Sergio-Vaz

Sergio Vaz, Guerrreiro da Cooperifa

* foto retirada do site DoLadoDeCá
[Publicado na revista +Soma n.5, de Maio de 2008. Aqui, q
uase sem alterações, matéria originalmente com 8 páginas com um dos artistas-cidadãos mais notáveis que já cruzei na vida. Hoje, Serjão é uma personalidade proeminente no debate cultural brasileiro e peça-chave pra entender a cultura periférica brasileira e, sobretudo, a paulistana. Sem muito papo: a matéria já fala por si só]

“Pô, tava precisando conversar, viu? Faz um tempão que não escrevo no meu blog, entreguei 90% do livro ontem [Cooperifa – Antropofagia Periférica, que pode ser lido aqui] – parece que tirei um peso dos ombros. Sensação de missão cumprida.”

 

Essa frase encerrou a entrevista com Sergio Vaz, o poeta periférico criador do Sarau da Cooperifa, evento que acontece todas as quartas-feiras em Piraporinha, periferia na zona Sul da capital paulistana, no Bar do Zé Batidão. O livro do qual ele falou é sua “autobiografia poética”, como define, encomendada pela Editora Aeroplano, do Rio de Janeiro.

 

É sintomática a expressão “missão” na fala de Serjão (como é conhecido): basta alguns minutos de conversa com ele para identificar um verdadeiro guerreiro (expressão que ele usa ao cumprimentar as pessoas), daqueles que não é usual achar por aí. E essa é uma impressão que compartilho com a maioria das pessoas que já tiveram o prazer de conhecê-lo. O que encontramos ao visitar o Sarau da Cooperifa é um conluio de guerreiros – gente altiva, de todas as regiões de São Paulo, de todas as etnias e classes sociais, convivendo pacificamente, harmoniosamente. A poesia foi o meio pelo qual Sergio e outras pessoas realizaram uma verdadeira transmutação em torno dos valores e expressões culturais comumente atribuídos à periferia.

A luta desses guerreiros é para disseminar o poder da arte que liberta, que traz felicidade, uma ação entre amigos, terna e amorosa, que vem contagiando e se espalhando por várias periferias paulistanas. Por isso, talvez, Sergio diz não acreditar no ódio. “Quem briga, briga por um tempo. Luta é para a vida inteira. Isso é ter uma ideologia.” Faz eco ao poema de Bertolt Brecht, que sentencia: homens que lutam por um dia ou por algumas semanas são bons, mas só os que lutam a vida inteira são imprescindíveis.

 

Quem me levou ao Sarau foi Tatiana Ivanovici, moradora do centro expandido como eu [em 2008 vivia em São Paulo, no bairro de Pinheiros], e grande entusiasta e apoiadora da agitação cultural da periferia [hoje, responsável pelo site DoLadoDeCá]. A descrição que havia feito do evento a mim corrobora todas as opiniões que ouvi antes e depois de conhecer o Sarau: são poucos os espaços onde é possível se sentir tão pleno de suas capacidades, tão feliz e entusiasmado por ver realizadas todas as premissas do que seria uma democracia: o evento começa em um espaço fechado e se espalha para a rua; todos são respeitados e acolhidos; ao ler um poema, cantar ou fazer uma denúncia, todos são aplaudidos e, por mais que de lá já tenham surgido algumas “celebridades” e por lá passem “famosos”, todos são anônimos e iguais naquele espaço. A grande maioria desses anônimos tem boas histórias a serem compartilhadas. Afinal, se cada ser humano encerra um universo em si mesmo, não haveria de ser algo estranho de ocorrer. Sergio Vaz é mais um ilustre anônimo que luta contra a mediocridade e se faz ser ouvido, a pleno pulmões.

