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Pozalégui Mon Amour I

Pensa bem: Pouso Alegre tem cerca de 200 mil habitantes, e é a melhor cidade do Brasil pra um jovem tentar a vida. Psilosamples, Pumu, Davi Bernardo, Rafael Miranda, Erick Trip, Gabriel Mono Mic, La Tropa, Fulvio Faria, Projeto Mujique, DJ Foi Mal, Neurônios Livres, Baltazar… tudo coisa de amigos, uma mesma turma de capilaridade e talento espantoso, como diz a brincadeira, “um pouquinho maior que a torcida do América mineiro, que cabe em um fusquinha”, coisa de 10 cabeças se tanto. Mas faz a conta: nessa relação população total e artistas-Umbabarauma, pontas de lança (só tem goleador, nada de zagueiros ou goleiros), Pouso Alegre deve ser a cidade mais progressista no mundo da música no Brasil! Isso é dado, é estatística, mas não é viagem, porque se pá fica esquisito.

 

Começo a série Pozalégui Mon Amour com 4 dicas de coisas recentes, mas tentarei informar minha dúzia de leitores do Brasil do que acontece aqui com maior detalhismo e centrando em um ou outro artista.

 

Pra começo de conversa, a saber:

 

a. O namoro e/ou amizade Pozalégui x música de ponta começa lá nos anos 1980, com o Grupo Imbuia. Dessa geração atual até o Imbuia dá pra criar uma linha contínua (que com o tempo vocês verão algo por aqui), mas com maior intensidade o lance pega a partir de 92, com uma cena centrada em contracultura (punk, mais especificamente mas não só) e política radical esquerdista (anarquismo no campo das ideias políticas). Alguns atores dessa cena atual e parte do público (como eu, por exemplo) partem daí. Como essa combinação clássica do Brasil dos anos 1990 deu nessa toada neopsicodélica atual é um longo e tortuoso caminho, uma história a ser contada aos poucos.

 

b. Se hoje temos um artista de expressão global, o Psilosamples, nos heroicos 1990 de recessão tivemos o Space Invaders que teve dois CDs lançados pelo selo Bizarre de São Paulo (Objeto Amarelo, Tetine, Inumanos etc etc) que rodou o Brasil e chegou a ter música lançada em coletânea na Espanha. No rap, tivemos o Visão Geral, que fez barulho nos círculos bate-cabeça e o Hu-A, que chegou a lançar CD pela Zâmbia, gravadora que lançou Racionais, por exemplo. Repito: pra uma cidade desse porte, é muita coisa.

 

c. Pouso Alegre, graças ao empenho de indíviduos dessa mesma cena, em conjunto ou não, viabiliza um circuito de shows internacionais de fazer inveja a muita cidade grande. Nos últimos 8 anos, a saber: Medications, Phil Minton, Audrey Chen, Sol 6, Eternals, Daniel Higgs, The Ex, Zomes… De São Paulo: Hurtmold, M. Takara, Response Pirituba, Mundo Tigre, Ordinaria Hit, Objeto Amarelo, Akin… e tô esquecendo gente graúda, certeza. E a caravana prossegue.

 

d. Ao contrário das cenas que conheci/participei em São Paulo e no Rio, o recorte de classe social ou região por aqui é muito difuso. É uma maioria branca (até porque Pouso Alegre é uma cidade caucasiana), mas com pessoas de todas as áreas da cidade participando. Tem pobre, tem classe média despencante e tem classe média-média. Rico não sei, mas tem a ver com o perfil da cidade: aqui é mais ou menos uns 60% classe média, uns 39% pobre e 1% de rico. Nessa movimentação musical, classe média alta mesmo, aos moldes de São Paulo ou Rio, com passaporte cheio de carimbos etc, desconheço. Simples assim.

 

e. Dá pra dizer sem gastar muito o teclado que sim, os “paraísos artificiais” a moda de um Baudelaire (“estejamos embriagados, seja de poesia, de vinho ou ópio”) desempenham um papel nessa comunidade bem importante.

