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Cadê Os “Zés” A Preencherem O Vazio Cultural?

Nunca antes na história deste país se falou tanto em “vazio da cultura”.Ok, você pode ter chego chegado de outra galáxia e não acompanhou a polêmica que um dossiê da Carta Captal sobre o assunto causou, como afirmar categoricamente, para nós pobres mortais, que “o belo não está à venda”, por exemplo.

 

Mino Carta, o editor da revista (diga-se de passagem, que deixei de acompanhar à época da campanha sistemática e difamatória contra Cesare Battistti, sem apresentar NUNCA artigo que desse voz ao escritor italiano), abriu o editorial da edição que continha o tal dossiê de forma enfática e sem meios termos, como é comum de sua lavra. “Há muito tempo o Brasil não produz escritores como Guimarães Rosa ou Gilberto Freyre. Há muito tempo o Brasil não produz pintores como Candido Portinari. Há muito tempo o Brasil não produz historiadores como Raymundo Faoro. Há muito tempo o Brasil não produz polivalentes cultores da ironia como Nelson Rodrigues. Há muito tempo o Brasil não produz jornalistas como Claudio Abramo, e mesmo repórteres como Rubem Braga e Joel Silveira. Há muito tempo…”. O editorial, carregava o singelo nome de “A imbecibilização do Brasil”, nem mais nem menos.

Era de se esperar que este país estivesse afundado em uma bosta mental – pra usar um termo de Oswald de Andrade – sem igual. O horror! O horror!

O problema é que a conta não bate no final, simples assim.

Obra de Marcelo Cidade

Obra de Marcelo Cidade

 

Sobre o dossiê da Carta Capital, saiu muita coisa interessante em tempo real. Cito, por exemplo, a resposta do escritor/tradutor Cláudio Willer que fora citado de forma equívoca pelo semanário paulista. Já o site Trezentos realizou uma crítica a esquerda, anotando, por exemplo, que “quando ele [o dossiê da Carta Capital] não fala do território, não trata da base, do trabalho, da resistência, da troca de materiais da própria vida espiritual que influi de forma determinante no território cultural”. Já o blog da Boitempo, na pessoa de Urariano Mota, foi mais parcimonioso com o tal dossiê e fez coro à reclamação pelo leite derramado de uma nação que não se letrou de forma sistemática e acurada.

 

Porém, o que chamou a atenção de imediato foi a tomada de posição do antropólogo Hermano Vianna que, em artigo d’O Globo, que começou com a mesma perplexidade com que recebi o dossiê: “Fiquei me sentindo alienígena. Vivo em um planeta diferente daquele habitado por quem não enxerga nada potente em nosso país. Meu problema é oposto: não dou conta da quantidade de coisas interessantes que considero merecedoras de divulgação/debate…”. O artigo, simplesmente verifica que muito provavelmente o que acontece, dada a experiência brasileira ao menos nos últimos 15 anos, é que houve uma mudança significativa no eixo geográfico da discussão cultural, não mais restrito a um filtro “sudestino” do bom gosto. “Era Melhor Antes”, o nome do artigo, fala diretamente à essa lógica meio escusa por trás da cantilena toda: vamos mudar tudo para não mudar nada. Claro, os exemplos do tal vigor cultural colocados ao fim do artigo de Hermano estão ali pra ser questionados, desabonando o argumento central. De minha parte, como fruidor exaustivo de quadrinhos, jamais usaria a obra dos irmãos paulistanos Bá e Moon para tratar de vigor dessa mídia. Arriégua!

 

Mas o melhor, ainda pelo Hermano Vianna, estava por vir em antológica entrevista ao Estado de S. Paulo, quando, sobre a mudança cultural pela qual o país passa, o antrópologo usa de uma imagem interessante (inspirada e invertendo o afro-futurismo a moda de um Funkadelic? Provavelmente!): “a grande mídia como um disco voador, sobrevoando o País, sem conexão com o mundo “de baixo”. De lá para cá, nada mudou tanto assim: apenas o barulho de fora (Ai se eu te Pego), amplificado por milhões de alto-falantes de som automotivo ou de celulares ligados em redes sociais, já penetra a fuselagem da nave, incomodando seus finos tripulantes”. A entrevista toda merece ser lida.