 

“Tenho 43 anos. Nasci em Ladainha, Minas Gerais, no Vale do Jequitinhonha. Vim em 1968 para São Paulo. Meu pai era agricultor e veio para cá na época do milagre econômico. Estudei até o colegial. Sou semi-analfabeto-didata (risos). Comecei a trabalhar com 13 anos. O bar [Zé Batidão, onde acontece o Sarau da Cooperifa] era do meu pai. Só que era um empório. As pessoas faziam compras lá. Trabalhava sábado, domingo e feriado. Pai-patrão você sabe como é, né? (risos). Fui servir o Exército e, quando saí, queria estudar. Fiz um pouco de desenho para publicidade e parei. Botei na cabeça que queria curtir a vida. Um Zé-ruela com 20 anos de idade achando que sabia tudo da vida. Até porque, sou de um lugar onde a gente acha que estudar não serve pra nada – a periferia. As pessoas achavam que ir pro SENAI [escola de formação técnica] era do caralho. Coloquei na cabeça que escola não levava a nada. Tentei voltar algumas vezes, mas não me adaptava mais. Eu queria ser jogador de futebol. Era meu sonho. Ainda quero, mas agora tá difícil né? Se bem que tem o Romário aí pra provar o contrário (risos) [Romário ainda estava em atividade nos gramados e não havia se tornado deputado federal].

 

Curtia black music e passei a me interessar por MPB, música de protesto. E achava que poesia era coisa de viado. Estávamos na ditadura, e eu não tinha com quem discutir, jogava futebol de várzea, sabe? Ia discutir com quem? ‘Pô, já leu Pantaleão e As Visitadoras do Mario Vargas Llosa?’ O cara ia olhar com aquela cara pra mim né? (risos). Me desinteressei da black music por conta das letras. O ritmo fazia sentido para mim, mas o resto não. Queria letra de protesto. Na periferia é ruim por causa disso: você tem um lance dentro de você, mas é tido como ‘esquisito’. Saí do Exército e queria entrar no PCB – porque só no Exército fui descobrir que vivíamos numa ditadura –, e fazer música popular. Daí montei um quarteto na quebrada. Participávamos de festivais estudantis etc. Nessa época, passei a escrever com um intuito: criar letras para músicas. O pessoal que chamei para o grupo falava, ‘Pô, o Serjão convidou a gente, mas não canta nem toca nada. Vamos falar pra ele fazer as letras’. E eu ‘Caralho, as letras, legal!’ (risos). Comecei a pensar nas coisas de estrofe. Porque até então eu escrevia carta para mina de amigo… Não passava pela minha cabeça a possibilidade de ser poeta.

 

Durou pouco o período de compositor. Era louco, porque eu queria ser o Chico Buarque, o outro só falava de amor, queria ser o Djavan; o outro era Sá & Guarabyra, só falava de boi na estrada, e tinha o que queria ser o Zé Ramalho, falar de poeira cósmica, das galáxias – não tinha como dar certo (risos). E na hora de fazer as letras, a vaidade imperava, né? Começava ‘Meu sonho está nas cartucheiras que estão nas fronteiras’ e depois ‘O boi na estrada não quis andar, não

quis andar’, e o Djavan ‘Meu amor me deixou nesta manhã de sol’ e, por fim, ‘Nessa poeira cósmica, a Via Láctea vai nos guiar’, e quando acabava a letra era aquele Frankenstein (mais risos). Foi nossa Primavera de Praga. E foi uma definição na minha vida, me descobri como ‘de esquerda’, queria fazer poesia política.

 

Meus amigos iam para os bailes e eu queria ler, ir a reuniões políticas. Meu pai falava ‘olha lá hein, fica esperto’ e minha mãe, semi-analfabeta, falava ‘pára de ler, aquele mendigo era assim…’ (risos). De uns dez anos para cá, descobri o que queria fazer: minha poesia é a política. O rap salvou minha poesia. Quando a ditadura acabou, o pessoal falava que não tinha mais sentido poesia política, virou aquela gozolândia. Eu pensava ‘pô, o racismo ainda existe, o povo continua pobre’. Mas assimilei o golpe e fui escrever sobre as galáxias (risos). Mas não era meu estilo – ainda gostava de Neruda, Ferreira Gullar, Mercedes Sosa, Victor Jara… Não queria me soltar desses caras (risos).