 

f. Não tem dinheiro público nessa brincadeira nem esquema Fora do Eixo, por exemplo. O négócio é faça-você-mesmo de deixar Ian Mackaye orgulhoso. E claro, boa parte da tigrada tá mais velha, tem um pequeno cascalhinho sobrando pra “jogar fora” e trazer coisas bacanas, como The Ex, e não ter que pegar o carro e gastar 3 horas (190 quilômetros de Fernão Dias) pra ir até São Paulo. Nesse esquema de “vaquinha”, sempre há nossos amigos queridos de SP e BH, por exemplo, que, irmanados na folia local (sim, fazemos festas como poucos!), nos ajudam a tocar o terror por aqui e na idílica Heliodora (Heliocrazy, no jargão local). Quem foi no reveillon Voodoohop por lá sabe do que estou falando…

 

Com esses apriorísticos em vista, para este e demais textos que virão, vamos às novidades:

 

1. Com nome de “Experimentalismo-sul-mineiro”, saiu uma matéria com o feríssimo Rafael Miranda, muso local, batera cabulosíssimo desde sempre e colocador de apelidos oficial da rapa toda. Dessa cena atual, é o “tio” da rapaziada, na ativa desde o Space Invaders já citado. Ah, o Rafael Miranda paga as contas e os cosméticos variados tocando bateria na banda da Mallu Magalhães. E vale dizer que o fera soltou 2 EPs só em 2013 sendo que um deles ganhou destaque no blog do sempre informado Chico Dub, o mentor do melhor festival de eletrônica de ponta do Brasil, o Novas Frequências, no Rio de Janeiro.

2. Uma hora do “Príncipe da Roça” Psilosamples na rádio Escuta do Centro Cultural da Juventude em SP com direito a dois sons novos. O nosso Zé Rolê – como o cara por trás dessa música feliz e desvairada é conhecido entre os seus – tocou na Europa e no México no último ano, frequentou qualquer lista de melhores do ano de 2012 que valha a pena e é ótimo cozinheiro. Resumindo, apesar de ser músico (ou seja, vai morrer pobre, como lembra a revista VICE), tá prontinho pra casar.

 

3. E o Projeto Mujique continua lançando sons incansavelmente! Dessa vez, uma “viagenzinha” marota de fusca… Fabiano Scodeler, o nome de RG do sujeito, é mestre em Machado de Assis (sim, diplomado e tudo na USP), saca muito de literatura, com destaque ao Guimarães Rosa (paixão compartilhada comigo), e começou atuando como letrista da rapaziada. Ainda que seja da geração dos 1990, certamente encontrou estímulo pra se enveredar nos brinquedos eletrônicos na ação do Psilosamples, com quem divide o projeto Neurônios Livres. Sua casa também é epicentro de produção, descontração e amizade na cena atual.

 

 

4. ​O Douglas é MC das antigas, e tem o trono indiscutível no rap local quando o assunto é ‘melhor letrista”. E acabou de botar esse site do link ali no início no ar. Autodidata, foi se formando sozinho nos corres da vida e é filho pródigo do São João, periferia oeste da cidade, um dos berços do rap local. Como dá pra sacar em seu site, o cara tá cheio de letras dando bobeira e esperando um produtor com sensibilidade aguçada pra conseguir transformar o seu canto falado (ou seria spoken word?) em música pedra 90. Ah, o cara inventou esse troço agora de Gabriel Mono Mic, me contou uma história bonita pra justificar mas o que digo pra vocês é: mais uma idiossincrasia da turma local. O Psilosamples, por exemplo, se mata “virtualmente” e volta com a mesma alcunha de 3 em 3 meses, vai vendo… O Douglas/Gabriel/Hummano/Mono mic foi se fazendo escritor com sua bagagem de leitor voraz através dos anos, saca só:

Música das Galáxias

Meteoro sonoro

Estéreo e aéreo

A base a nave

O groove e o grave.

(atualização: o Gabriel acabou de publicar esse relato autobiográfico)

2 pensamentos sobre “Pozalégui Mon Amour I

  1. Bacana demais o texto, somos filhos dessa terrinha doida do “faça você mesmo” sem ficar devendo nada a ninguém! Muito bacana o texto!!! Legal demais!!!

  2. Pingback: Pozalégui Mon Amour II | Big Mouth Strikes Again!

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