 

Claro, o ruído de comunicação entre as visões antagônicas apresentadas pra mim estão claras: de um lado, opera-se uma lamentação dos rumos da cultura brasileira a partir da alta cultura e a literatura, sobretudo, que perdera em potência e em capacidade crítica para recebê-la (esse é o argumento). De outro, comemora-se (ou ao menos nota-se) que a “baixa” cultura muito provavelmente nunca alcançou tamanha intensidade. Faço a distinção entre alta e baixa cultura porque, de parte a parte, é uma tônica do século 21 falar de um tal “embaralhamento” dessas noções. Pra mim, balela: quando a corda aperta, sempre um dos lados recorre a grita.

 

Porque voltar à questão, afinal? Porque parece que muita água ainda vai passar debaixo dessa ponte…

 

José Miguel Wisnik não é um zé qualquer – o oposto disso, inclusive! – quando o assunto é cultura brasileira. E eis que ele publica um texto, muito característico de seu papel como interlocutor cultural que desempenha comumente (o caso mais claro seria em relação ao livro Verdades Tropicais, de Caetano Veloso), onde, faz um aparte na discussão já fria, para reaquecer o poder dos argumentos de seu par uspiano, Vladimir Safatle, que escrevera artigo no dossiê da Carta Capital. Um ponto de interesse histórico levantado por Safatle deve ser esmiuçado por pessoas mais capazes do que eu, a saber: “É fato que todos os momentos de crescimento econômico brasileiro foram traduzidos em momentos de grande explosão criativa. Foi assim nos anos 30, nos anos 50 e mesmo nos anos 70, em plena ditadura.” Procede? Na minha visão de leigo, aparentemente faz algum sentido. Mas olhando para o agora, o “crítico Safatle enxerga falta de “exercício crítico (…) como se julgamentos de valor no campo da cultura fossem exercícios proibidos (…) por uma uma nova doxa”.  Mas isso não mostra porém o fato que essa crítica foi deslocada dos centros de poderes (universidade, a grande imprensa) por exemplo? E que cada vez mais há papeis em jogo como o crítico-artista, o artista-crítico, o fruidor-artista e assim por diante? Se isso torna o caldo cultural mais ralo ou azedo não sei dizer, porque o futuro não parece ainda estar escrito.

 

Parte importante do artigo de Wisnik parece tratar disso, ainda que não tocando na questão do evidente encolhimento do campo de trabalho remunerado dentro da indústria cultural (uma questão muito mais gritante pra patuleia toda, já que, na expressão de Guimarães Rosa, tão por aí ‘moendo no aspro’ como nunca): “No Brasil, a tendência a deslocar as pautas culturais do campo das ideias para o das vendagens, comportamento, moda e polêmica de superfície lavou o lastro frágil da vida literária acumulada, e acuou a atividade crítica num papel incômodo, impertinente e estigmatizado, substituído pela atividade dos agentes e assessores de imprensa, dos releases, das entrevistas e notas em colunas sociais, pela participação em eventos, num ambiente de coquetelização da cultura…” Enfim, elimina-se um “entreposto”, o crítico, na equação, e tudo continua na mais perfeita ordem. O que Wisnik não percebe (ou não quer perceber, afinal destituiria algo de sua aura ou poder), e o próprio Hermano trata de forma mais ligeira, é que o público/fruidor, no que diz respeito ao papel da mediação da indústria cultural como um todo (faz-se exceção ao poder da TV? Eu  prefiro!) é de cagar e andar cada vez mais para o que lhe é oferecido como parâmetro de gosto. Ou melhor: balizadores existem, mas estão pulverizados.