 

Não me interessava por rap. Gostava de MPB, teatro. Só a partir de 1993 me interessei pelo rap. Quando eu vi o Racionais pensei ‘pô, a ditadura acabou, todo mundo foi sambar e esses moleques falando não confio na polícia, raça do caralho’. Saquei que pertencia a outro lugar, a outra turma. Achava que para ter cultura tinha que estar no centro da cidade e acabei assimilando a coisa de ‘ser do centro’.O que não é ruim – ruim era chegar no bairro e não ver nada. Mas isso foi alimentando a vontade de fazer algo parecido com o que eu via no centro.”

***

 

Essa história toda finalmente teve um clímax com a criação da Cooperativa Cultural da Cooperifa (Cooperifa) em 2000, no Taboão da Serra. Tudo começou quando Sergio reuniu inicialmente, num domingo, amigos próximos que compartilhavam de sua inquietação e resolveu fazer um evento dentro de uma fábrica abandonada, reunindo expressões culturais diversas, como música, capoeira e poesia. Dessa reunião inicial surgiu um nome e idéia para algo maior. “Um jornalista perguntou como era o nome do evento e, na verdade, não tinha nome. O [rapper] Big Richard [hoje, apresentador do programa Paratodos na TV Brasil] falava de cooperativa e sempre falava a palavra ‘perifa’, daí veio o nome na minha cabeça.”

 

O sarau, propriamente dito, só surgiu após o proprietário da fábrica reclamar o espaço. Foram para um bar no centro do Taboão da Serra, basicamente para beber e ler poesia. Não deu certo – o dono do bar achava que o evento não era adequado para uma quinta-feira. “Mudamos para as quartas-feiras, porque era um dia morto e colocamos o nome de Sarau da Cooperifa, ainda que nem soubéssemos direito o que era um sarau. Era outubro de 2001. O primeiro sarau tinha dezessete pessoas. Mas divulga ali, divulga aqui, foi chegando pessoal, o Mano Brown, o GOG, o Afro-X, o Marcelo Rubens Paiva e de repente tinha cem pessoas”, sintetiza Vaz. A partir daí, Sergio passou a pedir microfone nos intervalos de shows de rap, fez o projeto Poesia Contra a Violência. Começou inclusive a aparecer nos cartazes de show, como uma atração. Iniciava-se uma trajetória de sucesso, entendido “sucesso” como a oportunidade de ser reconhecido pela comunidade na qual está inserido. “Tenho mentalidade de gente pequena: adoro ser conhecido pelo pessoal do meu bairro, ser reconhecido onde vivo. Eu sou muito fechado, fico preso só àquele entorno.” Para quem diz ter mentalidade miúda, até que Vaz foi longe.

Como o Sarau chegou ao Bar do Zé Batidão?

Foi em março de 2003, quando o cara vendeu o bar no Taboão. A gente já tava indo lá de segunda-feira. E eu havia lançado meu livro [Subindo a Ladeira Mora a Noite] em 1988 no bar dele, que era em outro lugar. Pra você ter uma idéia, no lançamento, tinha frango com maionese (risos). E o bar já havia sido do meu pai. E já tinha feito eventos lá, feito um evento que era samba e poesia. Mas quando chegamos, tínhamos uma base montada – foi só trazer a comunidade. O mérito da Cooperifa foi fazer com que pessoas que nunca tivessem escrito poesia começassem a escrever. Agora tem vários saraus, mas todos usufruem o que a Cooperifa construiu, tanto que são quase sempre os mesmos poetas. Para a poesia isso não é interessante, porque não expande. Por isso estou fazendo saraus e oficinas poéticas no EJA (Escola de Jovens e Adultos), para formar outros escritores.

 

E criou vários escritores na Cooperifa.

Sim, Allan da Rosa, Elizandra, Fuzzil, Dughetto, que já vinha no sarau do Taboão.

 

Vai muita gente do centro expandido lá?

Tem cerca de 40% do público. E muita gente foi lá porque viu na televisão, inclusive gente do próprio bairro. Porque o cara chega em casa umas seis ou sete da noite e entra direto, vê aquela muvuca ali na frente do bar mas não se interessa. Várias pessoas foram por causa de matéria na televisão. O louco é que o lugar virou uma referência geográfica.

