jornalismo

Um Trabalhador Que Lê…

… os jornais de Pouso Alegre, após a redução da tarifa.

Ok, pode ser que você faça parte da vintena de leitores que não é de Pouso Alegre ou não acompanha o meu feed de notícias no Facebook. Assim sendo, recomendo este link pra entender o que foi a luta pela redução da tarifa do Transporte Público – urbano e rural – na cidade de Pouso Alegre.

Resolvi ler 5 jornais da cidade para avaliar a cobertura. Vale dizer, que o escopo da imprensa como um todo foi questionado sistematicamente pelos membros do Coletivo Pouso Alegre, grupo autônomo que tomou a frente das manifestações desde o início.  Obviamente, houveram exceções honrosas na péssima cobertura local. Mas falar de má qualidade no jornalismo local não é novidade; desde que acompanho o jornalismo regional, sobretudo no caso do impresso, os veículos se prestam pouco à averiguação, apuração, pesquisa enfim: o que faz da reportagem uma reportagem. Prestam-se, via de regra, como manifestos (panfletos?) porcos de interesses políticos de ocasião, em tom explicitamente conservador e cheio de preconceito de classe – só acompanhar como crimes cometidos pelos mais pobres são tratados com galhofa e as pessoas envolvidas como caricaturas.

Se dá pra apontar alguma mudança substancial na imprensa local, essa fica restrita a uma nova força política que ganhou a prefeitura em 2008, o PT, e o manteve nas eleições de 2012. O que acontece não é que o jornalismo se tornou mais ético, profissional ou humano. Não. É que agora temos jornais que representam os interesses do PT no poder! Isso diz muito sobre a qualidade e interesses do PT local e de sua base aliada. E vale dizer que na Câmara, 70% dos vereadores estão com a situação, isto é, com o PT do prefeito reeleito Agnaldo Perugini.

Aí você poderia dizer, “ah, mas toda a imprensa no mundo não representa interesses de alguém ou de um grupo?” e eu diria, sim, com toda a certeza. O que se passa em Pouso Alegre é que a imprensa tem aquele jeito PMDB de ser, ou seja: “se está no poder, sou a favor”. E com um acréscimo: mesmo como panfletos da situação e da oposição, são risíveis, desafiam bom senso, a norma da fina flor do Lácio e destilam boataria. É como se um péssimo colunista social se ocupasse de todas as editorias do jornal com a mesma abordagem e critérios que usaria na sua PÉSSIMA coluna social.

Então vamos lá: 5 jornais, a 1 real cada. 5 reais gastos. que desperdício de dinheiro! Que desperdício de tempo!

Folha de P. Alegre

folha de p alegre_capa

Foi mal, mas meu editor de imagens deu pau e não consegui girar esta e as demais imagens

Capa colorida. 8 páginas. Tiragem de 3 mil exemplares.

Bom, se é um jornal governista eu não sei, mas 80% do mesmo fala dos feitos do prefeito de forma nada crítica, tal qual um órgão oficial. Não assinam as matérias – feito exceção à coluna de um padre sobre a parábola do bom samaritano (e vale dizer que o prefeito tem uma base forte de eleitores dentre os católicos – e teve inclusive que participar da liturgia de rituais evangélicos pra mostrar que era um prefeito “de todos” durante campanha), e de um historiador contando causos locais na página 2, que é tida internacionalmente como espaço de opinião do jornal em si e de articulistas que representem opinião avalizada sobre temas candentes. Completa página um informe oficial da prefeitura sobre a ocupação da Câmara.

A manchete da capa dá o tom da cobertura: não foi o povo que se mobilizou durante duas semanas contra a tarifa e o “reinado” da empresa Princesa do Sul, que comanda o transporte público na cidade faz mais de duas décadas; foi o prefeito Perugini que “agiu”. De uma coisa não dá pra reclamar: são materialistas. Afinal, a canetada pra redução da tarifa sai da mão do prefeito, isso é fato. Assim sendo, e tendo em vista outro jornal que irei analisar, soam até mais “objetivos e imparciais”.

Só que não. Olhem abaixo.

folha de p alegre_materia

Este texto é, ipsis literis, um comunicado da PRÓPRIA prefeitura!! Confiram neste link. Não seria possível citar ao menos que se trata de um comunicado da prefeitura? Mas podem acreditar, tem que ter humor pra seguir adiante…

Jornal Diário

Jornal Diário_capa


Preto e branco. 8 páginas. Não informa tiragem mas diz que a circulação é regional.