 

(Um exemplo claro na minha experiência pessoal: quem se importa se tal texto é de site/programa de rádio/revista x ou y, ou de crítico z são apenas eu e meus amigos que, de alguma forma, se engajam na indústria cultural. A imensa maioria, mesmo os “aficcionados”, vão recolhendo picado referências aqui e acolá, não significando, em um primeiro momento, ao meu ver, perda intensa de formação de repertório, de opinião. Diferente, mas não exatamente pior)

O artigo todo do Wisnik merece ser lido com atenção. Se você ficar curioso sobre o artigo “A crítica como papel de bala”, da Flora Süssekind, citado pelo Wisnik, abrace mais este desvio aqui.

 

Meu bom amigo Bernardo Oliveira, mantenedor do sempre atento blog Matéria, fez algumas observações em uma rede social que eu apresento aqui transcriadas, já que corroboro com as mesmas, de forma que se não corresponderem ao seu ponto de vista inicial, fica a responsabilidade de mau leitor toda pra mim:

 

  1. Valorizar a a perspectiva do “vazio” pela sua relativização (usando a tal da “abundância” da qual o Hermano é entusiasta), faz com que o papo se mantenha absolutamente dentro de um eixo onde conceitos, categorias e perspectivas históricas falam mais do que a produção cultural por si só;
  2. b. Mais uma vez me parece aquela perspectiva do intelectual que se vê alijado de poder ao conseguir manter cada vez menos diálogo com a produção cultural – um ressentimento que estava mais evidente no dossiê Safatle/Carta Capital mas que com o Wisnik, um cara de erudição “fina” até na hora de escrever, fica menos aparente. Há dois pontos aí:  falta de expressões universais para abordar “cultura brasileira contemporânea”, e a ausência de um aparato compartilhado (criado, obviamente, pela crítica, no caso de Wisnik), que na verdade remete a um momento do país onde a cultura brasileira era filtrada em termos “sudestino”;
  3. c. Ao fim e ao cabo, o texto do Wisnik, assim como o do Safatle — e por isso caia tão bem a certo gosto/pensamento compartilhado (afinal, minha porca formação resvala em parâmetros uspianos)  – cria esse antagonismo (irreconciliável na retórica do Wisnik) abundância x vazio, que pressupõe comparação, semelhança e oposição.
Obra de Nuno Ramos

Obra de Nuno Ramos

De Que Lado você Samba?

A obra de um Portinari, de um Oiticica, um Canções Praieiras do Dorival Caymmi ou o Refazenda de um Gilberto Gil, o cinema de Sganzerla ou Glauber Rocha, a literatura de uma Clarice Linspector ou de um Graciliano Ramos, ou as HQs de um Henfil ou de um Flavio Colin para mim são tão desejáveis (evitarei o termo importantes) do que as pinturas de um Rodrigo Bivar, o trabalho de um Nuno Ramos, o Padê de uma Juçara Marçal e Kiko Dinucci ou o Metódo Tufo de Experiência de um Cidadão Instigado, do cinema de um Kleber Mendonça, a literatura de um Paulo Lins ou de um Ricardo Lísias ou de um Alberto Mussa, das HQs de um André Toral ou do Rafa Campos Rocha… estão todas aí gritando coisas sobre minha vida, sobre o país, sobre o mundo. É abertamente uma visão entusiasmada de alguém que se quer cada vez mais pra fora dos “círculos de opinião”, de fruidor mesmo, que mantém o mesmo espírito aventureiro e curioso das primeiras exeriências com arte. Pra mim, que, paradoxalmente, leio de um Antônio Candido à literatura do descobrimento até os blogs que pipocam por aí a todo o momento, tá de bom tamanho. Se vejo diferenças qualitativas? Óbvio, não quero me perder no labirinto. Mas a priori, meu instinto desconfia do instinto conservador, como o de um Vargas Llosa, que diz que a obra do Damien Hirst, por exemplo, é lixo, como anota este artigo muito bacana do Alexandre Matias, estabelecendo as diferenças entre este ponto de vista e o de um Neil Gaiman, o quadrinista/escritor, por exemplo.