 

***

 

Simplicidade

 

No princípio quando era o verbo

de tão pequeno me achava grande,

uma enorme sombra diante de um sol pequeno.

Mas a grandeza das coisa pequenas,

que são as estrelas na órbita da lua,

ensina que a vida cabe somente

na sua via-láctea.

Porém,

se no teu infinito

não cabe a escuridão alheia,

você brilha tão intenso

que o universo cabe todo

numa casca de noz.

E aí, de tão grande a simplicidade

nasce em teu coração

um planeta melhor:

eu, tu, eles, nós, voz.

Essa agitação literária periférica obviamente não se inicia com as atividades da Cooperifa. Autores representativos dessa geração, como Alessandro Buzo e Ferréz, já tinham carreira. Ferréz, por exemplo, lançou vários livros, como o fenômeno de vendas Capão Pecado, teve livros publicados em vários países e deu visibilidade nacional a essa efervescência literária criando o projeto Literatura Marginal – edições especiais da revista Caros Amigos, da qual foi colaborador. O autor é um dos grandes fenômenos literários do mercado editorial brasileiro nos últimos quinze anos. Atualmente, Ferréz organiza eventos literários na sua quebrada, criou o Selo Povo, lançando livros a preços populares e é responsável pela 1daSul, marca onipresente nas periferias, cujo logo adorna bonés de manos e minas – inclusive no centro da cidade.

 

Allan da Rosa, junto a mais outros parceiros, criou a ousada Edições Toró. “O Allan foi muito feliz. Porque o povo quer ler, e ele quer ler o livro do amigo, sabe? E os intelectuais deviam agradecer a gente, porque em um dado momento esses leitores vão chegar a outros autores”, diz Vaz. Com edições semi-profissionais e projetos gráficos especiais para cada edição, alcançaram uma marca que faz inveja a muita editora comercial por aí: em pouco mais de um ano, lançaram cerca de doze livros, contemplando gêneros como novela, teatro, poesia, crônicas e ensaio fotográfico. Coisa de gente grande e que confirma o vigor dessa produção.

 

Outro fato sintomático do crescimento desta geração literária foi a criação da coleção Literatura Periférica pela Editora Global. Até o fechamento desta edição [lembrando: o texto é de maio de 2008], haviam sido publicados três livros: Guerreira, de Alessandro Buzo, 85 Letras e Um Disparo, de Sacolinha, e Colecionador de Pedras, último dos cinco livros publicados por Sergio Vaz – o primeiro lançado comercialmente.

 

Como Sergio Vaz diz, os saraus na periferia viraram “moda”. É possível notar, pela Agenda da Periferia (publicação gratuita mensal da ONG Ação Educativa), projeto encabeçado por Eleílson Leite, apoiador do Sarau da Cooperifa e de outras ações na periferia a existência de cerca de vinte saraus espalhados pela cidade.

Quem são os pilares da Cooperifa?

Marco Pezão, Rose Dórea, o Márcio Batista… A maioria eram meus amigos. Eu chamava eles e se não viessem, ficava de mal, porque sou ditador pra caramba, meio Hugo Chávez, fazia chantagem emocional, aquele dramalhão. ‘Se fosse festa no Centro você ia’, chorava, daí o cara ia. Lembro de uma frase do Prestes de quando apoiou o Getúlio, ‘Minha ideologia está acima de minhas tragédias pessoais’. Eu também acho que o sarau é maior que minha vaidade. Quando o Brown foi a primeira vez, depois ficava chantageando ele. Com o GOG também. O povo fugia de mim (risos).

 

Quando o Mano Brown foi no programa Roda Viva (da TV Cultura) e falou que não lia você ficou triste de alguma forma?

De jeito nenhum. O certo era ele não ir, para mim. É lógico que ele lê, ninguém faz o que ele faz sem ler. Ele ajudou muito a gente. Quando ele ia, se tinha cinqüenta pessoas, subia para cem pessoas.

 

Você fala no conceito de artistas-cidadãos. O que é isso?

