que é foda; e outra coisa, que foram as idéias. Eu consigo separar a música que tem um puta instrumental, uma puta levada, com um cara falando só besteira, e aquele som que nem tem uma levada tão louca, mas tem um cara falando coisas boas. E tem a música que tem as duas coisas junto – é o que o Racionais tenta fazer. Mas foi o Public Enemy que despertou uma consciência na gente, porque eu ficava pensando “Quem é Malcolm X? Quem é Martin Luther King? O que é a Ku Klux Klan?” Aquilo te faz buscar informação. Eu me identifiquei na hora com o barato do Black Power, de Black Panther, de auto-estima. Tudo isso foi passado pra gente.

 

No [disco de 1993] Raio X do Brasil, o Racionais MCs já era muito grande. Mas creio que a primeira grande exposição de mídia pra vocês foi a participação no show do Public Enemy né?

A gente entrou no meio do show deles. Eles tavam no hotel, a gente foi até lá, o Chuck D veio falar com a gente, pintou uma identificação e tal. Ele deu uns ingressos pra gente e ficamos na entrada do palco, mas não dava pra entrar. Foi louco porque a gente foi com os discos. E ele não falou pra ninguém da produção ficar de olho em nós. O Chuck D olhou uma hora pra gente, chamou a gente pra entrar no palco e os seguranças ficaram barrando. Daí o Brown, com aquele jeitão dele, olhou bem pros caras e falou firme “O Chuck D falou pra gente entrar!” (risos). Daí a gente tocou. Foi na hora! E o público conhecia a gente. Cantamos “Pânico na Zona Sul” e “Racistas Otários” (ambas do álbum Holocausto Urbano, de 1990) e foi muito bom. Pra gente foi histórico, participar do show do grupo que a gente era fã, foi marcante.

E você teve muita exposição depois com o Yo! MTV [extinto programa de rap da MTV, do qual KL Jay foi apresentador].

É, tem gente que até hoje pergunta do programa, pede pra voltar, acho muito legal. Hoje, com o volume de trabalho que eu tenho, não dá mais. Mas seria bom pro rap ter um programa.

 

E ninguém te podava na MTV né?

Algumas pessoas tentavam me corromper nas entrelinhas, mas eu sacava rápido. Mas eles davam muita liberdade pra você ser o que é. Alguns chegavam sutilmente, pra pedir pra colocar um dente, pra usar certas roupas, participar de certos programas, mas eu sempre falei não. O programa era uma das maiores audiências e por isso tiraram do ar: representava perigo pra eles, pra programação.

 

A audiência começar a pedir coisas parecidas…

É, música negra, rap. O Yo! fortaleceu muito o rap no Brasil e foi uma época de glória pro rap: SNJ, Sistema Negro, RZO, Xis, Sabotage, Racionais, Thaíde, Facção Central, os caras do interior, o pessoal de Brasília; todo mundo fazendo sucesso. Todo mundo tocando muito, no Brasil inteiro. E aí o pessoal da MTV resolveu tesourar. Foi muito gratificante pra mim, porque não fiz o Yo! pra aparecer, foi pelo rap, pela cultura hip hop. Tinha os quadros na rua que eu adorava fazer, ver tanta gente talentosa, tanto apresentador em potencial… Teve uma garota numa festa da zona Leste que pegou o microfone para apresentar um bloco e apavorou! Fez melhor que muita gente. E não tem espaço. Um diamante ali, cheio de pó, de terra.

Você acha que o programa do Rappin Hood [à época, o apresentador do Manos e Minas, da TV Cultura de São Paulo] pode catalisar toda essa atenção?

Depende dele, do formato, da linguagem, de cada programa ser de um jeito, ter um dinamismo. Mas é bom. O do Xis (PlayTV, Combo: Fala + Joga, canal 21 UHF) é bom pra cacete também. E gente do meio artístico fala que o programa dele é melhor que os da MTV. Eu não quero jamais cuspir no prato em que comi, porque pra mim foi muito bom, deu muitas possibilidades pro rap, mas hoje é outra época.

As rádios comunitárias foram fundamentais né?

Foram. Eram elas que mantinham a coisa quente, o rap no ar.

 

O que você anda escutando, além de rap?

Vanessa da Mata e (pensa e cantarola), aquele som “Mulher Sem Razão” da Adriana Calcanhoto (composição de Bebel Gilberto, Cazuza e Dé Palmeira, do álbum Maré). Gosto muito de ver as mulheres brasileiras cantando. Tem o Stephan e o Damien Marley. Eu gosto desses reggaes/ragga. Os discos novos da Erykah Badu, a Rihanna, John Legend.

 

Como é ver teu filho na tua profissão?

Muito gratificante. Mas subiu muito rápido, tenho medo, porque tem que se manter lá. O bicho é zica, é bom mesmo. É muito novo e já tem a vida dele. Ele apareceu em um dos primeiros Hip Hop DJ que a gente fez, lá no Soweto. Lembro que o Brown tava do meu lado e falou “Meu, os caras velhos igual à gente não fazem isso, não mixam assim”, e eu falei (sorrindo e visivelmente orgulhoso) “É negão, é isso aí, meu! (risos)”.  Eu ensinei o básico pra ele, que é a noção de ritmo e tempo. Falo muito isso quando dou curso. Não dá para começar um prédio pelo quinto andar, tem que fazer a base do lance primeiro. Com DJ é assim também.

 

Saiba Mais:

http://www.djkljay.com/