batebola

Projeto CLAUN É Uma “Zoeira”!

É difícil descrever em quantas maneiras diferentes o projeto CLAUN do diretor Felipe Bragança é inovador, cheio de potencialidades e nada menos que encantador!

A saber: o projeto CLAUN é uma plataforma transmídia que compreende inicialmente facebook e uma web-série em 3 episódios (o cerne do projeto ao meu ver) chamada Claun: os dias aventurosos de Ayana. Para 2014, promete desdobrar-se em um álbum de HQ e, posteriormente, em série audiovisual para TV ou web e uma reunião de documentos sobre a cultura e a mitologia em torno dos bate-bolas – o assunto principal do projeto. Merece tudo isso e muito mais!

batebola2

É vertiginosa e muito bem construída a assemblage de referências que perpassam os três episódios da web-série, fazendo jus à própria anarquia e caos tão caros ao universo bate-bola, destoando de tudo do Rio “oficial”, pra “turista ver” tão bem moldado sob a sinuosidade de sua geografia natural da Zona Sul. E se você tá boaindo ainda sobre o que seriam estes bate-bolas, recomendo ler este post do blog ou a matéria que fiz para o site da VICE Brasil. Confesso que das diversas tristezas que me abateram ao ser “expulso” do Rio, a maior foi não poder me mudar para o subúrbio para poder me aprofundar na cultuar dos “clóvis” ou “bate-bolas” e sair como tal no carnaval de 2014. Sério: aquela máscara, o ritual todo, a algazarra, a explosão de cores… tem um poder naquilo tudo que a pessoa tem que ser muito brochada pra não se deixar levar! Poucas vezes na vida encontrei com algo que poderia dizer de imediato, “putaqueopariu! eu nasci pra isso!”

IMPORTANTE: os 3 episódios da web-série do qual trato neste texto haviam sido tirados do ar e voltaram agora neste link e permanecem online até o dia 15 de Junho. VEJAM!

Bate Bola : Sweet & violent clowns from Rio de Janeiro

O que chama a atenção é que Felipe Bragança trabalha com um universo riquíssimo e vai além dele, gerando um segundo universo mítico que, se é exterior ao imaginário inicial, não o diminui ou obstrui, ao contrário: partindo de um fenômeno coletivo, o engenho individual do diretor cria algo que soa como um original desdobramento futuro daquela própria cultura. Há algo de vidência na operação que é característico de boas obras de arte. Ao trabalhar com sete turmas reais de bate-bolas segundo o diretor, Felipe ressignifica a cultura bate-bola de forma a colocá-la no século 21 com todo sua mística e encanto revigorados, em época onde o poder público e as elites cariocas querem ver o fenômeno como algo passadista, característico de um rio que não cabe em suas prospecções de curto prazo. Como diria Zagallo, a depender do projeto CLAUN, vão ter que engolir bonito tudo isso!

É tão eletrizante e paradoxalmente enigmática e por vezes elípticas a construção da aventura da menina Ayanna, que desafio o desconhecido em uma narrativa épica e mítica até se coroar a rainha de um exército de soldados sem nomes e sem rostos que se depara desde sempre com um inimigo que recebe as notícias de suas manobras pelos meios de comunicação oficiais (TV e rádio) enquanto se delicia com comida e bebida fina em sua lancha em algum ponto das águas da Zona Sul, e que mantém o caos desse mesmo incrível exército brancaleone apartado e longe de seu mundo por manobras escusas e pelo controle de batedores que agem no limiar destes dois mundos. Religião, carnaval e cultura pop contaminam todas as referências e gestos nos 3 episódios. Os cenários, os enquadramentos, a forma como dirige os atores, tudo tem um frescor que não se dá exatamente pela novidade que apresenta, e sim pela forma como articula elementos que a uma averiguação inicial soariam díspares, ‘errados”: nada mais justo com o universo bate-bola.

Por se tratar de uma obra que se desdobra em torno de uma cultura tida quase como “marginal’ dos subúrbios cariocas, não me espanta a ausência de “barulho” em torno do projeto que aos meus olhos soam tão vanguardistas e ousados. “Tudo na mais perfeita ordem”, seguindo a perspectiva do dadaísta John Heartfield. E é uma pena que ainda não haja recepção crítica suficientemente amparada pra lidar com tamanho fenômeno. É compreensível também porque não é uma tarefa fácil em nenhum contexto possível lidar com o projeto CLAUN, dado que não é exatamente “cinema” no sentido mais clássico que entende-se o tema, não é realista, ao mesmo tempo que representa esteticamente o subúrbio carioca como poucas vezes visto e porque não entrega de bandeja nem o mote nem a finalidade conceitual do projeto; a “moral da história” – até ela tão cara à 11 entre 10 projetos bem-sucedidos que se usam de imaginário pop, está um tanto difusa, enviesada. Pra usar de termo típico dos bate-bolas, é tudo muito “zoado” no universo CLAUN.

batebola4

Vale fazer menção ao belíssimo artigo do sempre atento – e citado por mim – Hermano Vianna, que acerta em cheio ao caracterizar o estilo do cineasta Felipe Bragança no projeto como “pós-udigrudi-com-tempero-thai-ou-filipino” e enxergar alguma simetria em chave mutacional com os meteorangos-kids de outrora. Hermano conclui e eu assino embaixo: “Como ninguém pensou nisso antes?”

Recomendo também, após assistir os 3 episódios – e REPITO mais uma vez: ASSISTAM! – a leitura do texto “Cultura fragmentada, mapas e sobreposição de visualidades” do próprio diretor da série no sempre bom blog do Instituto Moreira Salles.

Eu, que já ficara fascinado com a cultura bate-bola no processo de pensar a pauta toda para o blog da VICE, despiroquei de vez ao conhecer o projeto CLAUN. Unindo esse transe no qual embarquei ao meu interesse pela obra de Grant Morrison, Star Wars, filmes e jogos de zumbis, ficção científica, a série Suburbia da TV Globo e meu amplo fascínio pela cultura popular carioca, iniciei um romance infanto-juvenil chamado “A Metamorfose de Daniel Barata”. E não poderia deixar de dizer que me voltar à obra infanto-juvenil do Pedro Bandeira foi crucial pra criar coragem e começar o texto. Foi um jeito que achei para lidar com questões que me interessam sobremaneira como ecologia e racismo, a temática do trauma conferido às perdas familiares e as formas de superá-los e a vontade maior de ficcionalizar a classe média-baixa típica dos subúrbios urbanos da região sudeste do Brasil. E como ambição não me falta, da história inicial, já desenhei uma tetralogia que chamo de “Daniel, o Aventureiro”, livros ilustrados de cerca de 160 páginas cada um. A primeira escrita do primeiro volume já passei a um amigo editor. Se ele achar que dá pé, tenho trabalho por uns bons anos adiante.

Óbvio que se trata de operação muito mais prosaica do que a efetuada por Felipe Bragança com o projeto CLAUN, mas certamente é devedora inicialmente do meu fascínio pelos bate-bolas e em um segundo momento pelo meus entusiasmo com a maestria que Felipe trabalhou este universo.

E repito: vocês tempoucos dias pra ver essa série! Não percam tempo!