Quando começamos a Cooperifa, tinha-se aquela idéia de ONG. Mas a gente não tá ensinando ninguém a ser escritor. O lance era levar cidadania por meio da literatura, cada um que faça o que quiser da vida dele. Se virar artista, que vire artista-cidadão, que esteja a serviço da comunidade. Nosso trabalho representa uma comunidade, o preto, o branco pobre, a macumba, o evangélico… Já tem muita gente fazendo arte pela arte. Daí querem nos culpar quando fazemos denúncia, protesto. Gosto do Jorge Furtado – meu sonho é conhecer esse cara! Ele fez o curta Ilha das Flores, que ensina um monte de coisa sem ser chato, gosto da idéia do “distraídos venceremos” [frase do poeta Paulo Leminski].

 

O Sarau tem datas especiais, festivas, né?

Tem o Dia da Mulher, em que acontece o Joelhaço [os homens se ajoelham para as mulheres e pedem perdão], o Dia da Consciência Negra, o Dia das Mães, o Aniversário da Cooperifa, o aniversário de São Paulo, a entrega do Prêmio da Cooperifa, dia 30 de Abril tem o Poesia no Ar, quando colocamos 500 balões de gás com poesias amarradas. Eu gosto dessa coisa da celebração. Acho que a periferia precisa aprender a gozar. Fazer filho a gente já sabe, faz um monte e faz bem (risos).

 

***

 

Segundo a pesquisa Observador Brasil 2008, feita pela financeira francesa Cetelem com o instituto de pesquisas Ipsos Public Affairs, publicada recentemente, em 2007 a classe C (brasileiros com renda média familiar de R$ 1.062) passou a ser a maior parcela da população. E esse número se avolumou sobretudo com o ingresso de cidadãos das classes D e E. Sob uma perspectiva sociológica, é possível atribuir o boom dos saraus periféricos a isto: se a população passa a ter uma renda maior, pode consumir bens “supérfluos”, como arte. Dica para estudiosos de plantão. Outro fator, certamente, é a felicidade por viver em espaços onde todos são ouvidos e podem construir narrativas que nem sempre estão condicionadas a estereótipos. É a periferia deglutindo a própria periferia – primeiro alimenta-se dos paradigmas culturais “da ponte pra lá” para depois se alimentar da sua própria produção. Antropofagia ao quadrado. E o curioso é que o Sarau se constituiu como um espaço autônomo em relação ao poder público. Sem cimento nem dinheiro do Estado – apenas a palavra empenhada.

O Sarau da Cooperifa produziu, em parceria com o Itaú Cultural, um CD com leituras de poetas do Sarau e uma antologia em livro chamada Rastilho de Pólvora (a segunda já está a caminho), A Semana de Arte Moderna da Periferia, e será assunto de um documentário da DGT Filmes ainda este ano. Curioso é que, em um ambiente de carência total, surgem soluções criativas e livres para o mundo moderno, como assinalou o geógrafo Milton Santos, um dos maiores humanistas que este país conheceu. Desde que conheci o Sarau e Sergio Vaz, sempre vi nele um grande humanista, acima de tudo. A conversa entre nós, que aconteceu nas dependências de um espaço cultural em Taboão da Serra, cidade onde reside o poeta, caminhava para o fim quando, num dos raros momentos em que o sorriso no rosto dá lugar a uma expressão taxativa, disse: “Na verdade não quero libertar ninguém. Até o medíocre tem liberdade de ser medíocre. A gente possibilita oportunidades para ele ser melhor, mas cada um escolhe o que quer. A minha ideia é que o ser humano não presta e é nivelado por baixo. Por isso, sou a favor da igualdade, de dar oportunidade de escolha às pessoas. A gente precisa ter prazer. Precisa ler para ter prazer, não é só para ter senso crítico. A gente tem que ter tempo para tomar cerveja, pra jogar bola domingo, ir no estádio, porque isso te dá felicidade”.

Qual foi o momento mais marcante para você?