Tadinhos, fizeram uma cobertura inicial das manifestações terrível, ficaram com a orelha quente de tanto apanhar nas redes sociais e na boca dos manifestantes, que resolveram soltar uma edição que não tratou da redução e do fim da ocupação da Câmara. Devem estar “xatiados” e resolveram, ao contrário de TODOS os outros jornais, que tal informação não venderia seu produto. Vai que estão certos. Ao menos, cobrem o futebol amador local (de forma “amadorística”, eu diria, mas deve ser recurso de linguagem pra acompanhar o tema) e tem resumo de novelas e horóscopo. Tá “serto”…

A Tribuna

A Tribuna_capa

8 páginas. preto e branco. Semanário. Tiragem de 2 mil exemplares.

Esse é um jornal conservador em sua abordagem e em seus valores jornalísticos, porque, ao fim e ao cabo, defendem a tradição do jornalismo pouso alegrense nonsense e de qualidade duvidosa. Não dá pra dizer que não há méritos nisso, né? A impressão é terrível, fotos ou chapadas ou “fantasmas”, lay out de panfleto de quermesse, manchetes “bombásticas” e logo DOIS slogans na capa: “Compromisso com a verdade” e “você não está mais sozinho”. Ra! Pai, afasta de mim esse cálice!

São de oposição. Oposição feroz, braba mesmo. Imagine aquele “jornalismo’ da Veja com 40 graus de febre e sem revisão de texto? O editorial é sobre as manifestações no Brasil. A imagem de uma urna eletrônica com a bombástica mensagem “o protesto das ruas tem que chegar aqui”. U-a-u. Só que eles não conseguem também esconder do lado de quem estão. Ainda bem:

A Tribuna_materia

“Perde, possivelmente, a empresa que vê sua capacidade de investimento reduzida, e com isso, perde a população, que corre um risco de ver piorar a qualidade dos serviços”. Não sua linda, quisera nós, o povo, conseguir fazer em 2 semanas de manifestação a redistribuição de renda nem que fosse na cidade. A tarifa foi reduzida porque se mostrou – graças ao estudo inicial apresentado PELO COLETIVO POUSO ALEGRE – que a tarifa era abusiva. Não perderam nada. Minto: perdeu o jornal porque mostrou desavergonhadamente que prefere os interesses de uma empresa privada do que os da população. Tudo na mais perfeita ordem.

A cereja do bolo: no pé da página oito, em letras garrafais: “NO JORNAL A TRIBUNA, A NOTÍCIA NÃO TEM PREÇO”. E é verdade!! Na capa desta edição do jornal NÃO consta o preço do mesmo – tive que confiar na jornaleira da Rodoviária que o preço é 1 real.

Jornal do Estado

Capa colorida. 8 páginas. Não consta periodicidade ou tiragem.

Jornal do Estado_capa

De cara, o melhor lay out, o que mais se assemelha tanto na distribuição das páginas quanto nas manchetes, de um jornal minimamente sério. E de longe o com melhor escrita e revisão. Ponto pra eles.

Claramente fazem oposição ao PT na prefeitura e, no que diz respeito à essa edição, politicamente, estão com o PSDB de Aécio Neves. Note: página 2, artigo do próprio Aécin. Nas “Frases da Semana”, frase do vice-presidente estadual do PSDB e novamente Aécin batendo no PT.

Jornal do estado_materia1

Jornal do Estado_materia2

Página 3. Reportagem ÓTIMA da Daniela Ayres, que foi amplamente percebida como jornalista séria e competente no decorrer destes 20 dias (e isso por fazer jornalismo simplesmente, não por tomar partido do Coletivo ou algo que seja) sobre a queda da tarifa e abaixo, na mesma página, reportagem sobre – chuta quem? Tcharan! – Aécin: “Aécio cria ‘rede’ para ala jovem dos tucanos”. Sério: nem sabia que existia tucanos jovens, ao menos aprendi algo.

Ainda há espaço para dizer que os mineiros são os que menos recebem repasse do PAC e uma notinha marota na página 2: “R$1,6 milhão – É o que deixará de ir aos cofres da concessionária de transporte coletivo em Pouso Alegre, a Princesa do Sul, ao fim de um ano, após a redução de 15 centavos na tarifa de ônibus”. Tadinhos. Faltou dizer que esse dinheiro economizado provavelmente vai ser gasto pela população com bens e serviços.

