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Quando que bonus dormitat Homerus – V

(na foto: Ginsberg, Gregory Corso e William Burroughs, em uma aula do curso de Poesia dos três malucões na Naropa Institute)

Canção

O peso do mundo

     é o amor.

Sob o fardo

     da solidão,

sob o fardo

     da insatisfação.

     o peso

o peso que carregamos

      é o amor.

Quem poderia negá-lo?

      Em sonhos

nos toca

       o corpo,

em pensamentos

       constrói

um milagre,

      na imaginação

aflige-se

      até tornar-se

humano –

sai para fora do coração

      ardendo de pureza –

pois o fardo da vida

       é o amor,

mas nós carregamos o peso

      cansados

e assim temos que descansar

nos braços do amor

       finalmente

temos que descansar nos braços

       do amor.

Nenhum descanso

          sem amor,

nenhum sono

            sem sonhos

de amor –

         esteja eu louco ou frio,

obcecado por anjos

         ou por máquinas,

o último desejo

       é o amor

– não pode ser amargo

       não pode ser negado

não pode ser contido

       quando negado:

o peso é demasiado

         – deve dar-se

sem nada de volta

       assim como o pensamento

é dado

        na solidão

em toda a excelência

         do seu excesso.

Os corpos quentes

        brilham juntos

na escuridão,

         a mão se move

para o centro

          da carne,

a pele treme

          na felicidade

e a alma sobe

        feliz até o olho –

sim, sim

         é isso o que

eu queria,

         eu sempre quis,

eu sempre quis,

         voltar

ao corpo

         em que nasci.

San Jose, 1954

Allen Ginsberg (tradução de Claudio Willer)

E é isso: FELIZ DIA DOS NAMORADOS!

Ok, não é meu poeta beat predileto – pra falar a verdade gosto PRA VALER apenas do Lawrence Ferlinghetti – e a maior parte de sua obra envelheceu mal, muito mal. Mas Allen Ginsberg foi, assim como para 10 entre 10 moleques adolescentes revoltados (não tenho problemas com a mediocridade), o poeta beat que fez a minha cabeça de imediato. Pá pum. Antes da existência dessa coleção de livros de bolso da L & PM, achar literatura beat era um périplo que fazia com que a aura contracultural do lance todo aumentasse, ganhasse uma respeitabilidade tal qual um tesouro raro e valioso. Era muito comum passarmos nossos surrados livros beat de mão em mãos entre os amigos. Lembro em particular do meu amigo Clodoaldo Paiva, que tinha um sebo no térreo do CRUSP onde passávamos tardes inteiras falando de punk rock, política radical e literatura, sobretudo poesia. Naquele tempo minha cabeça era um salão aberto a todo tipo de manifestação, as prateleiras vazias pedindo pra serem preenchidas. Que época! apesar da penúria e de todos os pequenos males do cotidiano que, como diria Maiakóvski, “ressecam o solo do coração”.

Retirei o poema acima da edição de bolso de “Uivo e Outros Poemas”. “Uivo”, pra quem não sabe, deve ter sido o último livro de poesia a realmente “pesar” sob toda uma geração, um movimento – vendeu só nos Estados Unidos em 3 anos mais de um milhão de cópias. Pra se ter ideia, amigos, poesia “de sucesso” no Brasil é autor que consegue vender mil cópias em 5 anos. Sério. É um chavão incômodo mas a realidade é essa: não se lê mais poesia. E eu nem sei como explicar de forma rápida como autores como Drummond, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Garcia Lorca entre tantos outros foram importantes pra minha vida. E como repetidas vezes volto a eles e (re)descubro uma ou duas coisinhas sobre os mistérios da palavra e da vida. Temo que algo se perca em definitivo com o crepúsculo dessa linguagem. Talvez o único misticismo necessário?

Ginsberg e essa edição surrada e enrugada do “Uivo” (ela sobreviveu a uma enchente em minha barraca durante o primeiro Fórum Social Mundial em Porto Alegre) me lembram de um outro eu muito mais romântico, mas também muito mais raivoso. E hoje, numa operação que não sei explicar, guardo muito mais amor pra entender a vida como um todo e deixei de lado toda e qualquer convenção de amor romântico. Pode parecer estranho, mas a vida me parece beeem melhor assim. E esse poema em particular me parece uma forma segura e desejável de falar de Dia dos Namorados – essa data que a bem da verdade nunca foi muito importante pra mim. Datas importantes pra mim me parecem ser carnaval e reveillon. E o aniversário de meus parentes pelo fardo psíquico que seria esquecê-los.

Abaixo, “América” – um desses poemas que ninguém passa por ele sem ao menos guardar um verso ou outro, musicado por Tom Waits, e a leitura do Uivo (“Howl”, em inglês), ambos lidos pelo próprio Ginsberg. E o grande lance de poesia beat é esse: é uma poesia que permanece boa na oralidade e no papel muitas vezes vai perdendo o viço.

Aqui há outras gravações interessantes de Ginsberg.

Leia também:

Quando que bonus dormitat Homerus – IV (Manuel Bandeira)