 

Me chama atenção demais essa preocupação reiterada dessa parte do debate com uma cultura letrada “por se realizar” no Brasil. Como sou devoto dos livros e da leitura, me chama muito para uma tomada de cosnciência e posição tal fato, mas verdadeiramente não entendo o que de tão distinto há nesse quesito entre o passado e o presente. A averiguar mais detidamente.

 

Por outro lado, detesto essa toada do “aconteceu, virou manchete” da cultura pop. Até porque não sou entusiasta de tecnologia per se ou da ideia de “progresso” ocidental. Sou de família humilde, não fico de chapeu na pista ou com a bunda dando bobeira pra passarem a mão: cultura pop é, em boa parte, produto de escritórios de publicidade, e eu acredito nas pessoas, não no lucro.

 

“Pois há uma regra e uma exceção. Cultura é a regra. E arte a exceção. Todos falam a regra: cigarro, computador, camisetas, TV, turismo, guerra. Ninguém fala a exceção. Ela não é dita, é escrita: Flaubert, Dostoiévski. É composta: Gershwin, Mozart. É pintada: Cézanne, Vermeer. É filmada: Antonioni, Vigo. Ou é vivida, e se torna a arte de viver: Srebenica, Mostar, Sarajevo. A regra quer a morte da exceção.Então a regra para a Europa Cultural é organizar a morte da arte de viver, que ainda floresce”. – Jean Luc Godard

 

Será que é possível se apropriar dessa pensata godardiana pra justificar que as classes inferiores estão tornando tudo regra em um movimento que corresponde a sua tomada de poder consumidor? Ou que esse curto-circuito na forma como nos chega bens culturais cria por extensão um curto-circuito na distinção entre arte e cultura?

 

“A cultura? Essa é a mercadoria ideal, que obriga a comprar todas as outras. Não é estranho que você queira oferecê-la a todos?” – revista da Internacional Situacionista, n. 8

 

Ambivalências e paradoxos, tamos aí! Eu quero poder curtir um John Cage ou um Phil Minton da mesma forma que ficar completamente estupefato com a Batalha do Passinho ou a caótica cultura dos bate-bolas cariocas. Como conjugar lé com cré, separar alhos de bugalhos? Sei não, dá uma olhada aí nos posts do blog, nas matérias que escrevo pro que resta de imprensa independente capaz de pagar aos escribas e me diga. “Se o barato é louco e o processo é lento, No momento, Deixa eu caminhar contra o vento”.

 

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Olhando no blog do Hermano para escrever este texto, vi que ele escreveu dois textos bacanas e cheios de revelações sobre o grande Jodorowski (aqui e aqui), e me lembrou que havia indicado o documentário  ”A Constelação Jodorowsky” aqui mesmo neste blog.

 

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Se o assunto é vazio de cultura e como esta parece mais um jogo de interesses de peixes graúdos, fica a dica da versão instrumental de “Triunfo”, de Emicida, colocada no youtube por seu produtor, Felipe Vassão. Se a questão dessa nova classe C é central para pensar a cultura hoje, recomendo a leitura atenta da letra desse rap, um verdadeiro statement dessa geração cria da Era Lula. Por ora, curte aí a instrumental, que não é pouca coisa e nem sua epicidade deixa dúvidas para mim do marco que representa.

 

 

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Bem que o Bernardo Oliveira me avisara que sua crítica para o disco Marginals + M. Takara — Ao Vivo Espaço + Soma (2013; s/g, Brasil) tratava de alguns pontos sobre a questão do vazio na cultura. Bingo! Recomendo a leitura e baixar o disco, óbvio.

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