Um dia teve um esquete teatral lá e um senhor chegou no dia e perguntou o que ia acontecer ali. Falei que ia ter teatro. O cara ficou achando que a gente ia levar o lugar físico, o prédio de um teatro para lá (risos). Expliquei para ele o que seria e ele falou ‘Pô, nunca vi teatro. Espera dez minutos para chamar minha mulher’. Um senhor de cerca de 60 anos. E pensei ‘puta, quero ver o que é isso’. Ele chegou com a esposa dele, encostou na parede e eu não vi a peça, fiquei vendo a reação deles. E ele ria meio contido, que nem macho [imita um tipo meio canastrão], ‘he he he, esses moleques’. Fui falar com ele depois e ele falou ‘Sabia que podia ter morrido sem nunca ver teatro?’ A maioria dos jovens que vão lá nunca viram teatro. Então já valeu o teatro estar ali. Aquilo me marcou. Imagina a quantidade de jovens que morreram e estão lá do lado, no cemitério, que nunca viram uma peça de teatro, nunca leram uma poesia?

 

Como foi a Semana de Arte Moderna da Periferia?

Fazia uns três anos que eu falava em fazer uma “semana de arte moderna da periferia”. Aí falavam “não, vamos fazer ‘semana de arte’ só”. Mas seria mais uma festinha da periferia, do gueto, mais um ponto de macumba na senzala, não iria ninguém. Tem que se apropriar de um bagulho deles, que eles respeitam, que é sagrado, e dessacralizar em praça pública. Daí, quando reunimos os grupos para organizar o evento, vieram questionar o nome e eu falei que não abria mão dele. É como eu falei, sou ditador. Eu queria isso, porque a Regina Casé não pediu autorização para fazer um programa chamado Central da Periferia. Não é antropofagia [lema modernista]? Vamos comer aquilo que eles nos deram a vida inteira e vomitar.

 

E o evento aconteceu só na Zona Sul?

Apenas na Zona Sul, até porque a gente não tinha grana, resumimos o que acontecia aqui. A gente não tinha dinheiro; só a arrogância em fazer um evento desses. O dinheiro apareceu uma semana antes. Eu saí com a cuia, fui na Ação Educativa, na Editora Global, no Itaú Cultural, no SESC.

 

“Segure na mão de quem está na frente e puxe a mão de quem estiver atrás.” Essa frase, que faz parte de um poema do Sergio Vaz, simboliza a maneira com que a Cooperifa planta o progresso na quebrada. O Sergio desenvolveu um jeito cabuloso de fazer com que as pessoas que tão na quebrada se sintam humanos, protagonistas, e não vítimas.

Na Cooperifa não têm vítima, lá tem artistas, pensadores e articuladores, que também são responsáveis de alguma maneira pela melhoria da quebrada, o papel de vítima não cabe lá não. É a semente da auto-estima, que ele planta e cobra na prática também, no comportamento, no respeito que ele exige que se tenha durante o Sarau.”
– Tatiana Ivanovici produtora e responsável pelo site DoLadoDeCá

 

Quais escritores você recomendaria para quem quer conhecer essa nova produção?

Eu recomendaria o Sacolinha http://sacolagraduado.blogspot.com.br/ . Eu gosto de poesia, ele gosta de literatura, conhece as editoras, sabe o que cada uma faz, tem interesse pela coisa toda.

 

É engraçado você falar que o ser humano não presta, porque você é um humanista, afinal.

Sim. Mas eu prefiro trabalhar com essa margem. Pra não me decepcionar. Essa idéia é o lance de me sentir desempregado, de achar que não preciso das coisas. É por isso que as pessoas se surpreendem, porque sou sempre simpático, mas na hora de falar “não”, sou firme. “Não” é “não”! Meu jeito é esse: sorriso no rosto e punhos cerrados. Posso falar que eu represento o Sarau da Cooperifa, mas não a periferia. Já tive luz cortada por conta disso, telefone cortado, quase perdi a mulher (risos). Tenho autoridade para falar daquilo. Eu vivo em função daquilo. Agora o Sarau tem vários pais e eu gosto disso, mas só quem pode bater é quem botou no mundo. (risos) Mas pode ajudar a educar, a cuidar, porque o filho tá bonito e tá crescendo.