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Pozalégui Mon Amour II

 

Continuando a série sobre as boas novas da cidade de Pouso Alegre (“Pozalégui” pros iniciados), mais uma vez falando de música, novamente com três boas novas:

 

(pra entender melhor o intuito destes textos, leia o preâmbulo da primeira parte)

 

1. Não é “apenas” de Pouso Alegre, mas é da “grande Pouso Alegre”. Direto de Santa Rita do Sapucaí, cidade universitária e pólo tecnológico da região, “Hino de Libertação”, do Projeto Consonância. Beat bacana de Daniel Chimp, pontuando as intervenções dos MCs no melhor pique Costa Oeste anos 1990 dos Estados Unidos. Promissor, vale a pena ficar de olho no soundcloud deles. Confiantes no poder das palavras, algo que admiro e compartilho, eles costumam incentivar a troca de livros no ambiente de suas apresentações.

 

2. Distorção! é um programa de música “pesada”, que rola todo sábado, às 14h, ao vivo pela rádio comunitária Cidadã 90.9 FM. Dá pra ouvir a rádio na internet, inclusive.

 

O Mateus Vitorio tem apenas 18 anos e faz o programa na raça. No último sábado, rolou metal brasileiro dos anos 1980 além de, obviamente, homenagens ao Slayer, já que o lendário guitarrista Jeff Hanemann acabara de falecer. O programa é bem variado (passeando sempre dentro dos limites da música pesada) e o Mateus representa o bairro onde vivo, Árvore Grande, periferia da zona Sul da cidade e berço da mais tradicional roda de samba da cidade. Recomendo assinar a página no facebook e acompanhar o programa.

 

Eles não são só rostinhos bonitos no seu monitor: eles são o Nova Fronteira e você TEM que conhecê-los

Eles não são só rostinhos bonitos no seu monitor: eles são o Nova Fronteira e você TEM que conhecê-los

3. Primeiro de maio teve shows gratuito na avenida principal da cidade, dando uma geral no que rola na cidade em termos de música jovem. Num vou colocar o cartaz do evento aqui porque era tão feio, mas tão feio, que qualquer cartaz de quermesse dava um banho em termos de design e bom gosto. Perdi o show do La Tropa, grupo mais antigo de rap da cidade e que ainda irei falar sobre por aqui. Mas vi o show inteiro do Nova Fronteira, que tem o Davi Bernardo, grande compositor e instrumentista (quem conhece sabe: o fera é um guitarrista absurdamente virtuoso), dos maiores talentos da minha geração a ser descoberto por um público mais amplo – contando obviamente que o Psilosamples já é um nome consolidado para além dos limites locais.

 

Davi (que atualmente faz parte da banda da Mallu Magalhães) já havia lançado um álbum em 2010, Nova Fronteira (que empresta o nome ao seu atual grupo) que, passando em branco pelo radar da imprensa cultural brasileira, diz mais sobre o estado da mesma do que sobre a qualidade do trabalho. Em um amálgama muito particular de Edu Lobo, Clube da Esquina, Animal Collective, por exemplo, e um senso harmônico e detalhista muito raro no rock brasileiro, o álbum estabeleceu oito canções que se tornaram clássicos locais, como a faixa “Boa Morte”, e reuniu toda uma galera muito boa de letristas bissextos da cidade, como Lauro Mesquita (parceiro na canção “Dia Pela Noite” e líder do fundamental trio Space Invaders), Fabiano Scodeler (o criador por trás do Projeto Mujique, parceiro nas canções “Teresa”, “Errante” e “Nova Fronteira”) e Lucas Machado, parceiro em “Boa Morte”. E, pra mim, essa lirismo cheio de imagens interessantes, como “tempo de brindar e festejar a sorte de uma boa morte”, ou “indagora lembro feito fosse já, de poder viver de novo o que não dera certo” ou ainda sonhos/alucinações de “sonhei que era ninguém, sonhei que era Pelé, sonhei que era um urso polar e comia frutas azuis que começavam com a letra E” calam fundo num certo sentido coletivo local, onde cada festança junto dos amigos, cada desventura na vida, adquire um sentido mítico próprio, o que nos torna tão distintos em relação às outras cidades da região, ao Estado, ao país e o mundo.

 

 

Se o álbum de estreia do Davi já o colocava numa posição muito distinta entre os novos criadores no rock nacional (trabalhando em um nível de criação onde figura um Fernando Catatau e seu Cidadão Instigado, por exemplo), no show do dia do trabalhador apresentou de forma inequívoca seu trabalho novo, ainda muito calcado em suas composições anteriores, mas visivelmente mais “cheio”, mais “rock” (aqui entendido como uma música centrada nas  guitarras, o que fatalmente é um recorte falho), e agora acompanhado de uma turma irrepreensível sob qualquer medida: Marco Gerez e Fernando “Chankas” Cappi, ambos do Hurtmold, Rafael Miranda (ex-Space Invaders, atual Pumu e projeto homônimo) e João Paulo Nascimento (ex- Puro Lixo e ex-La Tropa).

 

(Baixe o álbum Nova Fronteira)

Abaixo, seis canções do show com qualidade de áudio e vídeo bem razoáveis, tirados do canal no youtube do próprio Davi. Vale notar que a música “A Última” é uma nova versão de composição do Fernando Cappi em seu projeto solo Chankas:

 

 

 

 

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Pozalégui Mon Amour I