As matéria vem com créditos, editorias variadas e o bom e velho horóscopo e resumo das novelas.

P.A Notícias

P.A Notícias_capa

8 páginas. Capa colorida. Não tem periodicidade e tiragem assinalada.

Não precisa dizer muita coisa, vejam a capa. “Prefeitura ganha queda de braço”. Tá, cerca de 20 dias de pressão popular e era só a prefeitura querer então. Matéria na página 5 com o título: “Manifestantes ignoram pacote da administração. Trânsito é fechado e polícia prende dois homens”. Que manifestante ignorou o pacote – que ainda não foi implementado – da prefeitura? A movimentação tinha pauta única: redução da tarifa. Depois disso há um caminhão de propostas: auditoria do MP, grupo de avaliação da Tarifa Zero, participação popular no órgão regulador e, porque não, repensar a concessão de transporte. Jornal torna público de forma acrítica os feitos da prefeitura – mais da metade do material editorial, tirando publicidade – trata disso. E, novamente, copiam matéria do site da prefeitura e assinam como “Da redação”

P.A Noticias_materia

Pergunta sincera: o jornal é da prefeitura ou do PT? Não vejo problemas que seja nem de um nem de outro. Se é, não deveria ser gratuito – caso seja da prefeitura – ou deixar claro isto em ambos os casos hipotéticos apontados?

E porque não contratam um revisor, meu Deus?

Conclusão (dolorosa)

O Jornal do Estado é de longe o que melhor faz jornalismo – ainda que tenha um caso de amor com Aécin, um cara que vive mais no Rio de Janeiro do que em Minas Gerais (sério, eu o vi 2 vezes em situações noturnas quando morava no rio e nunca o vi morando em Minas, vai entender). É inegável.

Eu descartaria SEM DÚVIDAS A Tribuna e o Jornal Diário. Péssimos, feios, pessimamente editados, não tem quase informação objetiva, só deformação. Acompanharia, pelo bem da pluralidade, a Folha de P. Alegre, governista, e o Jornal do Estado, oposição e o melhor como jornalismo mesmo.

Sugestão:

Primeiro: Porque não contratam bons designers gráficos e publicitários pra cuidar da divulgação de seus jornais?

Segundo: A jornalista Daniela Ayres me disse durante a ocupação da Câmara – enquanto cobria o ocorrido – que há outros jornalistas tão bons como ela na cidade. Eu acredito – até porque a própria Univás parecia ter um curso de jornalismo no mínimo razoável. Não me parece que tenha tido uma época tão boa para se fundar um jornal VERDADEIRAMENTE independente e que faça jornalismo de verdade. Que seja inicialmente quinzenal. Que seja formato tablóide. Que seja preto e branco. Que seja um jornal MESMO! Pensem em um público centrado nos 20 e poucos anos, essa classe C em ascensão, com foco narrativo nos “de baixo”. A demanda é antiga, mas a oportunidade histórica me parece inequívoca.

Fui editor e repórter durante 7 anos da minha vida. hoje escrevo esporadicamente neste blog e colaboro de forma bissexta no site e revista VICE. Tenho, por experiência de causa, um bode danado da classe dos jornalistas – meu amigo Emicida costuma dizer que eu era “o ‘bico sujo’ [jornalista] que mais odiava jornalistas”. E deve ser verdade: como gostar de uma classe que chama patrão de “colega” e achincalha sistematicamente qualquer classe que resolva reivindicar seus direitos? Sou o primeiro a apoiar e divulgar a empreitada se alguém resolver fazê-la na cidade.

2 pensamentos sobre “Um Trabalhador Que Lê…

  1. Depois pede a dissertação de mestrado da minha ãe para ler. Trata disso. As posições são mais complicadas. Os donos de jornal são todos cabeça ou apoio financeiro de campanhas eleitorais. Tá todo mundo fazendo negócio com licitação pública o tempo todo. Uns estão ganhando, outros estão perdendo, é só cruzar os dados. Não tem ninguém tucano ou do PT, tem acordos visando contratos. Pede para a minha mãe.

  2. Parabéns! Gostei muito de sua análise e de sua sugestão: criar um jornal comprometido com o povo. Tava pensando em voltar com o Jornal do Cidadão. Enfim, é muito bom ler você, valeu!

Os comentários estão desativados.